Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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(Ato I)

O capacitor II

Ainda que possa parecer uma deformação e uma impossibilidade, a coexistência em um só ser do pai de família responsável, pacato, cioso de suas obrigações e do assassino insensível, cruel e beirando à demência, não é, infelizmente, uma impropriedade empírica, histórica. Muito ao contrário, em nossa época - onde a subjetividade passou a ser cientificamente manipulada, onde o amor à norma e o horror à diferença, passou a ser regra; onde a individualidade é conduzida, portanto, pela força da torrente, à dissolução final na massa - a junção destes contrários, na forma pura e simples da barbárie, é algo até mesmo provável. A contenção da subjetividade nos domínios estritos da vida privada; a reprodução desta mesma vida, com suas pequenas exigências de status, honra, etc., sempre submetida ao risco e ao acaso da probabilidade, já contemplam em si tal desfecho como hipótese.

Assim o anti-semita escolheu o criminoso, e criminoso branco: ainda aqui foge às responsabilidades; censurou os instintos de homicida, mas descobriu o meio de saciá-los sem confessá-los. Sabe que é perverso, mas como pratica o Mal pelo Bem, como todo um povo espera dele a libertação, considera-se um perverso sagrado. Graças a uma inversão de todos os valores, de que encontramos paralelo em certas religiões e, por exemplo, na Índia onde existe uma prostituição sagrada, à cólera, ao ódio, à pilhagem, ao homicídio e a todas as formas de violência inerem, a estima, o respeito e o entusiasmo, e no próprio momento em que a maldade o inebria, sente em si a leveza e a paz que a consciência tranqüila e a satisfação do dever cumprido proporcionam. (SARTRE, 1978, p. 29)

Mas para que se possa captar toda a força trágica desta depravação, o seu caráter verdadeiramente abissal, é preciso não deter-se diante da curiosidade mórbida que um Eichamann pode suscitar. Para além da sua culpa inafastável, que transcendem até mesmo os limites da compreensão humana, pois extrapolou o propriamente humano, é preciso recuperar a dimensão do homem tomado pelo mito, mito socialmente construído e sempre provável, nos quadros da contemporaneidade. A forma com que Hannah Adrendt captou o problema, ou seja, o mal em sua banalidade burocrática, no corriqueiro, no pequeno detalhe, na ausência de uma metafísica do mal de parte do indivíduo que o pratica: esta é a fórmula pela qual ele se torna massivo, total, absoluto, generalizado e irresistível. O mal tornado banal é o real como sua denegação, a captura da verdade como um produto do universo onírico do sujeito individual e coletivo; a objetivação do mito: a raça como realidade, o cavaleiro nórdico - um outro mundo estetizado, de que o mundo, conforme ele mesmo existe passa a ser apenas e tão somente uma sombra.

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