Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



Ato II Ato III Ato IV

Índice
(Ato I)

Nosferatu

(Do estereótipo)

Na reflexão sobre a redução ao normal, que a sociabilidade contemporânea implica e requer, é preciso muito cuidado para evitar equívocos, e especialmente aqueles que decorrem diretamente da moda e do modismo, em suas manifestações no campo intelectual. A esteriotipia que caracteriza nossa sociedade não é superada pelo rompimento com os preceitos massivos do fordismo, ou seja, pela propensão à multiplicidade de “estilos de vida, segmentação da produção e consumo, com o objetivo de atender públicos distintos e diferenciados”. A natureza essencial do fenômeno, ao contrário do que possa parecer, foi levada ao paroxismo. Agora, não apenas o comportamento médio está devidamente normalizado (no sentido da curva normal estatística). Os desvios, eles mesmos, são objetos de modelagem e moldagem, de tal maneira que, mesmo aquilo que poderia apresentar-se como crítico ao sistema, acaba por ser reduzido à condição de demanda a ser suprida e, portanto, necessidade passível de assumir forma diretamente pecuniária.

Santana (Woodstock)

http://br.youtube.com/watch?v=XnamP4-M9ko

A negatividade envolvida originalmente com a emergência das minorias, ela mesma, não tardou a ser devidamente reduzida a uma ótica mais confortável e funcional para o sistema produtor de mercadorias. Não por acaso, os profissionais de marketing e publicidade, com entusiasmo evidente, descobrem o imenso potencial de consumo do público gay, as particularidades dos consumidores afro-americanos, etc. A contemporaneidade continua seu lento e contínuo trabalho de erosão, estabelecendo a planura indiferenciada por entre os tipos humanos. Se aceita torná-los distintos, portanto, o faz na certeza de que esta diferenciação não tem caráter negativo para a ordem, que, muito pelo contrário, propondo modelos alternativos igualmente esteriotipados, submete à sua lógica mesmo aquelas porções do ser que poderiam ir criativamente para além do aqui e do agora. Daí porque o rapper pode - e deve - ir à MTV cantar odes de repulsa aos brancos, denunciar a redução de sua gente ao gueto: logo se descobre que aquilo com o que se identifica seu público não leva à revolta racial - ainda que ela possa ocorrer -, mas a mais discos e bonés vendidos nas bancas. O rapper na MTV não é a revolta real, mas seu sucedâneo imagético, e por meio desta substituição, quanto mais os fãs se revoltam, quanto mais eles se exaltam, tanto mais discos consomem.

Jimi Hendrix (Woodstock)

http://br.youtube.com/watch?v=QJ6B8bKKTS4

http://br.youtube.com/watch?v=3nbhZEi2uNg

Vivemos sob a égide de um capitalismo sem limites e sem peias, que afastou os elementos exteriores à sua lógica reprodutiva e de valorização, que não se envergonha de subordinar todos os fins e empregar todos os meios para seus propósitos supra-humanos; que não quer mais apenas a energia laboral dos homens, mas o governo de suas almas. Pretende, portanto, domesticar e normalizar o desejo, fazendo com que os sonhos de liberdade e de fruição se convertam no deleitar-se com quinquilharias, que são produzidas com a forma exterior da necessidade humana, mas que são, por sua natureza mesma, apenas e tão somente o modo pelo qual o processo de valorização pode ser mediado pelo do consumo - esta é ao mesmo tempo a forma essencial do capital e uma fórmula, tornada absoluta e universal no presente momento da história.

O testamento do Dr. Mabuse

(Fritz Lang, 1933)

http://www.imdb.com/name/nm0000485/

Através, portanto, destes sortilégios e das ilusões que lhes correspondem, uma potência estranha e autônoma sonha em mim, os sonhos que eu pensei serem os meus e, através das coisas do meu domínio, sou eu o dominado, posto que minha própria reprodução, meus desejos, não são fins que se bastem, mas mediações para a reprodução da coisa capital. O capital potencializado e absolutamente coerente com sua própria natureza interna, desprovido das ilusões benemerentes, divorciado da própria tradição humanista burguesa, tem necessariamente que redundar na alienação absoluta e na reificação ilimitada, assim como seus funcionários abnegados, seus serviçais enfeitiçados, têm necessariamente que se converter em déspotas cegos e frívolos, que não falam a língua dos regimes de exceção, ou dos tribunais revolucionários: simplesmente proclamam as leis imanentes e necessárias da reprodução da coisa capital, que não conhecem nada que vá além do eficaz e do eficiente. A fórmula capital exclui como ilegítimas todas as considerações extra-econômicas, o que significa dizer que o próprio progresso acalanta nos braços toda a potência da regressão e a civilização embala o sono da barbárie. A potencialidade e a produtividade muito humanas, uma vez tornadas potências exteriores e exteriorizadas, se opõem ao homem e cobram seu preço de sangue, até que esta dissociação seja superada.


Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens1

(Murnau, 1922)

http://www.imdb.com/name/nm0003638/

Um capitalismo, devidamente apartado do sonho revolucionário burguês, de seu humanismo e seu heroísmo, mesmo que limitados; um sistema tornado puramente maquinal e, portanto, divorciado do minimamente humano; preciso como a lâmina de uma adaga, racional e calculista como somente a insanidade permite: este é o legado de nossa época e na indiferença universalizada que ele representa, a produção da riqueza material se potencializa e realiza sobre os escombros da sociabilidade, sobre do ocaso da cultura.

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