O fascismo é proto-político
A tendência à despersonalização e à dissolução da individualidade,1 a insegurança inseparável da condição moderna - posto que o modo pelo qual a vida se produz e reproduz, para cada indivíduo em particular, é algo de probabilístico e externo à sua vontade - criam as macro condições para o surgimento da intolerância, da violência e, finalmente, das práticas fascistas. A relação, portanto, entre democracia de massa e irrupções fascistas não é simples, não sendo equivocado afirmar que de modo algum, a simples presença de um regime democrático, eliminaria possibilidades e soluções daquela natureza. Ao contrário, o regime democrático nas condições da sociedade contemporânea, marcada que está por uma deficiência imanente no processo formativo dos indivíduos, compreende em si o fascismo como possibilidade. A formalidade normativa (democrática) não afasta a hipótese fascista, simplesmente porque os fundamentos do fascismo são também proto-políticos, encontrando-se na sociedade civil, na intimidade da vida privada, na economia pulsional da sociedade de massas. Ainda que não se deva cair no erro de - abstraindo tudo aquilo que se sabe sobre o fascismo histórico -, enxergar manifestações fascistas em todos os lugares, não se pode desconsiderar que existem atualmente, por exemplo, elementos francamente fascistas no debate político mundial. Talvez, contrariamente ao que pensam muitos, o perigo maior se apresente, justamente, na sobrevivência de tendências fascistas no interior da democracia, tendências estas que, diferentemente do neonazismo, por não serem explícitas, dificilmente se podem identificar e combater 2.
Malaise is a consequence of the depersonalization and permanent insecurity of modern life. Yet it has never been felt among people so strongly as in the past few decades. The inchoate protest, the sense of disenchantment, and the vague complaints and forebodings that are already perceptible in late nineteenth-century art and literature have been diffused into general consciousness. There they function as a kind of vulgarized romanticism, a Weltschmerz in perpetuum, a sickly sense of disturbance that is subterranean but explosive. The intermittent and unexpected acts of violence on the part of the individual and the similar acts of violence to which whole nations can be brought are indices of this underground torment. Vaguely sensing that something has gone astray in modern life but also strongly convinced that he lacks the power to right whatever is wrong (even if were possible to discover what is wrong), the individual lives in a sort of eternal adolescent uneasiness. (LOWENTHAL, 1987, p.27 – grifos meus)
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1 A dissolução da individualidade na massa traz como conseqüência necessária o tratar os outros de modo igualmente massificado, ainda que com o sinal contrário daquele que se dirige ao membro do in group:
Pessoas que se enquadram cegamente em coletivos convertem a si próprios em algo como um material, dissolvendo-se como seres autodeterminados. Isso combina com a disposição de tratar os outros como sendo uma massa amorfa. (ADORNO, 1995, p. 129)
2 Não quero entrar na discussão a respeito das organizações neonazistas. Considero a sobrevivência do nacional-socialismo na democracia mais ameaçadora que a sobrevivência de tendências fascistas contra a democracia. A corrosão por dentro representa algo objetivo; e as figuras ambíguas que efetivam o seu retorno só o fazem porque as condições lhes são favoráveis. (ADORNO, 1995, p.30)



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