Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

Metropolis

(O clone: o humano como série)

A dificuldade suprema que se apresenta à crítica cultural reside especialmente no fato de que toda época se percebe, também, como uma decadência e corrupção, reminiscência difusa da expulsão do paraíso e do pecado original – o projeto humano como degradação do divino. A natureza desta elaboração, contudo, é intrinsecamente reacionária e regressiva: sob o argumento de que o mundo tornou-se decrépito, degenerado e insano, os filisteus querem apenas e tão somente suprimir toda a diversidade; a liberdade em seus mais recônditos esconderijos; o privado nos seus mais tênues limites; tornar transparente toda a individualidade, de modo que o poder do coletivo seja irresistível e toda subjetividade seja apenas sua redução, segundo a fórmula do próprio esteriótipo, de que circunstancialmente a raça é o modelo, mas que pode ser perfeitamente substituído pela profissão religiosa, pela pátria e por grandezas irracionais de semelhante natureza.

Metropolis

(Fritz Lang, 1929)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fritz_Lang

No sonho do stereo type já estamos bem adiantados, já vão avançadas as possibilidades regressivas do progresso, que aninha a universalização do tipo como reprodução estritamente técnica do humano – o sonho da ordem, como delírio da ordem, o deleite do domínio absoluto, como paroxismo mesmo da ciência em sua formulação baconiana: o clone, às expensas de sua ilusão racional e científica, como projeto de poder total. Quando o homem se vê reduzido a informação genética, perde-se o estatuto de sua subjetividade: converte-se em código, informação para a reprodução; formulação diretamente maquinal do humano; homem dócil e descartável:

Por conseguinte a clonagem é o último estágio da simulação do corpo, aquela em que, reduzido a sua fórmula abstrata e genérica, o indivíduo está destinado à multiplicação em série. Walter Benjamin disse que o que se perdeu da obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica foi sua “aura”, essa qualidade singular do aqui e do agora, a sua forma estética; ela passa de um destino de sedução para de reprodução e, nesse novo destino, assume a forma política. Perdeu-se o original, e só a nostalgia pode reconstituí-lo como “autêntico”. A forma extrema desse processo é a dos meios de comunicação de massa contemporâneos; neles o original nunca teve lugar, e as coisas são de imediato concebidas em função de reprodução ilimitada.

É exatamente o que acontece ao ser humano com relação à clonagem. É o que acontece ao corpo quando concebido apenas como estoque de informações e mensagens, como substância informática. Nada se opõe então a sua reprodutibilidade serial, nos mesmos termos utilizados por Benjamin para os objetos industriais e as imagens. Há uma precessão do modelo genético sobre todos os corpos possíveis.

É a irrupção da tecnologia que comanda essa desordem, de uma tecnologia que Benjamin já descrevia como médium total – gigantesca prótese comandando a geração de objetos e de imagens idênticas, que nada poderia diferenciar entre si – mas ainda sem conceber o aprofundamento contemporâneo dessa tecnologia, que torna possível a geração de seres idênticos sem que se possa voltar ao ser original. As próteses da era industrial ainda são externas, exotécnicas; as que conhecemos ramificam-se e se interiorizam-se: esotécnicas.

Estamos na era das tecnologias brandas, software genérico e mental. As próteses da era industrial, as máquinas, ainda voltavam ao corpo para modificarem-lhe a imagem, elas mesmas eram metabolizadas no imaginário, e esse metabolismo fazia parte da imagem do corpo. Mas, quando se atingem um ponto sem volta na simulação, quando as próteses infiltram-se no coração anônimo e micromolecular do corpo, quando se impõe ao próprio corpo como matriz, queimando todos os circuitos simbólicos ulteriores, sendo qualquer corpo possível nada mais que sua imutável repetição, então é o fim do corpo e de sua história, o indivíduo não é mais que uma metástase cancerosa de sua fórmula de base. (BAUDRILLARD, 1991, P. 195-196)

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1612200702.htm


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