A sociedade invencível
Na contemporaneidade encontra-se problematizada mais do que nunca a noção de indivíduo. Afinal de contas, a mercantilização absoluta - invadindo todas as esferas da vida privada, tomando-nos possibilidades criativas comezinhas, como preparar uma comida sofrível e fazer amor sem recorrer às pílulas ou ao imaginário de vídeo locadora - não constitui uma invasão de tal magnitude que rouba ao indivíduo sua própria condição definidora? E o que se colhe da dissolução do indivíduo, de sua redução à planura indiferenciada da tipologia, que o aparato de comunicação e marketing gera, para atender às necessidades de reprodução do capital e da forma mercadoria? Onde nos leva a sedução da ordem, que nos propõe a felicidade como uma negação da individuação e uma identificação absoluta e total com os padrões que ela mesma gera?
Todos podem ser como a sociedade todo-poderosa, todos podem se tornar felizes, desde que se entreguem de corpo e alma, desde que renunciem à pretensão de felicidade. Na fraqueza deles, a sociedade reconhece sua própria força e lhes confere uma parte dela. Seu desamparo qualifica-os como pessoas de confiança. É assim que se elimina o trágico. Outrora, a oposição do indivíduo à sociedade era a própria substância da sociedade. Ela glorificava a “a valentia e a liberdade do sentimento em face a um inimigo poderoso, de uma adversidade sublime, de um problema terrificante”. Hoje, o trágico dissolveu-se neste nada que é a falsa identidade da sociedade e do sujeito, cujo horror ainda se pode divisar fugidiamente na aparência nula do trágico. Mas o milagre da integração, o permanente ato de graça da autoridade em acolher o desamparado, forçado a engolir sua renitência, tudo isso significa o fascismo. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 144)
Triumph des Willens
(Leni Riefenstahl, 1934)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Leni_Riefenstahl
É preciso vagar nesta passagem: o fascínio e a sedução da sociedade contemporânea estão associados ao fato de que ela se propõe como invencível, de modo que aqueles que a ela aderem, que tomam seus referenciais esteriotipados como compromisso de vida; que fazem da sujeição absoluta aos princípios da ordem um programa existencial, tomam dela a força e a potência adquirindo, portanto, eles mesmos, estas qualidades mágicas. O winner e o looser são, desta maneira, faces opostas do mesmo, ou seja, elementos do padrão coercitivo geral que obriga à adesão irrefletida à sociedade invencível. Esta sociedade é, contudo, a um só tempo, expressão do coletivo e exclusão do coletivo e, portanto, tem igualmente a natureza de uma sociedade privada, sociedade entre amigos. Porque o não pertencer-lhe na forma exata de seus requerimentos já é a condenação ao território do infra-humano; no que se transforma a vida em uma concessão provisória, que pode ser cassada a qualquer tempo.
Nunca é demais lembrar e enfatizar a idéia segundo a qual o indivíduo, como realidade sensível e categoria do pensamento, é produto direto da ordem burguesa, que desfez os laços de servidão, compadrio, senhorio, etc.; que realizou uma verdadeira clivagem entre homem e natureza, através da eliminação da propriedade comunal do solo, assim como também via urbanização progressiva da vida1. Este indivíduo que surgiu da ordem burguesa para afirmar sua vontade e suas potencialidades, perante um mundo que se supunha estático; que se opôs a Deus, de maneira a fazer valer a sua condição não de criatura, mas de sujeito de sua própria história; que instituiu a razão2 e a racionalidade como orientadores da conduta, em oposição a uma concepção teológica do mundo; este mesmo personagem exuberante do iluminismo e da modernidade se vê, agora, em questão, posto que novamente submerso em um mundo pretensamente estático e sobredeterminado, na imensa maioria de suas facetas, por exterioridades quase totêmicas.
O animismo havia dotado a coisa de uma alma, o industrialismo coisifica as almas. (...) A partir do momento em que as mercadorias, com o fim do livre intercâmbio, perderam todas a suas qualidades econômicas salvo seu caráter de fetiche, este se espalhou como uma paralisia sobre a vida da sociedade em todos os seus aspectos. As inúmeras agências da produção em massa e da cultura por ela criada servem para inculcar no indivíduo os comportamentos normalizados como os únicos naturais, decentes, racionais. De agora em diante, ele só se determina como coisa, como elemento estatístico, como success or failure. Seu padrão é a autoconservação, a assemelhação bem ou malsucedida à objetividade de sua função e aos modelos colocados para ela. (…) A figura demoniacamente distorcida, que as coisas e os homens assumiram sob a luz do conhecimento isento de preconceitos, remete de volta à dominação, ao princípio que já operava a especificação do mana nos espíritos e divindades e fascinava o olhar dos feiticeiros e curandeiros. A fatalidade com que os tempos pré-históricos sancionavam a morte ininteligível passa a caracterizar a realidade integralmente ininteligível. O pânico meridiano com que os homens de repente se deram conta da natureza como totalidade encontrou sua correspondência no pânico que hoje está pronto para irromper a qualquer instante: os homens aguardam que este mundo sem saída seja incendiado por uma totalidade que eles próprios constituem e sobre a qual nada podem. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 40-1)
_____________________________________________________
1 O indivíduo surge, de certo modo, quando estabelece o seu eu e eleva o seu ser-para-si, sua unidade, à categoria de verdadeira determinação. Antes, a linguagem filosófica e a linguagem comum indicavam tudo isso mediante a palavra “autoconsciência”. Só é indivíduo aquele se diferencia a si mesmo dos interesses e pontos de vista dos outros, faz-se substância de si mesmo, estabelece como norma a autopreservação e o desenvolvimento próprio. E não é mero acidente fortuito que só por volta do século XVIII a palavra “indivíduo” tenha passado a designar homem singular, e que a coisa não seja muito mais antiga do que a palavra, dado que só começou a existir nos alvores do Renascimento. A extraordinária novidade da poesia de Petrarca foi vista, com razão, no fato de abrir os olhos, pela primeira vez, para a Individualidade. (ADORNO; HORKHEIMER, Cultrix, p. 52)
2 Convém desde já tentar precisar o que se entende aqui por razão. Como primeira qualificação vale a pena observar que estamos atentos ao fato de que Freud, de algum modo, ao trazer ao centro do debate a questão do inconsciente e, portanto, dos determinantes não conscientes da ação, acabou por delimitar e qualificar o que se pode entender através desta noção. Ainda assim, mesmo que reduzida em suas pretensões, a razão não pode deixar de ser o orientador por excelência de que dispõe o homem, na sua tarefa de compreensão do mundo em que se encontra e, com base nela, de erigir os meios de sua emancipação (com relação à ordem).
Uma psicanálise não pode ser freudiana e irracionalista ao mesmo tempo. Freud é o último e mais radical dos racionalistas e situa-se na linhagem direta do racionalismo iluminista. Sua divisa poderia ser a do Iluminismo: sapere aude! Ousa servir-te de tua razão! Mas seu racionalismo vai mais longe que o do Iluminismo. Pois este se limitava a dizer que o homem já era, de saída, racional e, por desconhecer os limites da razão, deixava o homem indefeso diante da desrazão. Freud descobriu esses limites e com isso armou o homem para a conquista da razão: ela não é um ponto de partida, mas um ponto de chegada. “A voz da inteligência é pouco audível”, diz ele, “mas não repousa enquanto não for escutada”. O primado da inteligência está, é certo, em um futuro distante, mas provavelmente não num futuro infinitamente distante”. O racionalismo de Freud atinge os limites da brutalidade: só existe uma divindade, por precária que seja, que é a razão: logos. “Nosso deus, logos, não é dos mais poderosos [...] Mas acreditamos que a ciência pode lograr algum conhecimento sobre o mundo real, graças ao qual será possível aumentar nosso poder sobre a natureza e organizar melhor nossa vida”.
No meio tempo, o homem pode impacientar-se e procurar por atalhos para a verdade, que dispensem a razão – seitas orientais, experiências místicas, “singularidades inefáveis”. Em vão. Pois, como Freud nos alertou, “quando o viajante canta no escuro, pode espantar seu medo, mas nem por isso vê mais claro”. (ROUANET, 1992, p. 143)
Dificilmente se poderia achar em um outro autor tamanha profissão de fé na razão. E isso ocorre, sem constituir-se em contradição ou paradoxo, justamente naquele que trouxe para a luz do dia a importância capital do inconsciente na determinação de nossas motivações, sejam elas quais forem. A razão, devidamente qualificada e delimitada por Freud, foi dotada assim dos meios que lhe permitem reconhecer sua antinomia, mesmo que ela venha ao mundo enfeitado com todos os elementos exteriores da racionalidade. Foi, portanto, reduzida à fragilidade de sua condição efetiva, que a razão encontrou a serenidade para o verdadeiro exercício do discernimento.



0 comentários:
Postar um comentário