Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



Ato II Ato III Ato IV

Índice
(Ato I)

Sunset Boulevard

(A celebridade)

Iluminação, maquiagem1, roteiro: todos os elementos mobilizados pelo filme estão integrados, de modo a criar uma unidade tensa. No exercício metalingüístico que executa se opõem continuamente os elementos do cinema mudo - a representação grandiloqüente, o recurso mímico e o gesto superlativo, a maquiagem - àqueles das fitas sonorizadas, de que o personagem de William Holdem (Joe Gillis) é uma representação evidente - ridicularizando pelo contraste, com seu estilo low profile, tudo aquilo que a diva Norma Desmond representa.

Dentre todas as qualidades da película, a elaboração do narcisismo da grande diva merece particular atenção, especialmente porque se desenvolve através de um diálogo permanente com a casa, como representação de seu psiquismo, e da pessoa que de fato é. Trata-se, pelo exterior, de uma mansão abandonada e, de certo modo, excêntrica; desviada das rotas principais da cidade um lugar sem vida, ermo. Este não é apenas, contudo, como poderia parecer à primeira vista, o modo com os outros vêem Norma Desmond: é o próprio índice de sua interação com o outro. Naquilo que deveria ser uma relação e um relacionamento; uma determinação recíproca, a instituição da individualidade como acolhimento crítico do mundo, Norma é algo frio e rigorosamente morto, sem substância, devastado fora dela in fact não há mundo e, de certa maneira, aquilo que conhece como tal subordina-se imediatamente à sua vida onírica.

O exterior, portanto, contrasta com o interior da mansão, não apenas excessivamente ornamentada; repleta de objetos, aquecida e rica até o mau gosto, mas especialmente inundada de símbolos e referências à própria Norma: um monumento a si; a vida como auto-elogio e auto-referência. Gillis, a certa altura, se pergunta como alguém pode viver em um ambiente inundado por representações de si: fotos, filmes, pinturas, cartas, etc. A questão é que, a rigor, tudo é Norma e Norma é tudo - sua imagem obliterou o mundo.


O crepúsculo dos deuses

O exterior da casa”

(Billy Wilder, 1950)

http://cinegor.granadaenlared.com/bbiografia.htm

Nineteenth-century domestic interior. The space disguises itself - puts on, like an alluring creature, the costume of moods. The self-satisfied burgher should know something of the feeling that the next room might have witnessed the coronation of Charlemagne as well as the assassination of Henri IV, the signing of the Treaty of Verdun as well as the wedding of Otto and Theophano. In the end, things are merely mannequins, and even the great moments of world history are only costumes beneath which they exchange glances and complicity with nothingness, with the petty and the banal. Such nihilism is the innermost core of bourgeois coziness - a mood that hashish intoxication concentrates to satanic contentment, satanic knowing, satanic calm, indicating precisely to what extent the nineteenth-century interior is itself a stimulus to intoxication and dream. This mood involves, furthermore, an aversion to open air (so to speak) Uranian atmosphere, which throws a new light on the extravagant interior design of the period. To live in these interiors was to have woven a dense fabric about oneself, to have secluded oneself within a spider’s web, in whose toils world events hang loosely suspended like so many insect bodies sucked dry. From this cavern, one does not like to stir. (BENJAMIN, 1999, p. 216)

O crepúsculo dos deuses

A imagem da diva”

(Billy Wilder, 1950)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Billy_Wilder

A casa, pelo interior, é igualmente uma teia de aranha, onde se vêem capturados e mantidos sob uma forma morta e mórbida, sem energia, tudo aquilo que deveria ser propriamente humano - integrando-se, portanto, os personagens espectrais, à exuberância extravagante da decoração, como mais um de seus muitos elementos. Tal perda de substância e de vida, como vampirização, é claramente enunciada quando em certa passagem Norma adquire, através de suas mãos, os ares de Nosferatu.

Nosferatu & O Crepúsculo dos deuses

É reforçada, ainda, pelo fato de que Gillis, logo ao adentrar a casa, acaba substituindo (simbolicamente) um chipanzé morto; além de se enunciar que o primeiro marido da diva, que fora diretor de seus filmes e a descobrira para o cinema, se convertera em seu fiel escudeiro: o mordomo e, em certa medida, seu capacho. Neste aspecto Gillis, o amante, e o mordomo, ex-marido, são brinquedos sexuais de Norma. Caminha na mesma linha o fato de que seus amigos de cinema mudo, ao visitarem a mansão, são chamados pelo narrador (Gillis) de bonecos de cera, o que se refere tanto ao pertencimento a uma era superada do cinema, quanto ao fato de terem característica espectral: vida em morte.

O crepúsculo dos deuses

O chimpanzé morto”

(Billy Wilder, 1950)

http://www.alohacriticon.com/elcriticon/article2915.html

A natureza até certo ponto sinistra de Norma Desmond, seu caráter vampiresco, são amplamente figurados na película, que não por acaso investe no domínio da iluminação, de modo a criar o clima noir que a caracteriza. Há, no entanto, um elemento que merece ser salientado, ou seja, a necessidade de aninhar a protagonista, de zelar não apenas pelo seu conforto e satisfação, mas especialmente de protegê-la de si, o que se faz, contudo, como condição de preservar a ordem do mundo em que todos indistintamente vivem2. O narcisismo de Norma e sua loucura são, portanto, um atributo não apenas dela, mas de todos, pois aquilo que nela se ama e idolatra não é sua pessoa em sentido estrito, mas uma imagem em que todos investem e, por meio da qual, encontram um sentido e um lugar no mundo. A submissão do mordomo especialmente, mas também de Gillis e dos bonecos de cera é aquela dos semi-vivos na tradição do vampirismo, ou seja, dos humanos que zelam pelo sono desprotegido de Conde Drácula.

O crepúsculo dos deuses

Bonecos de Cera (Montagem)”

(Billy Wilder, 1950)

http://www.adorocinema.com/personalidades/diretores/billy-wilder/corpo.asp

Se atentarmos para este elemento é possível perceber que, para Norma, a única coisa que de fato está viva, que merece tal atributo, é sua imagem; algo que a representa, mas que não é ela mesma como ser, e à qual, deste modo, serve desesperadamente, na condição de um desdobramento e uma bipartição de si. Tudo que existe como humano é algo, portanto, que deve ser colocado a serviço da idolatria que cultiva não por si mesma, mas por uma representação imagética (um ser como tabu). A idolatria que todos cultivam pela musa é, nesta medida, um sentido de unidade; um mundo tornado íntegro e coerente. Neste contexto não há lugar para a deserção e independência, somente para a adesão e fusão. É por isso que Gillis, ao deixar a diva, é morto por ela. Afirma-se de modo prático, portanto, que fora de seu mundo onírico a vida é impossível.

In his study “La mante religeuse: Recherches sur la nature et la sgnification du mythe” <The praying Mantis: Investigations into the Nature and Meaning of Myth>, Calois refers to striking automatism of reflexes in the praying mantis (there is hardly a vital function that it does not also perform decapitated). He links it, on account of its fateful significance, with the baneful automatons known to us from myths. Thus Pandora: “automaton fabricated by blacksmith god for the ruin of humankind, for that “which all shall / take to their hearts with delight, an evil to love and embrace” (Hesiod, Works and Days, line 38). We encounter something similar in the Indian Kyrtya - those dolls, animated by sorcerers, which bring about death of men who embrace them. Our literature as well, in the motif of femmes fatales, possesses the concept of a woman-machine, artificial, mechanical, at variance with all living creatures, and above all murderous. No doubt psycho-analysis would not hesitate to explain this representation in its own terms by envisaging the relations between death and sexuality and, more precisely, by finding each ambiguously intimated in the other”. Roger Caillois, “La amante religeuse: Recherches sur la nature et la sgnification du mythe”, Mesures, 3, nº 2 (April 15, 1937). (BENJAMIN, 1999, p. 696)

Norma Desmond revela, portanto, os elementos demoníacos e infernais daquilo que nos fascina e encanta - ainda que não em decorrência da espontaneidade, mas da mais direta industrialização A devoção de que é objeto é o culto de uma imagem, em que se reconhece o mundo, quando ele ainda não havia se desvencilhado do mito. Esta imagem que Norma figura, como exemplo de uma série quase infinita, atualizada a partir de seus elementos arcaicos, é a celebridade que a modernidade instituiu como produto dileto.

O crepúsculo dos deuses

Gillis morto na piscina”

(Billy Wilder, 1950)

http://vagalume.uol.com.br/marilyn-monroe/videos/PidRamCcRPc-billy-wilder-marilyn-monroe.html

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Flip consagra o escritor-celebridade

Festa literária de Paraty, que começa na quarta, segue tendência de festivais em que autores "globetrotters" dão "show'

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0107200719.htm

Celebridades enchem blogs de bobagem:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1811200720.htm

Artistas querem dar a sua "própria versão dos fatos"

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1811200721.htm

Link Exclusivo para assinantes da Folha de São Paulo

Dez passos rumo ao desprestígio

Tendências do ano que se encerra fortalecem impressão de que o mundo literário está perdendo sua representatividade

http://www.estado.com.br/editorias/2007/12/30/cad-1.93.2.20071230.17.1.xml

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1 Que em si mesma é uma remissão ao cinema mudo, mas igualmente a insinuação dos elementos do teatro kabuki, onde o rosto, através da maquiagem, converte-se em máscara:

http://www.sp.br.emb-japan.go.jp/pt/info_cultura.htm

No teatro Kabuki, os complementos como as perucas e a maquiagem são uma parte fundamental do papel. Em peças históricas como Shibaruku, a maquiagem é espessa, elaborada, fantástica como uma máscara, enquanto que em dramas do cotidiano é ligeira e realista”. Fonte: http://www.geocities.com/sobreojapao/kabuki.htm

Para referência rápida, ver ainda:

http://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/downloads/kabuki.htm


2 Em Grande Hotel (Edmund Goulding, 1932) a personagem de Greta Garbo pode ser considerada a forma benigna de Norma Desmond, ou seja, um ser angelical e doce. Ainda assim toda sua claque age de modo exatamente igual àquele dos fiéis seguidores da primeira, preocupados em poupá-la do mundo. Na verdade não precisam e não querem que ela tenha uma relação verdadeira com a vida; exigem que ela represente um papel e que ocupe um lugar. Isto lhe basta. Não por acaso, portanto, seu amor encontra igualmente a morte: ele ameaçava a diva com a mulher de carne e osso.


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