Introdução
Walter Benjamin, artífice da palavra.
(...) a língua exprime a realidade por meio de um sistema de signos. Já o cineasta exprime a realidade por meio da realidade. Esta talvez seja a razão de gostar do cinema, de preferi-lo, pois, ao exprimir a realidade como realidade, opero e vivo continuamente no nível da realidade.
(...) Quando sonhamos e recordamos, rodamos dentro de nós pequenos filmes. Isso quer dizer que o cinema tem seus fundamentos e suas raízes numa linguagem completamente irracional, irracionalista [...] No fundo, quando alguém vê um filme, tem a impressão de ter sonhado. (Pasolini, extraído de Pasolini, Nosso Próximo, de Giuseppe Bertolucci, citado na Folha de São Paulo, 18/03/07, caderno +mais!, p. 5)
A aproximação da filosofia de Walter Benjamin deve estar fundada no exercício da palavra, ainda que não necessariamente na abordagem fililógica, hermenêutica ou exegética, especialmente se elas estão erigidas em instrumentos, para resgatar a verdade do texto: a palavra não admite tutores e, em larga medida, é avessa ao cânone, que a quer petrificar no sentido, institucionalizando-o no reino de uma vez por todas. Não que a palavra não signifique e não tenha as devidas propriedades comunicativas. O fato, contudo, é que ela excede aquele que fala, sendo infinitamente maior do que ele, razão pela qual, mesmo no texto mais elaborado, em que se busca a precisão como obsessão, ainda assim, a palavra escapa ao controle, para ir além dos limites que se pretendeu impor a ela. A palavra é devota do espaço aberto de que se originou, ama as ruas, o praguejar, o que se disse sem querer; adere a tudo e, em certo grau, de tudo se diferencia. Não há silêncio de que não participe a palavra, de tal modo que ela existe, mesmo - e talvez especialmente - quando não pronunciada. A palavra, portanto, é tanto aquilo que se disse quanto, particularmente, o que se deixou de dizer, que ficou interrompido, mas, que ainda assim, se propaga como prenúncio inaudível da palavra. A palavra é um abismo, cavidade vaginal, onde todo o mundo, na exata medida em que se afirma, anuncia outros infinitos mundos e possibilidades. A palavra é a vertigem do abraço entre a culminação e o abissal; a reunião tensa de todo o tempo, nesse preciso agora, em que a palavra se coloca, apresentando-se em sua imensidão - que se oferece, segundo o duplo de sua face, eternamente plena e vazia. Quem olha para a palavra no rosto vê o infinito, as evoluções e as revoluções perpétuas da existência, mas, exatamente por isso, não pode deixar de encontrar, naquele fundo mais distante do olho que tem em mira, na sua profundidade insondável, a figura da morte, em seu mais tranqüilo fulgor. Essas são as primeiras flexões da palavra, a eternidade e o finito, que se multiplicam pelo tempo a se diferenciar na forma, apenas para encontrar recorrentemente aqueles mesmos elementos de partida. A mesma palavra, contudo, em sua conformação infinita, exige o pequenino homem para ser pronunciada, e este, ao fazê-lo, se vê atado ao oceano da língua, em que tudo aquilo que se comunicou, também é um eco e uma premonição; uma reminiscência e uma presciência: não há existência humana fora da palavra; viver é estar compreendido na linguagem, tomando-lhe os movimentos, como ondas, que ao se realizarem, se dissipam.
Todo arranjo, todo sentido, todos e quaisquer documentos estão fadados, portanto, a observar os mesmos desenvolvimentos que acometem a língua, mesmo que se mantenham imutáveis, em sua mais esplendorosa existência mineral. A língua esta viva e, exatamente por isso, os documentos se estraçalham continuamente, para somente voltar à luz do dia segundo um arranjo completamente novo, que conserva o passado não porque o reproduz, mas porque o vivifica nas possibilidades que, a rigor, sempre teve, mas que permanecem em latência, à espreita do tempo. Não o tempo que moveu os relógios, mas o tempo em que os homens amadurecem para ter a idade aproximada, ainda que inatingível da palavra. O homem busca desesperadamente, mas claramente destinado ao fracasso, ser co-eterno com a palavra. Não pode, porque a palavra que nega, que resiste e que não se entrega, que carrega aninhado no ventre o registro da falta e do irrealizado, as promessas, aquele preciso aquilo que a morte recusa, esta palavra, exatamente ela, está tecendo a humanidade do homem, lapidando-o como ser para o outro e, portanto, como ente social. A negativa recorrente da palavra afirma o homem como possibilidade, como reunião fraterna, como realização da comunidade, não a original - que é um sonho feérico da palavra, quando ainda estava no útero do indiferenciado -, mas aquela outra, artificial e não orgânica, que vai se materializando, como o outro lado do tecido, sobre o qual o homem trança a urdidura e a trama, de que resulta o texto.
Na imagem que a palavra institui, o mundo se olha na face e se reflete, reencontrando, portanto, sua natureza; as configurações e cristalizações que o constituem. Somente nesta reflexão o mundo tem objetivamente uma chance, não de negar o que de fato é, mas de se rearticular em um arranjo novo, onde toda a dor e desespero sejam preservados e superados, através de um salto sobre o ciclo infinito de suas repetições catastróficas. Essa esperança que a palavra contém, como propriedade sua, chama-se história. Ela não se realiza como continuidade, fundada na expectativa de diferenciação do mesmo no diferente, mas como salto do existente para uma outra órbita temporal, que a teologia, e a filosofia em muitas ocasiões, só puderam enunciar como um fim, posto que também uma realização e uma resolução. Contra isso se insurge, contudo, novamente a palavra, que mesmo tendo superado o aqui e o agora, encontra-se indissoluvelmente ligada à origem, onde infinito e o incompleto se reúnem. A palavra lembra ao homem que início e fim estão para além dele, e que ele permanece um viajante de estradas, cujos pontos terminais esgotam sua própria capacidade de enxergar.
Se o sentido nos escapa, exatamente como decorrência da imensidão da palavra, o mundo, então, vive o caos? Dito de outro modo, não podemos representar o mundo? Segura e legitimamente sim, mas segundo as contínuas transmutações da palavra; através das apropriações efêmeras que cada uma de suas infinitas revoluções nos permite, e precisamente através delas. Significa dizer que emergimos do mergulho na palavra não com a verdade e a certeza sensível, mas com imagens, como representações fisionômicas e fragmentárias do mundo - plenas em sua incompletude e limitações, cheias -, as quais, somadas ao infinito, produzem um rosto, uma face, que excedendo cada partícula, ainda assim, as contém. O universal não extingue, portanto, o particular, mas o conserva individuado, como elemento de um mosaico, ao passo que o fragmento, contém em si (o índice para) o universal, na medida em que somente através de sua limitação e pequenez, o universal pode ganhar expressão. O que se realiza através dessa abordagem - e esta é uma questão que envolve o método - não é, portanto, o sentido, mas o panorama fisionômico de uma época, o qual, a rigor, se obtém através da saturação de imagens ínfimas, que se alinham e articulam não segundo a intenção prévia de um sujeito cognoscente, mas como um evento único e total, para o qual contribuem decisivamente cada minúsculo elemento resgatado, que se articulou no todo, sem nele se dissolver. A lei de construção desse todo, como a da linguagem, não é linear, mas, muito ao contrário, segue uma lógica não linear, agregando conexões infinitas em rede.
Mas esta busca perpétua da palavra, ou, melhor dito, da transfiguração da palavra em imagem, não é um trabalho de Sísifo, infernal, prefigurando o desespero da loucura? Com toda a certeza, a palavra não é apenas um precipício, mas uma condenação ao recomeço, pois, tanto quanto traz consigo uma significação, exige que não esqueçamos a falta. Esta condenação ao trabalho insano, que contém o arcaico, é igualmente, contudo, o moderno conforme ele se apresenta a todos aqueles que estão condenados à atividade, como apêndice da máquina. Sísifo, nesse sentido, é uma posição societária, que no infernal de sua realização, não apenas se materializa no presente, mas também atualiza as infinitas gerações, que estiveram submetidas ao trabalho, como retorno perpétuo ao ponto de origem. Esses homens que emergem continuamente, de mãos parcialmente vazias e que, portanto, trazem sempre um pequeno bocado, escreveram através da história, documentos subliminares aos documentos, que souberam se preservar como história soterrada - mas material - no interior da palavra. A palavra grávida da palavra é a alegoria, como resistência e insubmissão ao sentido luminoso que quer apagar a sombra, sobre a qual, e a partir da qual, os documentos da cultura - e igualmente seus monumentos - se construíram. A posição daqueles que se comprometem com a superação da ordem deve ser, portanto, neste preciso momento, ainda que não necessariamente em outros, aquela ocupada por Sísifo e pelos homens que lhe correspondem artífices. Abandonam-se, portanto, ao trabalho da busca ininterrupta de imagens, que figuram palavras partidas. Esse trabalho, que se assemelha à catatonia, não é, contudo, aleatório. É não linear, não causal, mas nem por isso desprovido de necessidade. O aleatório pensado do ponto de vista da totalidade não existe, e o que parece como tal, apenas segue um padrão que, a cada momento do tempo, pode restar desconhecido, mas apenas para ser descoberto - do ponto de vista da ciência natural, a geometria dos fractais se encarrega de demonstrar como pertinente esse ponto de vista.
No que se refere à história essa estratégia é especialmente oportuna, porque no modo de produção capitalista a existência é, ela mesma, fruto da probabilidade, que tem, contudo, suas próprias leis. Deste modo, todos os lances, exatamente no arbitrário de seus resultados particulares, trazem a marca da lei, à qual só poderiam se furtar na condição de que o jogo parasse. O jogo contínuo, ou seja, o relançar-se perpetuamente, sempre a partir do mesmo início, é, contudo, inerente ao sistema. Deste modo, quanto mais se realiza seguindo o princípio da extração aleatória, tanto mais obstinadamente confirma o resultado ao qual tende, e do qual não pode escapar (o preço, por exemplo, sendo a esperança matemática do valor). A tarefa daquele que se coloca na posição dos despojados consiste, portanto, exatamente em registrar os resultados de todos e infinitos lances, fazendo emergir deles, não a causalidade ou o sentido, mas a imagem que o movimento aparentemente aleatório recusa e da qual quer evadir-se, para poder retornar novamente ao princípio e reiniciar todo o processo (o jogo). Essa atividade ininterrupta, que recusa a reflexão é, exatamente ela, o mergulho no mito - que só pode ser realizado através da imagem negada.
Esta imagem que todo recomeço evita, para poder permanecer o mesmo, não pode ser construída individualmente, pois está para muito além das possibilidades de qualquer indivíduo. Ela é uma potência social, uma completa configuração, um mapa da existência, onde se ajuntam traços e fragmentos, que se produziram alhures, em outras épocas, por infinitas mãos. Ela sequer se resolve em um uma obra, ou uma vida, mas as reúne todas, para um mesmo fim. De cada um de seus operários, independentemente da posição que ocupa no processo de configuração, requer-se, contudo, vislumbrar o mundo segundo um determinado conjunto de possíveis pontos de vista: o da morte, do estrangeiro, do exilado, do que está semi-desperto, do palhaço. É preciso parar o mundo, para vê-lo em sua efetiva imagem. O mundo, contudo, não quer ser parado. Esse requerimento se resolve, portanto, na alteridade, no estranhamento, na separação, no exílio, no desterro. Exatamente nesses territórios a distância não cai na cilada do positivismo, permanecendo, portanto, como ânsia do mundo, em sua ausência. Nesses turning points, nessas encruzilhadas, a palavra realiza-se como silêncio, a fala como interrupção e contenção, a mensagem como uma entrega confiante ao tempo. Nesse não dito, que se somou a tudo quanto se falou, na palavra que calou na boca do moribumdo, o tempo congela-se por um ínfimo instante, com o qual a face do atual se apresenta em todo seu desespero. O correspondente do atual, na obra, é legado: o vislumbre do mundo a partir da janela do trem que parte, do avião que decola, do navio que se afasta do cais. Toda obra, portanto, que aspira somar-se à empreitada do novo, deve posicionar o olho como se ele fosse capturar e conferir ao mundo um conjunto de imagens, que se reúnem em um concerto, cuja única meta é transcender o autor, para se arranjarem em outras configurações possíveis.
No que se refere ao legado, quando a palavra era fiel à mão, a experiência se transmitia por meio da linguagem oral, como imagem que se imprimia sobre o imaginário, através do abandono de cada qual à estória, que se narrava no compasso do fuso e da roca, das estações e do ritmo cósmico. A mão, em seu movimento incansável, carregava consigo a palavra, para frente e para trás; daqui até acolá, entre o por do sol e a mais profunda noite; pelo insondável, que remanescia profundo. A palavra, cuja regra era a repetição, remontava sobre si mesma, em finíssimas camadas que, se sobrepondo, compunham as cores da pátina, em que todo acréscimo ainda deixa entrever o fundo. Na palavra falada todos se pertenciam, como se pertencem e, portanto, no fundo desta estrutura narrativa está a comunidade, que sobrevive, ainda que como forma subordinada e residual da sociabilidade humana. Na narrativa, portanto, a palavra é uma carícia, que cujo útero reside na mão.
Quando, de outra parte, todos pertencem à coisa-capital, que restringe o contato face a face, para mediá-lo pelas coisas, a palavra escrita resulta dominante. A palavra escrita, como forma hegemônica de comunicação, expressa no terreno da linguagem, o mesmo fenômeno que a grande indústria representa na órbita da produção: a palavra escrita é aceleração, como o é a planta industrial moderna. Mas mesmo a palavra escrita tem que se contrair ainda mais, para poder corresponder às necessidades das coisas, na aceleração a que se submetem e impõem, ou, o que é o mesmo, aos requerimentos de valorização do capital. Essa contração da palavra a obriga a evoluir, primeiro para formas intermediárias entre a palavra escrita e os símbolos gráficos, até que, ao final do processo - que ainda hoje resta inconcluso - ela se transforme efetivamente em grafismo, signos e, finalmente, imagens - hieróglifos profanos -, que erigidas sob a tópica da precisão e da univocidade, criam uma selva de referências, que o próprio olho cuida de subverter, valendo-se da lógica de sua constituição fisiológica: da aceleração da imagem resulta o filme, como forma desenvolvida originalmente a partir da palavra.
On the top, na comunicação, vai agora, portanto, a imagem, que carrega a reboque a legenda, como reminiscência da palavra escrita. Capitaneia o cortejo, o olho. Os saudosistas da palavra em sua antiga configuração - que eventualmente são eruditos, filólogos, ou hermeutas -, se ressentem dessa evolução: querem a palavra em sua pureza, em toda a dignidade do texto. Os materialistas históricos, à sua vez, se apropriam da imagem produzida em escala frenética para subverter a palavra pura, e mostrá-la com sua face partida e mundana - o que se faz possível porque o olho dorme na sucessão de imagens (icônicas), da mesma forma que, antes, a mão, inebriada da circularidade da roca, cedia à imagem, no repetir-se regular do movimento. Reinventam, portanto, o espírito da narrativa, ou seja, a impressão da imagem a ferro no imaginário, não para comunicar uma experiência exemplar, ou para transmitir uma tradição milenar, mas para, bem ao contrário, saturar a palavra tornada ícone de significações desprovidas de experiências concretas, até que ela se eleve à auto-consciência, por ver refletida toda sua histórica, com aquela mesma precipitação que, dizem, ocorre na morte.
Neste momento total, e apenas nele; nesse instante de lucidez singular, e em nenhum outro, no agora em que a palavra-imagem reflete, surge o nome, como o duplo material daquela palavra. Revela-se, então, o atual em sua extensão, ainda que não como identidade1. No nome, a totalidade e o infinito miram o particular, como seu pequeno sol, e a criatura reflete a plenitude do seu ser para o outro. A palavra que nomeia, na medida em que estanca o tempo, ainda que por um infinitésimo de segundo - precisamente aquele momento em que se troca o olhar entre o universal e o particular - é a revolução. A revolução, contudo, não cria: dissolve por meio da reflexão, correspondendo, assim, à natureza do novo, que é o fluente, e não aquilo que está mineralizado na imagem (a revolução vivifica apenas porque permite à história não se repetir).
A história não se repete porque o nome, que levou a imagem do atual a refletir, tendo extraído o momento de seu giro catatônico em direção ao princípio, permite que se o esqueça, e que ele retorne à origem, ainda que levando consigo, tanto quanto deixando para trás, os índices de seu reconhecimento. O nome, portanto, se realiza na história como perdão, através do qual, a energia investida no subliminar recorrente, no inominado que assombra o presente e o atual, pode voltar ao indiferenciado, para ser matéria-prima do novo como novo. Esse processo de liberação só existe, contudo, quando o nome se apropria da totalidade do nominado, cobrindo a extensão que vai de sua proto-história até sua realização no futuro, como repetir eterno de um presente que se desconhece. O nome como perdão abrange a totalidade desse tempo e, exatamente por isso, é uma exigência radical. Se ela não se cumpre nesse radicalismo, os resíduos deixados para trás continuam a assombrar a existência, só deixando de atormentá-la quando, e se, finalmente, se reunirem em sua integridade constitutiva, como imagem. É do nome, da fisionomia da modernidade que ele expressa, que trata Walter Benjamin. O nome que antecipou como o calafrio em um pesadelo, prenunciando-o em muito de sua materialidade, sem, no entanto, poder dizê-lo, nós o conhecemos, sem poder ainda nominá-lo. Falta completar a obra, que o configure na completa extensão de sua presença. Se compreendermos a exata natureza da linguagem, e apenas nesta precisa condição, é legítimo dizer que há em Das Passagen-Werk um requerimento teológico: faltam os artífices para a obra. De todo modo, eles sempre faltam. Também assim a linguagem expressa sua permanente recusa à oclusão.
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1 Porque que o nome recolhe todo o semelhante com que se depara, acolhendo suas divergências no atual.



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