Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

O fantasma da liberdade

(A funcionalidade da burguesia)

O fantasma da liberdade

(Luis Buñel, 1974)

http://noticias.uol.com.br/licaodecasa/materias/ult1789u423.jhtm

A problemática envolvendo a democracia, quando enunciada à esquerda, remete diretamente à questão de ser possível superar o presente imediato, edificando-se uma sociedade qualitativa e radicalmente diferente da capitalista, dando assim, fundamento concreto e material, à noção de igualdade, sem o sacrifício da liberdade. Note-se, contudo, que esta questão envolve não apenas o terreno propriamente à esquerda. Está diretamente implicada a razão iluminista, que nascida revolucionária e burguesa, fundada nos princípios de igualdade, liberdade e fraternidade, pretendeu transformar o mundo, fazendo cair a velha ordem, na qual os a hereditariedade determinava, em larga escala, as possibilidades de desenvolvimento e realização do indivíduo1.

A razão, no entanto, parece ter perdido seus adeptos, quer no campo liberal, quer à esquerda, havendo um flerte com o irracionalismo e com o niilismo. Esta convergência de perspectivas 2, ainda que perversa para ambos os campos do espectro político, parece ser especialmente nefasta para os advogados da ordem, pois, na ausência de uma oposição qualificada, florescem não as forças compromissadas com as metas heróicas da revolução burguesa - as quais permanecem irrealizáveis nos limites de suas próprias referências societárias -, mas as potências da restauração, de inspiração aristocrática, para quem a dominação capitalista e a presente ordem econômica são tão naturais quanto o dízimo e a corvéia.


O fantasma da liberdade

(Luis Buñel, 1974)

http://www.alohacriticon.com/elcriticon/article2042.html

Feitas tais ponderações, emerge como questão de primeira ordem, então, não o caráter revolucionário do proletariado, ou ainda, a adequação teórica de todo o edifício marxista e socialista. O grande problema talvez, neste preciso momento, seja compreender se a burguesia - uma força pretérita renovadora e civilizadora - se tornou uma aristocracia insensível, reacionária e, em última instância, hostil à civilização e à cultura.

Pensado nestes termos, o poderio inconteste do grande capital nos quadros da globalização, sua indiferença e soberba, para com os destinos de todos aqueles que, freneticamente, vão perdendo a funcionalidade para com o sistema e sua expansão, gera legitimamente a questão oposta, ou seja, saber se a burguesia mantém-se, ela mesma, funcional, no que se refere à manutenção de níveis mínimos de civilização. A julgar pelos termos da “nova” filosofia política, o neoliberalismo, a ordem burguesa parece ter assumido uma redução, ainda que não declarada, das fronteiras da democracia e da civilização, as quais, seguramente, excluem a parcela majoritária da população mundial.

O anjo exterminador

(Luis Buñel, 1962)

http://www.luisbunuel.org/inicio/bunuel1.html

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Historicamente, a burguesia desempenhou um papel revolucionário.

Onde quer que tenha assumido o poder, a burguesia pôs fim a todas as relações feudais, patriarcais e idílicas. Destruiu impiedosamente os vários laços feudais que ligavam o homem e seus “superiores naturais”, deixando como única forma de relação de homem a homem o laço do frio interesse, o insensível “pagamento à vista”. Afogou os êxtases sagrados do fervor religioso, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas gélidas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e em nome das numerosas liberdades conquistadas estabeleceu a implacável liberdade de comércio. Em suma, substitui a exploração, encoberta pelas ilusões religiosas e políticas, pela exploração aberta, única, direta e brutal.

A burguesia despojou de sua auréola toda a ocupação até então considerada honrada e encarada com respeito. Converteu o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem da ciência em trabalhadores assalariados.

A burguesia rasgou o véu sentimental da família, reduzindo as relações familiares a meras relações monetárias.

A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os meios de produção e, por conseguinte, as relações de produção e, com elas, todas as relações sociais. Ao contrário, a conservação do antigo modo de produção constituía a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. A revolução contínua da produção, o abalo constante de todas as condições sociais, a eterna agitação e certeza distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Suprimem-se todas as relações fixas, cristalizadas, com seu cortejo de preconceitos e idéias antigas e veneradas; todas as novas relações se tornam antiquadas, antes mesmo de se consolidar. Tudo o que era sólido se evapora no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e por fim o homem é obrigado a encarar com serenidade suas verdadeiras condições de vida e suas relações com a espécie.

A necessidade de um mercado constantemente em expansão impele a burguesia a invadir todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte.

Por meio de sua exploração do mercado mundial, a burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para desespero dos reacionários, retirou da indústria sua base nacional. As velhas indústrias nacionais foram destruídas ou estão-se destruindo dia a dia. São suplantadas por novas indústrias, cuja introdução se torna uma questão de vida e morte para todas as nações civilizadas, por indústrias que não empregam matérias-primas autóctones, mas matérias primas vindas das zonas mais remotas; indústrias cujos produtos se consomem não somente no próprio país, mas em todas as partes do globo. Em lugar das antigas necessidades, satisfeitas pela produção nacional, encontramos novas necessidades que requerem para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e dos climas mais diversos. Em lugar do antigo isolamento local e da auto-suficiência das nações, desenvolvem-se, em todas as direções, um intercâmbio e uma interdependência universais. E isso tanto na produção material quanto na intelectual. As criações intelectuais de uma nação tornam-se propriedade comum de todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis e das numerosas literaturas nacionais e locais surge a literatura universal.

Com o rápido aprimoramento de todos os meios de produção, com as imensas facilidades dos meios de comunicação, a burguesia arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os baixos preços de suas mercadorias formam a artilharia pesada com que destrói todas as muralhas da China, com que obriga à capitulação os bárbaros mais hostis aos estrangeiros. Força todas as nações, sob pena de extinção, a adotarem o modo burguês de produção; força-as a adotarem o que ela chama de civilização, isto é, a se tornarem burguesas. Em uma palavra, cria um mundo à sua imagem.

A burguesia submeteu o campo à cidade. Criou cidades enormes, aumentou tremendamente a população urbana em relação à rural, arrancando assim contingentes consideráveis da população do embrutecimento da vida rural. Assim como subordinou o campo à cidade, os países bárbaros e semibárbaros aos civilizados, subordinou os povos camponeses aos povos burgueses, o Oriente ao Ocidente.

A burguesia suprime cada vez mais a dispersão da população, dos meios da produção e da propriedade. Aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. A conseqüência necessária disso foi a centralização política. Províncias independentes, ligadas apenas por laços federativos, com interesses, leis, Governos e tarifas diferentes, foram reunidas em uma só nação, com um só Governo, um só código de leis, um só interesse internacional de classe, uma só barreira alfandegária.

A burguesia durante seu domínio, apenas secular, criou forças produtivas mais poderosas e colossais do que todas as gerações em conjunto. A subordinação das forças da natureza ao homem, a maquinaria, a aplicação da química na indústria e na agricultura, a navegação a vapor, as vias férreas, os telégrafos elétricos, a exploração de continentes inteiros para fins de cultivo, a canalização de rios, populações inteiras brotadas da terra como por encanto - que século anterior poderia prever que essas forças produtivas estivessem adormecidas no seio do trabalho social?

Vemos então que os meios de produção e de troca sobre cuja base se ergue a burguesia eram originários da sociedade feudal. Numa dada etapa do desenvolvimento dos meios de produção e troca, as condições sob as quais a sociedade feudal produzia e trocava, a organização feudal da agricultura e da indústria manufatureira, em suma, as relações feudais da propriedade mostraram-se incompatíveis com as forças produtivas em pleno desenvolvimento. Transformaram-se em outros tantos entraves a serem despedaçados; foram despedaçados.

Em seu ligar implantou-se a livre concorrência, com uma constituição social e política própria, com a supremacia econômica e política da classe burguesa.

(MARX; ENGELS. Manifesto Comunista, p. 26-28. Instituto José Luis E Rosa Sundermann. Versão eletrônica)

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1 O desastre atinge o próprio mito de uma esperança coletiva. Até mesmo as socialdemocracias mais poderosas estão hoje desprovidas de qualquer substrato teórico, já que sua visão última, passada pela peneira da democracia e das liberdades, referenciava-se ainda numa utopia. Nem esperança, nem utopia, nem progresso: a tábua está definitivamente rasa. (MINC, 1994, p. 164)

2 O clichê segundo o qual a esquerda e a direita estão convergindo parece justificado. Todos os partidos têm a mesma aversão ao pensamento utópico e aos conceitos universais, embora cada qual seja movido por uma lógica diferente. Certa escola de conservadorismo sempre contestou as abstrações geradas pelo Iluminismo e a Revolução Francesa - a conversa sobre direitos e igualdade -, pondo em seu lugar a lealdade a tradições e práticas específicas. Mais recentemente, intelectuais de esquerda chegaram à mesma posição, valorizando o que é distinto e único e rechaçando a metafísica, teorias que vão além do discurso ou das circunstâncias imediatas. Tanto a direita quanto a esquerda recuperam noções dúbias de localismo e nativismo. (JACOBY, 2001, p. 155)

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