Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

Memória e Filosofia: o lugar de Auschwitz

O horror que se procurou exilar do mundo, através de sua desconexão com a totalidade - por recurso a uma abordagem “idealista” ou à racionalização -, pertence a ele não como desenvolvimento patológico ou acidente, mas como recorrência e necessidade, pois é apenas a forma concentrada da violência que se perpetra continua e corriqueiramente contra o homem e a natureza, a partir da própria vida em sociedade, e como afirmação de sua normalidade1.

A recusa em reconhecer no horror qualquer propósito, o aceitá-lo como o absurdo que não pode ser resignificado, equivale, portanto, à exigência de que nossa época se reveja em sua totalidade, que ela retome os fundamentos a partir dos quais se formou, e que encontre lá não a recordação idílica de um passado heróico, mas as deformações que se impuseram ao homem e ao pensamento, e sem as quais aquele mesmo horror não poderia ter sido perpetrado.

(...) Anteriormente dizíamos: “Bom, nós temos inimigos. É a ordem natural das coisas. Porque um povo não teria inimigos?” Mas foi completamente diferente. Foi na verdade como se um abismo se abrisse diante de nós, porque tínhamos imaginado que todo o resto iria de alguma forma se ajeitar, como sempre pode ocorrer na política. Mas dessa vez não. Isso jamais poderia ter acontecido. E não estou me referindo ao número de vítimas, mas à fabricação sistemática de cadáveres etc. – não preciso me estender mais sobre o assunto. Auschwitz não poderia ter acontecido. Lá se produziu alguma coisa que nunca chegamos a assimilar

Deixando isso de lado, devo dizer que a vida era por vezes um pouco difícil; nós éramos pobres, estávamos encurralados; tínhamos de fugir e viver de expedientes etc. Assim era. Mas éramos jovens e cheguei mesmo a encontrar naquilo um certo prazer, não posso dizer de outra maneira.

Mas Auschwtiz era uma coisa completamente diferente. Como todo o resto, podia-se pessoalmente dar um jeito. (ARENDT, 2002, p. 135)

(Auschwitz Album, YV Jerusalem)

O que é, portanto, filosofar neste mundo que é nosso, o único no qual podemos estar verdadeiramente presentes enquanto sujeitos éticos? O que é fazer ciência nessas condições? Aqui e agora estas questões se impõem como exigência e requerimento insuperáveis: a experiência nazista, de que Auschwtiz é a culminação, nos obriga a este recomeço radical. Tudo que acreditamos como possível, nossa auto-imagem; os limites entre o humano e o inumano, entre a sanidade e a patologia; a política, a filosofia e a metafísica; tudo, absolutamente tudo, passou a estar em questão. E o fato de que a guerra tenha sido simbolicamente encerrada pelo recurso à bomba atômica, o que faz, senão confirmar a lógica (de poder) que se pretendeu vencer?

Entrada de Auschwitz no inverno

Auschwitz nos obriga ao recomeço e, reclama, portanto, que toda continuidade pura e simples é capitulação; que todo novo amanhã estará ainda sob os escombros do passado; toda a luz nos chegará por meio de uma refração e toda existência estará envenenada, enquanto a razão não nos colocar na presença ainda viva, de uma infâmia que não pode se despedir do mundo, na justa medida em que lhe pertence. Não se requer aqui o concurso do sentido, pois admiti-lo seria como conferir remanso ao espírito; o que se faz necessário é que afirmemos o absurdo como absurdo, o sem sentido como o que de fato é, para que o homem, seu artífice, possa renascer de si mesmo, não como o mutilado que extirpou o passado, ou que se desculpou, mas como o herói que constrói um novo eu sobre a memória. Para que o homem nasça como o novo, é preciso que ele carregue pelo tempo o fardo desta dor e que ela permaneça como uma dimensão puramente existencial do ser; um desconforto do eu diante de si mesmo, um lamento do humano que se despede da pretensão da divinização e do senhorio da natureza.

A filosofia já de há longo tempo vem lidando o problema de um Deus banido do mundo, ou, pensado de outro modo, de um mundo com o qual o homem tem que se ver usando a si mesmo como referência e medida. Auschwitz levou esta questão até o ponto de fusão: ficou demonstrado ali que a razão pode perfeitamente dissociar-se de si mesma, decompor-se, cindir-se, reduzindo-se à técnica e à tecnologia, sem qualquer valor humanista, sem ética imanente, sem juízo moral e, por meio desta redução, apresentar-se não como elemento da civilização e da cultura, mas como meio para os fins da própria barbárie.

Prestando atendimento médico aos prisioneiros encontrados no campo de concentração de Wobbelin, Alemanha, 5 de Abril de 1945

De todo modo a razão, uma vez cindida, uma vez divorciada de si mesma, jamais poderá ser declarada novamente como una e, portanto, nossa tranqüila convicção no progresso que se auto-realiza, nossas apostas na filosofia da história não podem ser entendidas, mais do que como mera ingenuidade e otimismo, que a história cuidou de negar. A responsabilidade de nossa época é maior, na justa medida somente a nós as ilusões da razão revelaram sua face trágica. É preciso, portanto, que a modernidade se mire no espelho e se veja, não como ela sonhou ser, mas como ela de fato se realizou. A história em movimento exige da razão que ela tome a si mesma como objeto, não para aceitar a tragédia como vaticínio, mas para evitar a recorrência da tragédia.

Filosofar e fazer ciência em nossa época devem, portanto, de algum modo, ser uma remissão a Auschwitz, quando não uma reflexão sobre o fenômeno nazista enquanto tal. Impõe-se aqui, a rigor, um princípio metodológico: se a razão uma vez cindida não pode mais ser declarada uma; se a razão pode se apresentar como razão e como razão instrumental e no interior desta cisão, opor-se a si mesma; faz-se necessário, então, que a razão critique a si mesma e que, por meio desta crítica, estabeleça limites à sua atuação e validade. Esta razão fraturada, cindida, em dúvida, fragilizada e, exatamente nesta medida, pode aspirar a ser humana. Pois a razão que anteriormente havia expulsado o mito, desterrado Deus, pretendeu-se ela mesma, um sucedâneo do mito e de Deus. Ora, esta elevação a uma altitude super-humana, não poderia e não pode conduzir a outro lugar que não o infortúnio, de vez que o desenvolvimento da ciência como unilateralidade, ou seja, como aposta total da cultura e como redução de toda a cultura à ciência, prenuncia a desgraça, não como decorrência do pecado original - de uma culpa arcaica e constitutiva do humano -, mas como restabelecimento necessário da harmonia rompida com elementos não racionalizáveis da existência (o resto irracional, o ponto cego da visão).

Foto: Marcos Santilli

Fonte: http://www.geocities.com/HotSprings/Sauna/2018/floresta.htm

Uma razão esquálida, escombro de sua própria grandeza, terrena, irremediavelmente terrena, é o que nos resta e é justamente na imensa benignidade de sua fragilidade que devemos nos apoiar, pois ela é para nós, equivalente à nossa proporção no Universo. Não podemos mais argüir um estatuto de superioridade, uma quase semelhança à natureza de Deus. Reconhecer a razão como limitada e todo o conhecimento como provisório significa não apenas conferir legitimidade a outras formas de apropriação do real; implica igualmente na obrigação metodológica de levar em consideração o ponto de vista do outro, e por meio da legitimação da oposição deste outro, rever-se.

Ora, fatalmente haverá aqueles que digam que este princípio já é uma prática corrente no mundo da ciência. É verdade: ninguém em sã consciência se oporia ao fato de que o conhecimento deve ser dialógico. Ainda assim, o que se declara como princípio, é cuidadosamente revogado na prática; o que se afirma no particular, é negado no universal. Deste modo, ainda que não saibamos o resultado final do brutal desenvolvimento da técnica e da tecnologia, das interferências sem limite e proporção sobre a natureza, apesar disso, mantemo-nos indo adiante; recusando todas as evidências, minimizando as conseqüências, fazendo vistas grossas - perseguindo como naturais, metas que são históricas. O conhecimento como ânsia de domínio; o desejo de reduzir à passividade; o exercício plenipotenciário da vontade são violências ao diálogo, cuja faceta exterior necessária é a ralação com a natureza como violação e humilhação.

Tendo cedido em sua autonomia, a razão tornou-se um instrumento. No aspecto formalista da razão subjetiva, sublinhado pelo positivismo, enfatiza-se a sua não-referência a um conteúdo objetivo; em seu aspecto instrumental, sublinhado pelo pragmatismo, enfatiza sua submissão a conteúdos heterônomos. A razão tornou-se algo inteiramente aproveitado no processo social. Seu valor operacional, seu papel no domínio dos homens e da natureza tornou-se o único critério para avaliá-la. Os conceitos se reduziram a uma síntese das características que vários espécimes têm em comum. Pela denotação da semelhança, os conceitos eliminaram o incômodo de enumerar qualidades e servem melhor assim para organizar o material do conhecimento. São pensados como simples abreviações dos itens a que se referem. Qualquer uso dos conceitos que transcenda a sumarização técnica e auxiliar dos dados factuais foi eliminado como último vestígio da superstição. Os conceitos foram “aerodinamizados”, racionalizados, tornaram-se instrumentos da economia de mão-de-obra. É como se o próprio pensamento tivesse se reduzido ao nível do processo industrial, submetido a um programa estrito, em suma tivesse se tornado uma parte e uma parcela da produção. Toymbee descreveu algumas das conseqüências desse processo no ato de escrever História. Ele fala da “tendência para o oleiro tornar-se escravo do seu barro... No mundo da ação, sabemos como é desastroso tratar animais ou seres humanos como se eles fossem pedras e paus. Porque deveríamos supor que esse tratamento fosse menos equivocado no mundo das idéias”? (HORKHEIMER, 2002, p. 29-30)

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1 Haverá porventura – uma questão para médicos de doenças mentais – neuroses devidas à sanidade? (NIETZSCHE, 2005, p.12)

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