O elogio da ordem:
neoliberalismo & pós-modernismo
A submissão irrestrita aos imperativos do mercado, a sujeição de tudo o que é vivo, como condição mesmo de sua existência e reprodução, às leis do valor e da valorização, são os pressupostos abstratos do terror, o qual, à sua vez, é a instância através da qual a ordem pode conciliar a fúria regressiva do homem coisificado, com a imutabilidade necessária de seus pressupostos societários. O que chamamos de civilização permanece, portanto, como uma ante-visão, a antecipação idealizada e imaginária, de um estado que ainda não atingimos: sonho que também se realiza como pesadelo. Toda época, de certo modo, abriga no interior mesmo de sua historicidade e materialidade, o sonho como elemento que lhe é próprio, e o universo onírico como um continuum da vida desperta, da vigília - o que leva a realidade a obliterar o real.
Cada época gesta, contudo, seu próprio sonho, a partir daquilo que tem de particular e imediatamente histórico. Compreende-se, assim, porque o neoliberalismo é uma marca insuperável do nosso tempo. Linguagem do poder como poder, por meio do seu discurso apologético efetiva-se a glorificação do existente e afirma-se a promessa, como o já verdadeiramente realizado. Através do cientificismo de suas intervenções - neutras do ponto valorativo, uma vez que toda referência humana foi devastada -, a coisa-capital fala sua própria língua. Sem meias palavras, sem peias, toda a crueza de seus requerimentos; o maquinal conforme sua natureza íntima, ainda que explicitado por meio de uma ventriloquia economicista.
Em lugar de reflexão, mantra; não o produzido por vozes humanas, mas aquele do sintetizador: as línguas humanas, quando flexionadas pela coisa-capital, têm um indisfarçável accent metálico - frieza, indiferença, polidez e perfeição. Tudo absolutamente coerente, explicável, justificável, asséptico, mas sob a condição de se banir o propriamente humano, para realizar a alienação universal como forma geral das relações entre homens. Por força dessa desumanização universal, o tempo evade-se da história, que se resolve em um hoje eterno - o lado enfadonho, mas correlato da novelty -; realização não do espírito absoluto, mas da absoluta falta de espírito: o capital divinizado.
Se, contudo, a transcendência é expulsa do mundo por um hoje tornado eterno, faz-se necessário que algo lhe tome o lugar. Uma vez que somente a Cidade Terrena é, então que o seja por meio do máximo gozo, da máxima fruição. Entende-se assim que o efêmero seja louvado como o culminar da condição humana, que o sentido seja apeado da vida dos homens, que o narcisismo consumista seja saudado como a afirmação última da individualidade. Colocada diante do horror na história, uma certa filosofia deu seu salto mortal, na esperança de que seu suicídio filosófico redimisse o mundo. Mas esta pretensão não atinge seus fins: o horror não veio ao mundo apenas como um desenvolvimento do espírito, mas como desenvolvimento de uma totalidade histórica determinada, de que este mesmo espírito é elemento, apesar de sua pretensão à ontogênese. Deste modo, o suicídio praticado por esta filosofia, não é mais do que sua tomada de posição em favor do idealismo que abomina e, caso sua reivindicação se concretizasse, estariam perdidos ao mesmo tempo, o pensamento falso e aquele que poderia se opor ao mundo, na sua imediaticidade.
Feira Universal Chicago, 1893 1
Fonte: http://www.lib.umd.edu/ARCH/exhibition/
O receio que o pós-modernismo apresentou à nossa época, como crítica da modernidade, erra o alvo, pois em lugar de condenar a pretensão de que a transcendência humana possa se realizar apesar do homem – e contra ele, portanto -, declara como ilegítimo e funesto o próprio desejo humano de transcender o aqui e o agora. Apresenta-se, então, o pós-modernismo, não como aquilo que a filosofia de fato deve ser – resgate crítico de toda a tradição -, mas ruptura unilateral com toda e qualquer tradição, uma vez que confunde a razão como meta e suas manifestações determinadas na história - com o que, inadvertidamente, passa a flertar com a moda como grandeza estética e filosófica.
Em nome de sua crítica filosófica o pós-modernismo mata a filosofia, mas isto não redime o mundo do absurdo. Este homicídio conduz apenas ao empobrecimento de toda a intelecção humana, uma vez que elimina um de seus pontos de vista legítimos: o conceito de universal. Mas na afirmação unilateral do particular como particular e na negação de todo universal, o que resta senão o real sem mediações? E por força desta deformação, o que se afirma como universal, senão os próprios preceitos da ordem? Mas a ordem tornada insuperável e invencível, já é ela mesma o fascismo.
Feira Universal (Chicago, 1893)
Fontes: http://www.lib.umd.edu/ARCH/exhibition/
Não criticamos o neoliberalilsmo e o pós-modernismo, contudo, por serem fascistas, o que seria obviamente uma impropriedade analítica. Nós os criticamos porque celebram como plausíveis e desejáveis elementos da contemporaneidade que potencializam o mal estar, que é a presença fascista em sua própria ausência - e neste louvor do presente, eles formam uma unidade. Nós fazemos sua crítica especialmente, ainda, porque em muitas ocasiões, aquilo que não tem substância na ordem teórica, é absolutamente potente no âmbito da vida social - é que a teoria, ela mesma, adere à realidade, como se real fosse. Nessas circunstâncias, e na justa medida em que perdem qualquer precisão teórica, tais doutrinas podem transformar-se no modo pelo qual uma época representa a si mesma e, por meio deste malabarismo, se converterem em argumentos de eficácia máxima: o senso comum e o normal – a realidade como disjunção do real; o onírico em sua forma hostil, pesadelo infernal.
É apenas na modernidade concentrada, tornada global, contudo, que esta conjunção de esforços intelectuais se realiza verdadeiramente. Na modernidade duplamente alienada, posto que incapaz de conter a irrupção fascista e, uma vez ela ocorrida, tornada inconsciente de seu passado; o conservador canta hinos de louvor à ordem, ao passo que seus críticos temem o futuro e, portanto, preferem o niilismo ao agir. Mas a idolatria da ordem, sua divinização, não é propriamente uma idealização do mundo. O que emerge desta ufania do existente é o ídolo como pedra, a alienação como mineralização e o humano como sacrifício e holocausto contínuos. Os ídolos descomunais do passado, que supostamente haviam perdido seu poder aterrador, são, portanto, continuamente atualizados, mesmo que toda sua dureza e poder, seu caráter colossal, só se realizem sendo igualmente abstratos, invisíveis e imateriais. Qual é a natureza dos vínculos que nos ata a este claustro, de cujos limites estreitos e opressivos, só nos apercebemos como a mais ampla liberdade? O que nos fala a transparência do vidro, no interior do qual nos abrigamos da vida, enquanto vivemos?
Feira Universal (Milão, 1906)
Fonte: http://www.lib.umd.edu/ARCH/exhibition/
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Que viva o México!
(Sergei Eisenstein, 1932)
http://www.kinoglaz.fr/que_viva_mexico.htm
http://br.youtube.com/watch?v=QR8Nf9ih-Fg
Tabus pós-modernos
A crítica e curadora Catherine Millet e o polêmico escritor Michel Houellebecq debatem sobre sexo e censura no mundo atual
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0212200724.htm
O sentido da arte e o da vida passam pelo consumismo
Revista Cult entrevista o filósofo Gilles Lipovetsky e faz dossiê sobre estética
Depois de pensar o que o excesso de consumo causa na vida humana e ponderar sobre a democratização do luxo, o francês planeja um livro sobre o lugar da estética na 'hipermodernidade'. Intitulado História e Conceitos da Estética, o dossiê da Cult trata também desse ramo da filosofia, desde os gregos antigos. O professor da USP Vladimir Safatle reflete sobre a arte dentro do capitalismo. Aponta como uma obra artística se torna simples, divertida, sexy e glamourosa em um mundo marcado pelo paradigma da segurança. O mundo não pode se sentir inseguro diante da arte que produz, essa é a tese.
Segundo Safatle, o elemento terrorista, que violenta esquematizações mentais, existente na arte é domesticado pela sociedade do capital. Não existe mais a desorientação. A estética contemporânea se presta à reprodução inconteste do estado de coisas. Se angústia existe, ela é tratada como patologia mental, e nada melhor do que um remédio para curá-la. Vê-se por aí que nem só a estética é vítima de domesticação.
http://www.estado.com.br/editorias/2007/12/09/cad-1.93.2.20071209.25.1.xml?
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1 A modernidade carrega consigo o arcaico, não na condição do que é estranho, mas como elemento constitutivo. Sendo a assim, se vê na contingência de construir para a mercadoria os templos que lhe correspondem. As World Fairs (*) são, em certa medida, manifestações deste caráter inerentemente sacro do profano, cujas representações haverão de se suceder no tempo, de modo a elevar a mercadoria até o local mais proeminente do altar.
(*) Para referências na internet veja: Exposições Universais (1851-1970)



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