Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

Metropolis

(Fascismo e modernidade)

Precisamos, observa Benjamin, (...) de uma teoria da história a partir da qual o fascismo possa ser desvendado (gesichtet) (...). Somente uma concepção sem ilusões progressistas pode dar conta de um fenômeno como o fascismo, profundamente enraizado no “progresso” industrial e técnico moderno que, em última análise, não era possível senão no século XX. A compreensão de que o fascismo pode triunfar nos países mais “civilizados” e de que o “progresso” não o fará desaparecer automaticamente permitirá, pensa Benjamin, melhorar nossa posição na luta antifascista. Um luta cujo objetivo final é o de produzir “o verdadeiro estado de exceção”, ou seja, a abolição da dominação, a sociedade sem classes. (LÖWY, 2005, p. 85)

O fascismo, cujas manifestações exteriores são o racismo e o extermínio, tem por elemento interno - igualmente brutal - o sacrifício mortal da individualidade, ou seja, a impossibilidade (ou a recusa) da individuação, e o ímpeto de lançar-se a um estado de indiferenciação, que dilui toda responsabilidade, de modo a que reste como subsistente apenas a materialidade inimputável da massa; sua fúria sem remédio, ainda que plena de conseqüências. O fascismo, nesse sentido, é uma solução regressiva para a agressividade que a civilização moderna implica e contém, o direcionamento de sua potência destrutiva para um alvo fixo - o que permite eternizar os preceitos e demandas da ordem, ainda que sob a forma de uma revanche, cujas vítimas são os elementos dos out-groups.

Metropolis

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(Fritz Lang, 1929)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fritz_Lang

O anti-semitismo enquanto movimento popular foi sempre aquilo que os seus instigadores gostavam de censurar: o nivelamento por baixo. Os que não têm nenhum poder de comando devem passar tão mal como o povo. Do funcionário alemão aos negros do Harlen, os ávidos prosélitos sempre souberam, no fundo, que no final não teriam nada senão o prazer de que os outros tampouco teriam mais do que eles. A arianização da propriedade judaica (que, aliás, na maioria dos casos beneficiou as classes superiores) não trouxe para as massas do terceiro Reich, vantagens muito maiores do que, para os cossacos, o miserável espólio que estes arrastavam dos guetos saqueados. O fato de que a demonstração de sua inutilidade econômica antes aumenta do que modera a força de atração da panacéia racista (volkisch) indica sua verdadeira natureza: ele não auxilia os homens, mas sua ânsia de destruição. O verdadeiro ganho com que conta o “camarada de etnia” (Volksgenosse) é a ratificação coletiva de sua fúria. Quanto menores são as vantagens, mais obstinadamente e contra seu próprio discernimento ele se aferra ao movimento. O anti-semitismo mostrou-se imune ao argumento da falta de rentabilidade. Para o povo, ele é um luxo. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 159)


O fundamento subjetivo do fascismo encontra-se na miséria afetiva a que nos condenou a moderna sociedade burguesa, que a um só tempo nos atomizou e aglutinou em coletivos, aos quais se pertence apenas de modo circunstancial e contingente. Estamos constrangidos a esta redução - a individualidade como massificação - pela natureza apenas probabilística da auto-conservação e, na justa medida em que somos preparados para perseverar e vencer, em um ambiente de competitividade feroz e decisiva, nos vemos condenados à insensibilidade e à indiferença, que se consubstanciam na tolerância à dor e em um senso de auto-disciplina, que se direcionam, à sua vez, para dentro e para fora, realizando o movimento catatônico de um frenesi sado-masoquista.

Neste sentido preciso, o fascismo é uma revolta contra a civilização e contra a cultura, pois a libertação que a modernidade significou também implica em mazelas que restaram irreparáveis, como a redundância econômica e a miserabilidade, além da destruição de todo um quadro de referências culturais tradicionais. Não se pode ser simplista neste item: é fato que a modernidade trouxe consigo um aumento inusitado da riqueza material e de “comodidades” que seriam simplesmente impensáveis, mesmo no passado recente. Não decorre daqui, no entanto, que o lugar de cada indivíduo em seu corpo social se encontre presentemente melhor definido do que no passado. Muito ao contrário, por mais que tenha havido uma enorme evolução material, isso só se fez por um aumento constante do risco de ser alijado dos benefícios deste progresso, risco este que se plasma e materializa a cada inflexão das curvas de crescimento econômico, a cada movimentação no sentido da transnacionalização dos capitais, de relocalização de plantas industriais, etc.

Metropolis

(Fritz Lang, 1929)

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O mais recôndito desejo fascista é, portanto, o de uma regressão a um passado idílico, estável, onde cada qual encontre um lugar definido, em uma ordem afetiva inamovível. Para os fins desta meta, contudo, a nação ainda é um ente por demais complexo, pois ela implica uma diversidade prática, decorrente da história concreta de sua formação. O verdadeiro fascismo, portanto, deverá ter um elemento mítico, uma regressão ao clã primordial, pois somente ele é verdadeiramente simples, no sentido de definir o pertencimento de cada um de seus membros. Não é uma acaso, portanto, que todo nacionalismo verdadeiro, na simplicidade de sua virulência, é também um chauvinismo: a pátria como idealização de sua história; o território, como afirmação da história do clã e por oposição à política concreta; um destino mítico em lugar de seus antecedentes efetivos.

O fascismo, portanto, só pode ser histórico se for igualmente uma falsificação e uma fraude, ou, dito de outro modo, se for uma história mítica, por oposição à história real. Não se deve esperar dele, portanto, qualquer coerência ou qualquer compromisso propriamente empírico; ele é um conto de horror, cujos termos são oferecidos por uma elaboração mítica e fantástica, que deve ser suficientemente elástica para desprezar detalhes que sejam incoerentes com o enredo.

O fascismo é uma tentativa de repor ordem, em um mundo pretensamente sem ordem; uma busca de definir valores, para uma sociedade pretensamente corrompida. Mais ainda, ele é afirmação do monopólio da própria cultura e civilização, por parte deste clã primordial, ao qual todos os direitos e prerrogativas estão reservados. Entende-se, então, a economia psíquica da solução fascista: a recompensa pela anulação da individualidade é justamente o pertencimento ao clã, que detém o monopólio de fruição de todos os bens materiais e espirituais, e que os faculta apenas àqueles que a ele pertencem.

A promessa fascista implica, portanto, em uma distinção em relação a todos que não pertencem ao clã, uma vez que ela já não pode fazer qualquer distinção no seu interior: seja por que implica na dissolução da subjetividade na massa; quer por que emerge como desenvolvimento peculiar da própria sociedade de massas. Mas o fascínio reside justamente nisso: mesmo um idiota pertencente ao clã é, em seus termos, absolutamente mais importante que um erudito judeu ou um cientista polonês. Para os desafortunados, para os vitimados, para os ressentidos, para os mutilados pelos desenvolvimentos da sociedade de massas, para os eternos oportunistas, que promessa poderia soar mais doce: aplanar e eliminar todas as injustiças de uma só vez, recriando-se uma comunidade afetiva primeva, à qual se liga por nascimento – ou por um critério mágico - e da qual não se pode ser alijado, independentemente do modo como se oferece e realiza cada individualidade concreta. A solução fascista é uma resposta recorrente aos desafios da modernidade e lhe é coexistente e correlata.

Metropolis

(Fritz Lang, 1929)

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(...) Para Benjamin, em Das Passagen-Werk, a quintessência do inferno é a eterna repetição do mesmo, cujo paradigma mais terrível não se encontra na teologia cristã, mas na mitologia grega: Sísifo e Tântalo, condenados à eterna volta da mesma punição. Nesse contexto, Benjamin cita uma passagem de Engels, que compara a interminável tortura do operário, forçado a repetir sempre o mesmo movimento mecânico, com a condenação de Sísifo ao inferno. Mas não se trata apenas do operário: toda sociedade moderna, dominada pela mercadoria, é submetida à repetição, ao “sempre igual” (Immergleichen) disfarçado em novidade e moda: no reino mercantil, “a humanidade parece condenada às penas do inferno”. (LÖWY, 2005, P. 90)

O elemento subjetivo desse inferno – ainda que na forma de uma objetivação mecânica - é o autômato, que se apresenta não como possibilidade, mas na condição de uma humanidade que se realiza como degradação do humano. À potência tectônica desta perversão corresponde não apenas a representação infernal, mas o inferno como realização.

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