Memória e filosofia II
As exigências que a memória apresenta devem levar a resultado oposto daquilo que tem sido um denominador comum de nossa época: a convicção de que só está submetido à história o pensamento de nossos oponentes, ao passo que, nossa apreensão torna-se, ela mesma, realização potencial da história, portanto grandeza supra-histórica. Esta violência contra o pensamento exterioriza-se sob a forma do terror, que só pode ser superado na condição de que o pensamento se submeta à memória (historicidade) e, deste modo, se reconheça como humano, ao compreender a natureza mesma de suas reivindicações. Sem este ato de contrição o pensamento jamais poderá ser verdadeiramente crítico, pois apenas perpetuaria a violência de que é vítima.
(...) encontrei o instinto de arrogância, próprio dos teólogos, por toda parte onde, hoje em dia, alguém se sente “idealista” – por toda parte onde alguém, em virtude de sua mais elevada origem, se arroga o direito de olhar parar a realidade com superioridade e distância... O idealista, tal como o sacerdote, tem na mão todos os grandes conceitos (...) vê tais coisas abaixo de si como forças perniciosas e sedutoras, sobre as quais paira o “espírito” no puro ser-para-si (...) (NIETZSCHE, 1997, p. 21)
Na nossa época, porém, tão logo o pensamento se submeta à memória e se reconheça na história - se for intelecção obstinada - causa a si mesmo horror, pois vê no espelho do tempo, além daquilo que sempre considerou idêntico a si (o progresso), a sombra que supôs ser de si distinto (a barbárie). A surpresa desse horror, no entanto, só pode ser compatível com a estabilidade deste mundo, sob a condição de racionalizar-se sob a forma de um propósito, em um programa finalista (uma teleologia do espírito ou da sociedade), ou ser negada como irreal – efeito que pode ser obtido, igualmente, por tomá-la como o real sem mediações, de modo que a mente só pode apropriar-se daquele horror como patologia individual, exilando-o, portanto, do mundo percebido como corrente, normal.
Que viva o México
(Sergei Eisenstein, 1932)
http://br.youtube.com/watch?v=HG1jNh4_0wc
A compreensão estritamente “idealista” - devidamente requentada segundo o gosto pós-moderno - do fenômeno nazista é correlata desta última abordagem, pois, fazendo-o depender do desenvolvimento cultural estrito senso, sem vínculos com a totalidade social e as condições materiais de sua produção e reprodução, contribui para o obscurantismo geral. Pelo recurso de condenar unilateralmente o espírito, salva-se a ordem material, sem a qual o horror seria impossível e ineficaz. Esta abstração, um tornar o espírito absoluto mais que absoluto, posto que desprovido de todo o vínculo com a história concreta, é má filosofia, que conduz ao culto da ordem, uma vez que sua crítica torna-se impossível. Por meio desta pirotecnia, a própria cultura declina de suas pretensões de elevação, preferindo restar no solo, de modo que a coruja de minerva transmuta-se no pavão pós-moderno.
Se a crítica filosófica se transformou em rejeição pura e simples da filosofia, tão extensa que se possa incluir mesmo os gregos, isso se fez apenas para afirmar o irracionalismo, que não sendo capaz de atribuir ao mundo qualquer sentido, toma a imediaticidade como prancha de náufrago - ainda que não sem antes cobri-la de adereços, patuás e ornamentos mágicos, ou seja, saturá-la de significações insignificantes. É natural, portanto, que o culto da ordem não seja proferido apenas a partir das posições historicamente conservadoras; ele se converte também na crítica cáustica do imutável que remanesce imutável, resolvendo-se na ironia fina, no non sense e no deboche.
Aqueles que, há tempo e com palavras sempre novas, querem sempre o mesmo: que não haja progresso, dispõem aí de pretexto mais perigoso. Ele se nutre do sofisma segundo o qual, já que até hoje não teria havido progresso, tampouco deveria havê-lo. Apresentam o triste retorno do mesmo, como mensagem do ser que deve ser captada e respeitada, enquanto, na realidade, o próprio ser a quem se atribui a mensagem é um criptograma do mito, liberar-se do qual equivaleria a uma parcela de liberdade. Na tradução do desespero histórico em norma a ser seguida, ressoa mais uma vez o abjeto arranjo da doutrina teológica do pecado original, segundo o qual a corrupção da natureza humana legitimaria a dominação, e o mal radical, o mal. Esta mentalidade tem atualmente uma palavra-chave [Stichwort] para prescrever de forma obscurantista a idéia de progresso: a crença no progresso. O ‘habitus’ daqueles que tacham de positivista o conceito de progresso é, quase sempre, ele mesmo positivista. Eles apresentam o curso do mundo que, constantemente, tem revogado o progresso – no qual ao mesmo tempo, sempre consistiu – como instância para argüir que o mundo não tolera o progresso e que, quem não renuncia a ele, age mal. (…) (ADORNO-b, 1995, p. 51)



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