Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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(Ato I)

A razão e a perversão


O convívio relativamente pacífico entre o enorme desenvolvimento técnico-científico e a irracionalidade bárbara, que caracterizou tão intensamente o fascismo reclama a devida atenção. Afinal de contas, a lógica parece sugerir que a racionalidade técnico-científica deveria deslocar a irracionalidade e, a rigor, não foi isso que se deu - o fascismo não foi anti-tecnológico, ainda que tivesse desnaturado em larga medida a pesquisa científica. No campo econômico especificamente, o fascismo não eliminou a moderna produção fabril em favor de formas pré-capitalistas de produção; quanto antes se utilizou obstinadamente dela, de modo a potenciar seu poderio para o esforço de guerra. Em meio à sandice fascista sobreviveu, portanto, uma determinada manifestação da razão. Mas que “razão” é esta? Sem dúvidas a razão instrumental, conforme definida por Weber e, portanto, a racionalidade ao menos econômica, como a entendemos correntemente. Custa a crer, mas no fascismo conviveram, e de modo pacífico, orgânico, o fosso irracionalista do mito e a ciência aplicada, ela mesmo produto dileto da razão instrumental.

Estas questões não podem ser enfrentadas sem que aceitemos efetuar uma revisão crítica de muitas das crenças que vêm caracterizando a modernidade, se é que não estamos obrigados mesmo a repensar a modernidade enquanto tal. Ora, quem seria a principal vítima do fascismo no terreno do pensamento, senão o conceito de progresso, conforme nós o herdamos do Iluminismo? A inocência Iluminista jamais poderá se recuperar deste imenso golpe, através do qual se demonstrou de maneira inequívoca, insofismável e trágica que a possibilidade de alternativas regressivas existe, não como produto de um obscurantismo inofensivo e limitado, mas como via política de imenso poder e abrangência, a qual se encontra no interior mesmo da civilização e não em territórios dela desconhecidos.

Ao colocar o problema desta maneira, não se pretende de modo algum negar os princípios do Iluminismo. Muito ao contrário: ainda que ferida e alijada de sua inocência inicial pelo terror fascista, a razão no sentido crítico, a razão propugnada pelo projeto iluminista permanece como única porta de saída do inferno totalitário. Se aceitarmos partilhar do ideal kantiano do esclarecimento poderemos, talvez, abandonar nossa longa menoridade e compreender, que a civilização não é uma realização, mas um ideal e uma promessa; que o esforço crítico não é uma contingência, mas o único modo pelo qual se pode combater o irracionalismo; que não se pode transigir com a injustiça, posto que na indiferença diante do absurdo, é vitimada a totalidade da humanidade e não uma comunidade em particular; que as feridas marcadas sobre o corpo e o psiquismo do outro, são feridas que a mim se impõem, uma vez que degradam o estatuto mesmo da condição humana.

No que diz respeito à consciência coisificada, além disso é preciso examinar também a relação com a técnica, sem restringir-se a pequenos grupos. Esta relação é tão ambígua quanto a do esporte, com que aliás tem afinidade. Por um lado, é certo que todas as épocas produzem as personalidades - tipos de distribuição de energia psíquica - de que necessitam socialmente. Um mundo em que a técnica ocupa uma posição tão decisiva como acontece atualmente, gera pessoas tecnológicas, afinadas com a técnica. Isto tem a sua racionalidade boa: em seu plano mais restrito elas serão menos influenciáveis, com as correspondentes conseqüências no plano geral. Por outro lado, na relação atual com a técnica existe algo de exagerado, irracional, patogênico. Isto se vincula ao “véu tecnológico”. Os homens inclinam-se a considerar a técnica como sendo algo em si mesma, um fim em si mesmo, uma força própria, esquecendo que ela é a extensão do braço dos homens. (...) Não se sabe com certeza como se verifica a fetichização da técnica na psicologia individual dos indivíduos, onde está o ponto de transição entre uma relação racional com ela e aquela supervalorização, que leva, em última análise, quem projeta um sistema ferroviário para conduzir as vítimas de Auschwitz com maior rapidez e fluência, a esquecer o que acontece com estas vítimas em Auschwitz. (ADORNO, 1995, p. 132-3)

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