A noite de São Lourenço
(Fascismo e capitalismo)
Dificilmente se pode sobreestimar a importância do fenômeno nazi-fascista para se compreender a sociedade contemporânea. Ainda que muitos queiram vê-lo como simples acidente de percurso - um desvio acidental ou incidental, no longo caminho de consolidação de uma sociedade que seria, essencialmente, progressista, racional, etc. - e, portanto, pretendam compreendê-lo como uma manifestação aberrante, totalmente desvinculada da natureza mesma desta sociedade, o fato é, contudo, que o fascismo parece revelar mais de nós mesmos do que estamos dispostos a aceitar ou gostaríamos de acreditar. Talvez devêssemos mesmo, em termos primários, caracterizar o fascismo como a exteriorização (síndrome) específica pela qual se manifesta o mal estar civilizatório, nos quadros das modernas sociedades de massa: o fascismo é uma rebelião contra a civilização e contra a cultura, uma tentativa de resolução regressiva dos problemas que a modernidade nos apresenta.
A noite de São Lourenço, 1982
Paolo Taviani
http://www.imdb.com/name/nm0851752/
Vittorio Taviani
http://www.imdb.com/name/nm0851754/
É possível falar da claustrofobia das pessoas no mundo administrado, um sentimento de encontrar-se enclausurado numa situação cada vez mais socializada, com uma rede densamente interconectada. Quanto mais densa é a rede, mais se procura escapar, ao mesmo tempo em que precisamente sua densidade impede a saída. Isto aumenta a raiva contra a civilização. Esta torna-se alvo de uma rebelião violenta e irracional. (ADORNO, 1995, p. 122)
De certo modo, a contínua expansão da civilização e da extensão de seus domínios; a submissão dos mais recônditos territórios à norma civilizatória, trazem consigo, no interior mesmo de seu movimento expansivo, a possibilidade da barbárie. As exigências da vida em sociedade, à medida em que esta mesma vida torna-se progressivamente mais complexa e gera uma interdependência, que divorcia o indivíduo das condições que permitiriam sua reprodução auto-determinada, criam as possibilidades mesmas para uma espécie de ressentimento contra a civilização.
Mas quais são os elementos que dão substância e forma a esta revolta, de onde advém a energia vital, sem a qual nenhum movimento - inclusive o político - é possível? Desgraçadamente e, diferentemente daquilo que pretendem muitos, o ressentimento contra a civilização fundamenta-se não sobre um elemento excêntrico, acessório, adjacente de nossas vidas em sociedade, mas está em seu próprio cerne, ou seja, nas próprias definições categoriais do modo de produção capitalista da vida material.
A noite de São Lourenço, 1982
Paolo Taviani
Vittorio Taviani
http://movies.yahoo.com/movie/contributor/1800071722/bio
(...) Penso que, além dos fatores subjetivos, existe uma razão objetiva para a barbárie, que designarei bem simplesmente como a da falência da cultura. A cultura, que conforme sua natureza promete tantas coisas, não cumpriu a sua promessa. Ela dividiu os homens. A divisão mais importante é aquela entre o trabalho físico e intelectual. Deste modo ela subtraiu aos homens a confiança em si e na própria cultura. E como costuma acontecer nas coisas humanas, a conseqüência disto foi que a raiva dos homens não se dirigiu contra o não-cumprimento da situação pacífica que se encontra propriamente no conceito de cultura. Em vez disso, a raiva se voltou contra a própria promessa ela mesma, expressando-se na forma fatal de que essa promessa não deveria existir. (ADORNO, 1995, p. 164)
Quando se reflete sobre este diagnóstico que faz Adorno, é necessário não entender de modo limitado a questão da cisão entre trabalho intelectual e físico. É evidente que estamos diante de uma distinção econômica e, em alguma medida, entre proprietários e não proprietários dos meios de produção, uma vez que está necessariamente envolvida aqui a determinação do que produzir e como produzir e, portanto, no limite, compreendida a submissão do trabalho às determinações do capital. Mas as dimensões desta distinção são muitíssimo mais profundas e extravasam a tópica capital-trabalho, para alojar-se no modo mesmo como se dá o processo de individuação nos quadros do capitalismo tardio. Trata-se aqui, de algum modo, portanto, de prazer e fruição; de satisfação, realização e auto-realização e, em extremo, do processo crítico e problemático em que se transformou a individuação enquanto tal. Em uma situação de autonomia do desenvolvimento técnico-científico, que progressiva e continuamente fragmenta e desqualifica o trabalho - independentemente de qual seja sua natureza, estando na base mesma da criação de sociedade de massas -, a individualidade é erodida em seu fundamento, ou seja, no próprio processo de experimentação do mundo.
Quando Adorno questiona a continuidade da contradição produtiva engendrada pelo conflito entre o desenvolvimento das forças produtivas e o desenvolvimento das relações de produção no “capitalismo tardio” – conceito que prefere em substituição a “sociedade industrial” – está questionando a formação a partir de uma determinada forma social assumida pelo trabalho. Forma social que no capitalismo tardio se caracteriza pela conversão progressiva de ciência e tecnologia em forças produtivas. Dirimindo a contradição entre forças produtivas e relações de produção, ao estancar a queda da taxa de lucros e manter a produção e consumo em níveis elevados, a ciência-técnica dissolve a experiência formativa a partir do trabalho social nos termos vigentes. A crise do processo formativo e educacional, portanto, é uma conclusão inevitável da dinâmica atual do processo produtivo. (MAAR: in ADORNO, 1995, p. 19 - Introdução)
Como está em questão o processo de formação das subjetividades, do psiquismo individual - o qual resta incompleto, para falar o mínimo -, não é um acidente que a insatisfação com as expectativas não atendidas, mas geradas pela cultura e pelo modo de produção da vida material, se exteriorizem em um ressentimento difuso e uma raiva manifesta contra as próprias “promessas” não atendidas – na justa medida em que estas são infinitamente mais acessíveis e imediatas à percepção, do que as mediações que deveriam conduzir da frustração destas mesmas expectativas, às determinações inerentes à ordem. Há, portanto, na ordem do dia uma reação irracional contra as determinações da ordem, que se demonstra e afirma como a antinomia da plataforma política racional para sua transformação. Neste aspecto o fascismo, em sua perenidade submersa, é igualmente uma fixação do ser à infância, um estado de menoridade permanente; capitulação da individualidade.
Compreende-se, então, que o insucesso do capitalismo em promover o bem-estar volte-se não contra o próprio sistema, mas contra a democracia, stage onde se debatem os vetores de ação política que deveriam, de algum modo, conduzir o sistema a promover justamente o bem-estar que se pretende alcançar. Quando os meios de comunicação de massa dão curso ao ressentimento popular contra a política, ressaltando a lentidão do processo parlamentar, a inépcia dos governos, etc., não fazem mais do que se perfilar com uma tendência geral, que desqualificando instâncias de intermediação política na sociedade democrática, colocam permanentemente na agenda do dia a possibilidade - mais ou menos remota - de soluções autoritárias.
(...) Como o anti-semitismo sobrevive às grandes crises de ódio contra os judeus, a sociedade formada pelos anti-semitas subsiste em estado latente durante os períodos normais e todo anti-semita considera-se incluso em seu quadro. Incapaz de compreender a organização social moderna, sente a nostalgia dos períodos de crise em que a comunidade primitiva reaparece de súbito e atinge a sua temperatura de fusão. Deseja que sua pessoa afunde repentinamente no grupo e seja arrastada pelo caudal coletivo. Tem em mira esta atmosfera de pogrom quanto reclama “a união de todos os franceses”. Neste sentido, o anti-semitismo, na democracia, é uma forma sorrateira daquilo que se denomina a luta do cidadão contra os poderes. Interroguemos a um desses jovens turbulentos que infringem placidamente a lei e se juntam em bandos para surrar um judeu numa rua deserta: ele nos dirá que aspira a um poder forte que o exima da acabrunhadora responsabilidade de pensar por si próprio; sendo a República um poder fraco, vê-se levado à indisciplina por amor à obediência. Mas deseja realmente um poder forte? Na realidade, exige para os outros uma ordem rigorosa e, para si, uma desordem sem responsabilidade; pretende colocar-se acima das leis, evadindo-se ao mesmo tempo, da consciência de sua liberdade e de sua solidão. (...) (SARTRE, 1978, p. 18- grifos meus)
A contínua presença e marca do fascismo sobre a sociedade contemporânea é, portanto, a contrapartida necessária, a expressão mesma, da permanência e imanência da heteronomia a que se sujeita o indivíduo em seu interior; decorre das condições de uma existência alienada e alienante, na qual se opõe a sua individualidade necessária, enquanto forma da existência, às possibilidades de reprodução auto-determinada. Nestas condições não se pode escapar de uma tendência persistente a soluções de natureza totalitária. Exatamente por isso a solução fascista não pode ser considerada como uma aberração, sendo, quanto antes, elemento pertinente à sociedade contemporânea.



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