Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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(Ato I)

Um dia de fúria

(Joel Schumacher, 1993)

Um dia de fúria

(Joel Schumacher, 1993)

http://www.adorocinema.com/personalidades/diretores/joel-schumacher/corpo.asp

Bill está prestes a explodir, porque se sente oprimido justamente pelas agências com as quais se identifica; porque detesta aquilo que de fato tomou como referência e meta. Odeia como a mulher agredida em uma relação doentia, que assume essa agressão não como violência de seu amante, mas como uma espécie de síntese, por meio da qual o agredido e o agressor se rendem a um destino imutável; a uma tragédia que sempre esteve por acontecer. Sua esperança, portanto, é vã, sua redenção impossível; ele só conhece de si mesmo essa fúria, que é sua única experiência autêntica - põe-se a caminho, então, com resolução total.

Um dia de fúria

(Joel Schumacher, 1993)

http://www.imdb.com/name/nm0001708/

Compreende-se, portanto, que ele se lance furiosamente contra o gerente de uma lanchonete e sua atendente, quando ambos, burocraticamente, recusam-se a lhe dar o café da manhã, insistindo para que ele peça o almoço - o horário limite do café da manhã era 11:30h, e ele o havida demando uns poucos minutos depois. Bill não pode suportar esta recusa, assim como não pôde aceitar que o comerciante coreano lhe negasse um desconto sobre o preço da Coca Cola; ele não pode suportar mais nada, pois está completamente tomado pelas restrições, saturado pelos nãos que disse a si mesmo, e por meio dos quais aniquilou tudo o que pudesse dar à sua vida qualquer autenticidade.


Um dia de fúria

(Joel Schumacher, 1993)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Joel_Schumacher

Bill é o seu quarto, completamente asséptico, limpo, ordenado e organizado; sem qualquer lugar para aquilo que estivesse fora do planejado e do previsível. Na cena em que o quarto aparece, sua mãe está verdadeiramente aterrorizada diante da possibilidade de que o filho descobrisse sua intrusão. Ela teme por sua vida, pois percebe que Bill se convertera em um autômato e come como tal, de maneira irrefletida, ausente e maquinal; ruminado seu ódio atávico pelo mundo. Bill repete e repete, mecanicamente, e, portanto, mesmo desempregado há um mês, cumpre ainda todas as formalidades exteriores do antigo vínculo: onde será que ele almoça? Pergunta a mãe. Quem o saberia?

Em seu ódio pelo mundo, ainda que não se reconheça no personagem flagrantemente neo-nazista, Bill tudo vê pela ótica do esteriótipo e do clichê: a gangue latina violenta; o coreano que não sabe falar inglês, mas que já dita regras ao americano da cepa; os atendentes burocráticos e frívolos da lanchonete; os velhos patéticos e endinheirados do clube de golfe, o casal de gays que é agredido pelo vendedor de armas neonazista, e sim por diante. Todas estas presenças lhe são familiares, são elementos da cidade e de sua vida corriqueira. Ainda assim permanecem completamente estranhos e não introjetados; são semelhantes a uma praga rogada, mas com toda efetividade do existente. São acidentes geográficos; formas minerais de seres humanos, com as quais topa por seu trajeto pela cidade. Esses malditos devem pagar e pagam, tão corriqueiramente e tão estupidamente, quanto o sujeito que é baleado na discussão de trânsito; que é espancado até a morte na briga da boate e assim por diante. Segundo a lógica da explosão furiosa de Bill, está no agredido a explicação para a agressão.


Um dia de fúria

(Joel Schumacher, 1993)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Joel_Schumacher

Bill ainda que não tenha tomado o aspecto exterior e caricato do fascista, que repudia como louco; ainda que recuse sua homilia da intolerância, trabalha para defender a pátria e seus valores - faz mísseis para a defesa americana; ajuda a combater os comunistas. Recusa, contudo, aquele caráter patético, mas apenas para realizá-lo em uma forma extremamente mais eficaz: como cidadão médio prestes a explodir e levar, em sua fúria caudalosa tudo e todos que reconhece e supõe como uma degradação da civilização.

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