Sacco & Vanzetti
(Imigração e chauvinismo)
A constatação de que os deserdados não se comportem nos exatos termos da teoria marxista do sujeito revolucionário serve, perfeitamente, aos adoradores da ordem, em sua ufania do aqui e do agora. Corresponde, ainda, maravilhosamente, aos propósitos de uma certa esquerda que - por fazer vistas grossas à tragédia que o presente já contém - aposta naquele desenvolvimento gradualíssimo, que acabará por instituir o novo Adão como tipo universal: o consumidor, na qualidade de usufrutuário da civilização e da cultura. Entre o presente edulcorado e o futuro que universaliza este mesmo presente se aninha a serpente: a ordem, uma vez petrificada, está permanentemente prenhe da barbárie que lhe é própria, e que é indissociável de suas estratégias de preservação.
O anti-semitismo burguês tem um fundamento especificamente econômico: o disfarce da dominação na produção. Se, em épocas antigas, os dominadores eram imediatamente repressivos, de tal sorte que não somente abandonavam todo o trabalho às classes inferiores, mas declaravam o trabalho como a ignomínia que sempre foi a dominação, no mercantilismo, o monarca absoluto sofre uma metamorfose e transforma-se nos mais poderosos donos de manufaturas. A produção passa a ser aceitável na corte. Os senhores transformados em burgueses acabaram por despir o casaco colorido e passaram a envergar um traje civil. O trabalho não envergonha, diziam, para se apoderar mais racionalmente do trabalho de outrem. Eles próprios se incluíam entre os produtores, ao passo que continuavam a ser os mesmos rapinadores de sempre. (...) Os trabalhadores tinham de fornecer o máximo possível. Como o verdadeiro Shylock, ele insistia em sua promissória. Com base na posse de máquinas e do material, ele forçava os outros a produzir. Ele se denominava “produtor”, mas como qualquer um sabia no íntimo a verdade. O trabalho produtivo do capitalista – não importa se ele justificava seu lucro como salário do empresário, como no liberalismo, ou como vencimento de diretor, como hoje em dia – era a ideologia que encobria a essência do contrato de trabalho e a natureza rapinante do sistema econômico em geral.
Por isso as pessoas gritam: “pega ladrão”! e apontam para o judeu. Ele é, de fato, o bode expiatório, mas não somente para manobras e maquinações particulares, mas no sentido amplo em que a injustiça econômica da classe inteira é descarregada nele. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 162)
Esta fórmula, como expressão imediata do irracional e do irracionalismo, é inerente à sociedade burguesa, porque é o arranjo que permite converter o ódio que o sistema inspira - a revolta contra a coisificação que ele é -, em ressentimento aparentemente extra-sistêmico, no que ele se concentra e desenvolve como memória atávica, ainda que sob a condição estrita de ser igualmente uma farsa e uma fraude: lembrança forjada da invasão do território original da tribo, por todos os tipos odiosos de estrangeiros e apátridas.
Sacco & Vanzetti
(Giuliano Montaldo, 1971)
http://www.repubblica.it/trovacinema/scheda_personaggio.jsp?idContent=181721
O discurso chauvinista em que se esmeram os americanos, mas no que são seguidos pelos franceses, italianos, espanhóis, holandeses, alemães; e, igualmente, pelos paraguaios, colombianos, brasileiros, etc. é apenas o modo eterno como se pode dar ao peso irresistível da realidade uma versão dissimulada, na qual ela pode divergir de si mesma e, portanto, preservar-se como sortilégio. Nisto é preciso contrariar radicalmente do esquerdismo em suas formulações infantis: o chauvinismo é uma dimensão da ordem enquanto tal e não propriedade dos países ricos e imperialistas. Entende-se, então, que como discurso ele seja igualmente eficiente na Europa ou na África; nos Estados Unidos ou no leste asiático.
Verificamos que o anti-semitismo constitui um esforço apaixonado para realizar uma união nacional contra a divisão das sociedades em classe. Tenta eliminar a fragmentação da comunidade em grupos hostis entre si, levando as paixões comuns a uma temperatura tal que funda as barreiras. E como, entretanto, as divisões subsistem, posto que as causas econômicas e sociais permanecem inatas, visa agrupá-las todas numa só: as distinções entre ricos e pobres, entre classes trabalhadoras e classes possuidoras, entre poderes legais e poderes ocultos, entre citadinos e rurículas etc., ele as resume numa só diferença, a do judeu e a do não-judeu. Isto significa que o anti-semitismo é uma representação mística e burguesa da luta de classes e que não poderia existir numa sociedade sem classes. Manifesta a separação dos homens e seu isolamento no seio da comunidade, o conflito de interesses, o fracionamento das paixões: não poderia existir, exceto nas coletividades onde uma solidariedade une pluralidades fortemente estruturadas; é um fenômeno do pluralismo social. Numa sociedade cujos membros são todos solidários, porque todos se acham empenhados na mesma empresa, não haverá lugar para o anti-semitismo. Enfim, manifesta certa ligação mística e participacionista do homem com seu “bem” que resulta do regime atual de propriedade. (SARTRE, 1978, p. 85)
Sacco & Vanzetti
(Giuliano Montaldo, 1971)
http://www.imdb.com/name/nm0598855/
A questão migratória é núcleo do chauvinismo na contemporaneidade, o que coloca no centro do debate os problemas envolvendo a cidadania e os direitos de cidadania ou, em uma formulação diretamente econômica, os termos em que uma riqueza produzida globalmente, mundialmente, é apropriada por nacionais - dentro e fora de suas respectivas fronteiras nacionais. No contexto do drama contemporâneo, onde o liberalismo redivivo devolve ao mercado a tarefa de tudo fazer, é preciso ter claro que o racismo, o chauvinismo e muitos preconceitos ancestrais e arcaicos têm eterna funcionalidade para a ordem que, no afã de se perpetuar, explora à exaustão a fúria irracional e inconsciente dos de baixo, para melhor e mais eficientemente erigir as gaiolas em que estes se encontram enclausurados.
[o] fascismo também é totalitário na medida em que se esforça por colocar diretamente a serviço da dominação a própria rebelião da natureza contra essa dominação. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 172).
Sacco & Vanzetti
(Giuliano Montaldo, 1971)
http://www.imdb.com/name/nm0598855/
Demonstra-se, assim, o perigo de todas as soluções parciais; todas as obras que se fazem aos poucos, como renúncia da grande política: o imigrante que hoje ganha o status de cidadania; que se torna um nacional, ainda que de segunda classe e por força disso mesmo - porque sofre e é espezinhado, rotulado e vilipendiado, massacrado -, este mesmo sofredor vai se transformar, quando a ocasião for propicia, no neo-reacionário e, provavelmente, no mais reacionário entre eles. Sua condição de nacional, a tolerância quando muito caritativa de que é vítima e não beneficiário, depende da limitação do fluxo de entrada de novos estrangeiros, de modo que sua solidariedade para com os párias tem por limite natural a própria condição de ilegal. Para além dela, tudo o que foi uma irmandade passa a ser risco, que, por sua própria natureza no interior da sociedade capitalista, deve ser remunerado: o imigrante legal é, para o ilegal, toda a brutalidade da ordem, a exploração como memória recente da exploração e, em decorrência, uma força bruta de sujeição e de conformação.
Talvez seja por esta razão que o poder jamais proceda a uma legalização universal de seus ilegais: que a escória se veja dividida em distintas categorias é uma garantia por si mesma de que a exploração será maximamente eficaz e que cada povo cuidará dos seus. Deste modo, a imigração massiva que não se quer ver e que não se admite - mas que é absolutamente funcional para o sistema -, a ilegalidade como regra, encontram as formas institucionais que lhe são próprias: a máfia e o gueto. Tudo isso as modernas democracias aprenderam com o fascismo, que impôs como humilhação e como preceito de domínio, que os párias cuidassem dos párias; que se aniquilassem seus impulsos mais tênues de orgulho próprio, na forma compulsória de sua divisão em grupos especializados, nas tarefas auxiliares e subalternas de extermínio.
Sacco e Vanzetti pelo pintor e fotógrafo Ben Shahn
http://it.wikipedia.org/wiki/Sacco_e_Vanzetti
Neste sentido preciso, o ufanismo neoliberal, o auto-engano conveniente e leniente dos pequenos beneficiários da ordem, o sorriso satisfeito e triunfante dos potentados, todos convictos da estabilidade inquestionável do regime, de sua propensão à eternidade e, portanto, da legitimidade de sua existência perpétua, independentemente dos fins mobilizados, são mais críticos do que podem parecer, uma vez que suas estratégias mantêm abertas as trilhas largas que levam da civilização à barbárie. As questões nacionais, a exigir soluções urgentes, em benefício dos nacionais, hoje como no passado, têm como uma de suas “soluções naturais” a mobilização do racismo - como forma de mitigar a insegurança e frustração econômica que o regime, endogenamente, impõe aos trabalhadores e deserdados em geral. Obviamente a manipulação nacionalista é tanto mais eficaz quanto mais se pode bombardear a população com slogans, carregados de emotividade evidente e ódio etnocêntrico mal disfarçado:
Os impulsos que o sujeito não admite como seus e que, no entanto, lhe pertencem são atribuídos ao objeto: a vítima em potencial. Para o paranóico usual, sua escolha não é livre, mas obedece às leis de sua doença. No fascismo, esse comportamento é adotado pela política, o objeto da doença é determinado realisticamente, o sistema alucinatório torna-se a norma racional no mundo, e o desvio a neurose. O mecanismo que a ordem totalitária põe a seu serviço é tão antigo quanto a civilização. Os mesmos impulsos sexuais que a raça humana reprimiu souberam se conservar e se impor num sistema diabólico, tanto dentro dos indivíduos, quanto dos povos, na metamorfose imaginária do meio ambiente. Um indivíduo obcecado pelo desejo de matar sempre viu na vítima o perseguidor que o forçava a uma desesperada e legítima defesa, e os mais poderosos impérios sempre consideraram o vizinho mais fraco como uma ameaça insuportável, antes de cair sobre eles. A racionalização era uma finta e, ao mesmo tempo, algo de compulsivo. Quem é escolhido para inimigo é percebido como inimigo. O distúrbio está na incapacidade de o sujeito discernir no material projetado entre o que provém dele e o que é alheio. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 174-5 – grifos meus)
O poderoso chefão
(Francis Ford Coppola, 1972)
http://www.adorocinema.com/personalidades/diretores/francis-ford-coppola/corpo.asp
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"Brasileiros são prisioneiros do limbo"
Para a brasilianista Maxine Margolis, endurecimento de leis pós-11 de Setembro empurrou imigrantes para a ilegalidade
Na opinião da autora, da Universidade da Flórida, os imigrantes que já estão nos Estados Unidos se sentem obrigados a ficar no país
FOLHA - Como a sra. avalia o caso de Riverside [em Nova Jersey, em que a aprovação de legislação antiimigrantes afugentou a comunidade de brasileiros, o que causou um grande prejuízo econômico à cidade, que teve de revogar as leis]?
MARGOLIS - É um desses casos que fez o dia daquele homem repugnante, o Lou Dobbs [apresentador conservador da CNN]. Começou com uma série de reportagens, há um ou dois anos. Terminou com passeatas e grande movimentação antiimigrantes. É horrível.
Sei que a cidade tem um índice alto de desemprego, já foi uma zona industrial e recebeu uma onda de brasileiros. Mas norte-americanos com pouca educação têm dificuldade em arrumar bons empregos e facilidade em culpar os imigrantes por isso. E pessoas como o Lou Dobbs são especialistas em botar lenha nessa fogueira.



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