O normal e o limite do provável
Durante um tempo considerável, a normalidade do mundo normal é a mais eficaz proteção contra a denúncia dos crimes em massa dos regimes totalitários. “Os homens normais não sabem que tudo é possível” e, diante do monstruoso, recusam-se a crer em seus próprios olhos e ouvidos, tal como os homens da massa não confiaram nos seus quando se depararam com uma realidade normal onde já não havia lugar para eles. O motivo pelo qual os regimes totalitários podem ir tão longe na realização de um mundo invertido e fictício é que o mundo exterior não-totalitário também só acredita naquilo que quer e foge à realidade ante a verdadeira loucura, tanto quanto as massas diante do mundo normal. A repugnância do bom senso diante da fé no monstruoso é constantemente fortalecida pelo próprio governante totalitário, que não permite que nenhuma estatística digna de fé, nenhum fato ou algarismo passível de controle venha a ser publicado, de sorte que só existem informes subjetivos, incontroláveis e inafiançáveis acerca dos países dos mortos-vivos. (ARENDT, 1990, p. 487)
Triumph des Willens1
(Leni Riefenstahl, 1934)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Leni_Riefenstahl
Muito mais comumente do que se pode imaginar o senso comum e a normalidade não nos conduzem ao que é real e verdadeiro, mas a uma fuga desesperada de ambos: um completo desterro da razão e da racionalidade. Justamente quando a realidade se torna terrível e o horror se erige em potência cotidiana; nos momentos em que o poder se perverte completamente, para se tornar negação de tudo que é humano, a afirmação do normal é, concomitantemente, uma defesa contra a realidade, que se tornou insuportável. Justamente porque o absurdo e o insano não cabem nos quadros de referência da normalidade, ela se torna um refúgio seguro, de modo que a vida pode ter uma seqüência tranqüila, fundamentada na convicção inabalável de que a mais pérfida ignomínia não poderia ser mais do que uma suposição sem fundamento. Esta pressuposição segundo a qual, o mal e a loucura têm limites, que não se pode sobrepujar certas regras básicas de civilidade; a certeza de que o poder jamais tomaria um caráter francamente hostil e homicida são as próprias garantias subjetivas dos absurdos que perpetra, e sem as quais eles seriam impossíveis.
Triumph des Willens
(Leni Riefenstahl, 1934)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Leni_Riefenstahl
Deste modo, convicto de que o normal tornou o absurdo e o horror uma extra-territorialidade - lugar, portanto, em que os termos da barbárie podem ser impostos e exercidos sem qualquer resistência que se lhe oponham -, o poder se empenha em levar sua perversão até os limites do realizável: e tanto mais monstruoso e efetivo em sua tarefa de destruição; quanto mais improvável em sua desumanidade, tanto menos ele é percebido pela normalidade - que, à sua vez, se exilou em outro mundo, como ato de defesa e impulso de auto-preservação, relativamente àquela bestialidade em que se converteu o poder.
Nessa geopolítica do afeto, todos os indícios que deveriam demonstrar à exaustão, a natureza da monstruosidade que se pratica servem, exatamente e ao contrário, para dissimulá-la em meio à vida corrente, como seu desdobramento imaterial; um mundo de outra ordem, sem substância, pelo qual se transpassa sem ver; se escuta sem ouvir; se vê sem enxergar. Essa disjunção serve ao poder, tanto quanto serve ao homem normal e, nesta negativa recíproca, de ver e de informar, a ignomínia deixa seu rastro de sangue, mas apenas como indicação tênue; insinuação do monstruoso, como demanda tácita para realizar e dar seqüência à barbárie.
Neste sentido, o apego desesperado ao normal e à normalidade são elementos da mesma doença que nutre a loucura, pois nesta oclusão que nega o absurdo, o mundo se apresenta como cisão e como licença e escusa para o assassínio. O país dos mortos-vivos, o campo de concentração, o gulag; a favela e o gueto são uma cegueira, mas apenas na condição de se apresentarem como uma recusa da visão; a instituição do normal como negação de tudo aquilo que excede a vida cômoda, as explicações fáceis e as pequenas conquistas. É por isso que a revelação do genocídio se apresenta como uma surpresa: ele é o desnudamento do ponto cego da visão.
Tão logo se revele, contudo, retoma-se o caminho da negação, uma vez que o normal volta a opor resistência àquilo que o ameaça, na condição de território do que é conhecido, comezinho e razoável. Recusa-se, deste modo, substancialidade ao mal que, por isso mesmo, encontra o terreno próprio através do qual pode se perpetuar. O caminho para sanidade exige, portanto, que se mantenha uma tensão para com as formas aparentemente inofensivas e inertes da vida cotidiana, pois elas aninham, com ventre quente e maternal, a monstruosidade que se predica inexistente e insubsistente.
Ao Leitor
A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso espírito e o corpo viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.
Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.
Na almofada do mal é Satã Trimegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade então se evola
Por obra deste sábio que age sem ser visto.
É o Diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.
Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.
Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.
Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,
Um há mais feios, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!
(BAUDELAIRE. Charles. As Flores do Mal.)
Fonte: http://www.archives.gov/research/ww2/photos/
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