Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



Ato II Ato III Ato IV

Índice
(Ato I)

A sociabilidade sob assalto


Compreende-se a velocidade e abrangência, com que a solução fascista tomou de assalto sociedades altamente desenvolvidas e politizadas, uma vez que se leve em consideração que a sobredeterminação do indivíduo ou, dito de outro modo, sua dissolução frente a entes que o sujeitavam, já ocorria antes da institucionalização do regime e como uma propriedade mesmo da moderna sociedade de massas. Dito de outro modo: as exigências da sociedade sobre o indivíduo, o esforço adaptativo que se lhe impõe já são “totais”, mesmo antes que se erija um regime totalitário. Por esta razão, na ausência de um exercício crítico permanente e de um esforço de resistência organizada e incansável às determinações do regime de produção, as condições que tornam possível a emergência e permanência das propostas fascistas apresentam-se, quase que subliminarmente.

A sobrevivência do fascismo e o insucesso da tão falada elaboração do passado, hoje desvirtuada em sua caricatura como esquecimento vazio e frio, devem-se à persistência dos pressupostos sociais objetivos que geram o fascismo. Este não pode ser produzido meramente a partir de disposições subjetivas. A ordem econômica e, seguindo seu modelo, em grande parte também a organização econômica, continuam obrigando a maioria das pessoas a depender de situações dadas em relação às quais são impotentes, bem como a se manter numa situação de não-emancipação. Se as pessoas querem viver, nada lhes resta senão se adaptar à situação existente, se conformar; precisam abrir mão daquela subjetividade autônoma a que remete a idéia de democracia; conseguem sobreviver apenas na medida em que abdicam seu próprio eu. Desvendar as teias do deslumbramento implicaria em um doloroso esforço de conhecimento que é travado pela própria situação da vida, com destaque para a indústria cultural intumescida como totalidade. A necessidade de uma tal adaptação, da identificação com o existente, com o dado, com o poder enquanto tal, gera o potencial totalitário. Este é reforçado pela insatisfação e pelo ódio, produzidos e reproduzidos pela própria imposição à adaptação. Justamente porque a realidade não cumpre a promessa de autonomia, enfim, promessa de felicidade que o conceito de democracia afinal assegurara, as pessoas tornam-se indiferentes à democracia, quando não passam até a odiá-la. A forma de organização política é experimentada como sendo inadequada à realidade social e econômica; assim como existe uma obrigação individual à adaptação, pretende-se que haja também, obrigatoriamente, uma adaptação das formas da vida coletiva, tanto mais quando se aguarda uma tal adaptação e balizamento do Estado como megaempresa na aguerrida competição de todos. Os que permanecem impotentes não conseguem suportar uma situação melhor sequer como mera ilusão; preferem livrar-se do compromisso com uma autonomia em cujos termos suspeitam não podem viver, atirando-se no cadinho do eu coletivo. (ADORNO, 1995, p.43-44)

O estado totalitário corresponde, portanto, ao patamar atingido pelas subjetividades: uma vez que os indivíduos tenham sidos obrigados a tudo renunciar, a sujeitarem-se à ordem apenas e tão somente para poderem viver, uma vez que sejam obrigados a fazer toda e qualquer coisa para garantir sua mera reprodução material, exigem que este estado de coisas se universalize, de modo a que ele seja compulsório. É assim que esta máquina infernal se põe a caminho; ela não admite dissidências, dúvidas, fraquezas ou sutilezas.

A redução ao padrão que a mercadoria exige e realiza, extrapola o mundo das coisas e assalta o mundo humano, e o ariano não é mais do que a busca enlouquecida por este padrão invariável que nenhum ser humano teria o direito de superar. O caráter absolutamente regressivo do fascismo também se encontra aqui: a miséria subjetiva universal, o esfacelamento de um mundo propriamente subjetivo, deve ser total e para sê-lo todos passam a estar condenados ao padrão. Mas, uma vez estatuído o padrão, que não pode ser mais do que a universalização do desespero, do preconceito e da pobreza de espírito, para super-compensar a miséria imanente, o herói deve dar o seu salto mortal e converter-se de penúria ambulante, de ressentimento personalizado, em super-homem atávico, em guerreiro celta, normando, etc. E como senhor do mundo, como mito ressurgido, de que cada indivíduo seria apenas um exemplar individual (obtido em série, como na moderna produção capitalista), este guerreiro fantasmagórico passa a ditar a vida e a morte e eliminar tudo a que ele não se assemelha e tudo em que ele não se reconhece. A reificação universal, a inversão a que o mundo produtor de mercadorias dá causa, quando nos fala em sua forma acabada, o faz através de homens de quem toda a substância vital foi extraída: autômatos, esta é a origem e a meta societária do regime totalitário.

0 comentários: