Top Gun
(A política como esteticismo I)
O príncipe William é fotografado durante um treinamento de guerra do regimento de cavalaria do Household Cabalry, na Grã-Bretanha (12/10/2007)
UOL Celebridades
A proletarização crescente do homem contemporâneo e a importância cada vez maior das massas são dois aspectos do mesmo processo histórico. O fascismo pretendia organizar as massas sem tocar no regime da propriedade, que, no entanto, tende a ser rejeitado por essas massas. Ele acredita encontrar uma solução permitindo às massas, é claro, não que façam valer seus direitos, mas que se expressem. As massas têm o direito de exigir uma transformação do regime de propriedade; o fascismo quer permitir-lhes expressar-se, mas conservando esse regime. O resultado é que ele tende naturalmente a uma estetização da vida política. A essa violência feita às massas quando se impõe a ela o culto de um chefe corresponde a violência que uma aparelhagem sofre quando ela própria é posta a serviço dessa religião.
Todos os esforços para estetizar a política culminam num único ponto. Esse ponto é a guerra. A guerra, e somente ela, permite oferecer um objetivo aos movimentos de massa maiores sem tocar, no entanto, na estrutura da propriedade. Desse modo são traduzidos os fatos numa linguagem política. Numa linguagem técnica, serão formulados da seguinte maneira: somente a guerra permite mobilizar todos os meios técnicos do tempo presente sem nada mudar no regime de propriedade. (…) (BENJAMIN, 1969, p. 45)
Top Gun
(Tony Scott, 1986)
http://www.adorocinema.com/personalidades/diretores/tony-scott/tony-scott.asp
A política tornada vazia, transformada em espetáculo e performance, o que nos destina, não como promessa no futuro, mas como desastre no presente? Belicismo, intolerância nos mais variados níveis; renúncia ao diálogo e interposição da força como instrumento que instaura o monólogo, ressurgimento da tortura nas ações - supostamente militares - do “mundo rico”; desfazimento do sonho universalista do pós-guerra, para a afirmação da segregação e do ódio racista e etnocêntrico. Quais são as linhas que tecem a trama, que nos implica a todos, em uma violência que é tanto maior quanto menos percebida como questão interna às democracias?
Desde a primeira guerra do Iraque, em que se pôde assistir on line, real time, as atrocidades assépticas, virtuais, comandadas pela primeira tecnologia militar do mundo - ou talvez tão longinquamente quanto no Vietnã - não se pode mais desprezar, como fato sócio-político da maior significação, a natureza cinematográfica da guerra, que dissimula a ação militar em entretenimento. Por este meio, ou seja, transformando a catástrofe em artefato estético, faculta-se ao espectador dormir sono profundo, em meio ao mais intenso tormento. No cenário desta destruição, salva-se intacta a ordem, na condição de ponta de lança da civilização.
A guerra hi-tech, a guerra eletrônica, veloz, clean, precisa e fulminante, deveria acontecer imediatamente na televisão. Nenhuma distância no espaço nenhum intervalo no tempo deveriam se interpor entre o telespectador confortavelmente instalado em casa e o campo de batalha em Bagdá, Dahram, Jerusalém, Tel-Aviv… E aqui, o fluxo de imagens da CNN, que vão se atropelando e se substituindo no vídeo, engata diretamente na descarga de ansiedade que faz de todos nós voyeurs do destino dos outros e dos nossos próprios destinos (GARCIA DOS SANTOS, 1996, p. 160).
Guerra do Iraque
(David Leeson, Abril 2003 )
A realidade da guerra que se apresenta nos lares de todo o mundo numa fantástica superprodução é a da guerra sem cadáveres, sem sofrimento, mas com muita emoção - um videogame. E embora o próprio exército aliado tenha reconhecido que 70% das 88 mil toneladas de explosivos tenham atingido seus alvos e que só 70% dos bombardeios foram efetuados com as denominadas “bombas limpas”, o poderio militar dos EUA ganhou feições de ficção científica, como se a humanidade tivesse inaugurado uma nova forma de resolver cientificamente os grandes conflitos ocasionados por interesses internacionais. Nesse incrível teatro de operações, os telespectadores imóveis mas mobilizados cumprem o papel de informar-se, fechar-se em casa e apoiar os militares, integrando uma retaguarda solidária e um público fiel para as estrelas que acenam diariamente em suas maravilhosas aeronaves. Neste momento, a produção da informação pela televisão distingue-se daquelas empreendidas no passado: não se trata mais dede uma teleaudição (Segunda Guerra Mundial) ou de uma “tele-visão” (a Guerra do Vietnã) mas de uma verdadeira teleação, onde os telespectadores atuam como “parceiros de guerra”. (REIS FILHO; FERREIRA; ZENHA (orgs.), 2002, p. 235-236)



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