Berlim: sinfonia de uma cidade
(Walther Ruttmann, 1927)
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A sociedade burguesa é indiferente a qualquer trabalho particular, sendo esta a fórmula mesma com que se enuncia a natureza progressiva da produtividade do trabalho nesta conformação societária. Justamente porque o trabalho é reduzido a mera capacidade de trabalhar - energia despendida por unidade de tempo -, a produtividade do trabalho tende a se ampliar continuamente. O mesmo processo que conduz a desprezar quaisquer habilidades específicas, reduzindo todo trabalho particular à sua condição abstrata, a trabalho social médio, introduz a máquina como elemento potencializador do processo produtivo. Significa, portanto, que cada trabalhador individualmente considerado põe em movimento massas crescentes de capital fixo (capital morto), gerando volumes igualmente crescentes de produto, processo que acompanha e corresponde, no entanto, à sua permanente desqualificação - que deve ser compreendida não como redução da complexidade de sua atividade em termos históricos comparativos, mas como fracionamento recorrente de toda e qualquer operação complexa, em um determinado estado da técnica, a seus componentes mais simples, com o que se procura codificar, na máquina ou naquela mesma infra-estrutura técnica, o savoir faire que envolve a compreensão da totalidade do processo, que gera um produto determinado. Esta determinação geral do modo capitalista de produção reaparece, mais desenvolvida, na tendência declinante da taxa de lucro, que não é nada além da expressão contraditória - em termos da produção capitalista, que tem por fundamento o lucro - do aumento contínuo da produtividade do trabalho.
(...) La tendencia progresiva de la tasa general de ganancia a la baja sólo es, por tanto, una expresión, peculiar al modo capitalista de producción, al desarrollo progresivo de la fuerza productiva social del trabajo. Con esto no queremos decir que la tasa de ganancia, transitoriamente, no pueda descender también por otras causas, pero com ello queda demostrado, a partir de la esencia del modo capitalista de producción y como una necesidad obvia, que en el progreso del mismo la tasa media general del plusvalor debe expresarse en una tasa general decreciente de ganancia. Puesto que la masa del trabajo vivo empleado siempre disminuye en relación con la masa del trabajo objetivado que aquél pone en movimiento, con los medios de producción productivamente consumidos, entonces también la parte de ese trabajo vivo que está impaga y que se objetiva en plusvalor debe hallarse en una proporción siempre decreciente con respecto al volumen de valor del capital global empleado. Esta proporción entre la masa de plusvalor y el valor del capital global empleado constituye, empero, la tasa de ganancia, que por consiguiente debe disminuir constantemente. (Marx, El Capital, Tomo III, Edição Eletrônica, p. 153)
O processo capitalista de produção funda, portanto, no mesmo movimento que torna recorrentemente indiferente qualquer trabalho particular, a indiferença geral para com as coisas, ou seja, para com o produto do trabalho. A atividade produtiva não liga mais o homem afetivamente àquilo que produz; não há qualquer vínculo mágico ou halo, mas apenas e tão somente o não reconhecimento universal e recíproco, como potência social. A coisa, portanto, só volta a ser capturada pelo indivíduo - como aquilo que estabelece um vínculo para com ele - no momento do consumo. Mas mesmo aí, no momento em que se subtrai a mercadoria de sua existência social, para fazê-la imergir no mundo estritamente privado, a coisa retorna ao homem como aquilo que é desprovido de aura, ou seja, não estabelece para com ele um vínculo orgânico, mas uma relação mediada pela necessidade, que foi social e culturalmente produzida - sendo, também ela, esta necessidade, um momento da própria reprodução do capital, mediada pelo homem. Não por acaso, essa coisa, que foi elevada à condição de objeto depositário de todo o desejo; que adquire ares de entidade dotada de poderes mágicos, logo se vê transformada em alvo de indiferença, quando não de escárnio. A promessa quebrada da mercadoria, que não pode entregar felicidade senão por um curto período (anestésico) de tempo, faz com que se volte contra ela, o elemento exato de que partiu todo o movimento - a indiferença.
Esta indiferença que se dirige à coisa é, contudo, ao mesmo tempo, a própria indiferença recíproca dos homens, que são para todos os fins e propósitos, individualmente inessenciais para a produção capitalista que, a rigor, está fadada a tentar se dissociar de seu elemento humano, como meta alucinada de sua plena e mais perfeita realização. A vitrine e o shopping center, as exposições universais do século XIX são, portanto, o lado luminoso de uma face igualmente sombria, que recorrente se apresenta na forma do dejeto e do rejeito; no aspecto desolador da casa de penhores, do depósito de lixo, e assim por diante.
Esta ambivalência para com a coisa - ou seja, o desejo de que ela se vê investida, mas igualmente a violência a que se encontra sujeita -, e que se materializa no consumo compulsório como realização da natureza heterônoma da ordem capitalista, culminando na posterior indiferença e abandono, não é inerte para o homem. A brutalidade a que se vê exposta a coisa, é aquela mesma que retorna ao homem como golpe fatal e indiferente contra sua própria humanidade. Às coisas que se amontoam, sem referência e sem história; sem vínculos de qualquer ordem, mas que sobrevivem como uma reminiscência do que já existiu, somam-se os homens cujas individualidades foram igualmente suprimidas, e que também se amontoam, de tal forma que a indiferença universal em que se fundamentam suas vidas possa se expressar na totalidade de sua verdade. Qual é o nome dessa terra de indiferença universal, em que as coisas e os homens se reúnem apenas como espectros do existente?



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