Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

Memória e filosofia: o lugar da ecologia


The description of the labor process in its relations to nature will necessarily bear the imprint of its social structure as well. If the human being were not authentically exploited, we would be spared the inauthentic talk of an exploitation of nature. This talk reinforces the semblance of “value”, which accrues to raw materials only by virtue of an order of production founded on the exploitation of human labor. Were this exploitation come to a halt, work, in turn, could no longer be characterized as the exploitation of nature by man. It would henceforth be conducted in the model of children’s play, which in Fourier forms the basis of the “impassioned work” of Harmonians. To have instituted play as the canon of a labor no longer rooted in exploitation is one of the great merits of Fourie. Such work inspirited by play aims not at the propagation of values but at the amelioration of nature. For it, too, the Fourierist utopia furnishes a model, of a sort to be found realized in the games of children. It is the image of an earth on which every place has become an inn. The double meaning of the word <Wirtschaft> blossoms here: all places are worked by human hands, made useful and beautiful thereby; all, however, stand, like a roadside inn, open to all. An earth that was cultivated according to such an image would cease to be part of “a world where action is never the sister of dream”. On that earth, the act would be kin to dream. (BENJAMIN, 1999, p. 360-361)

Crianças em subúrbio de Londres, Setembro de 1940

Fonte: http://www.archives.gov/research/ww2/photos/

Do que as crianças brincam?

O pressuposto metodológico que a experiência de Auschwitz requer à intelecção, para não ser mera tergiversação, implica em fazer da ecologia uma ética imanente à ciência. Para se manter terrena, humana, a ciência deve ser necessariamente ecológica, pois, o contrário, seria subordinar cada um dos problemas que se coloca à ciência a seus próprios termos, rezando a Deus, à noite, para que tudo dê certo no futuro1. A necessidade desta limitação não decorre de um requerimento teológico, antes é uma exigência da potência da ciência enquanto tal: justamente porque se converteu efetivamente em poder de escala planetária, a ciência deve ser ecológica.

A ciência que trata a natureza como elemento a ser dominado, subjugado, para fins da produção da riqueza alienada, violenta a dignidade do homem, pois é meio para a opressão e não para a liberdade. No seio de nossas relações sociais, tanto quanto o homem espécie é meio humano para a reprodução da coisa-capital, a natureza é meio material para a perpetuação do domínio. Deste modo a libertação do homem do vaticínio da barbárie implica na desalienação de sua relação com a natureza, para que essa se lhe ofereça não como possessão ou elemento hostil, mas como o outro do homem, natureza humanizada, alteridade. A violência do homem contra a natureza já é a violência do homem contra o homem e essa agressão contínua, vivida e revivida na e por meio da indiferença, é Auschwitz como possibilidade e recorrência. Neste sentido preciso, a declaração do estatuto da natureza é, em cada formulação teórica, a filosofia como o condicionado; nada existe depois de feita a opção, a não ser o território do eterno retorno do princípio de que se partiu.

Note-se que não ser requer aqui um retorno a estágios pré-científicos ou pré-industriais, mas que a lógica da relação com a natureza não se faça sob o espectro do domínio ou do valor (que se valoriza), os quais a tornam o alvo de toda a agressividade que a civilização acumula em seu interior. Transformar-se a ecologia em uma ética imanente da ciência equivale a exigir que a civilização supere, em seu próprio território, a agressividade que lhe é inerente - transformando-se a reprodução infinita da alienação universal em acolhimento terreno e planetário do homem. Para tanto é preciso investir, contudo, no desenvolvimento da ciência como diálogo, como realidade dialógica.

O outro que a natureza dialógica da ciência requer e exige, contudo, não é o outro determinado, o colega cientista, o filósofo da ciência, o oponente político; ele é um outro universal, indeterminado: a natureza, as gerações que virão, os sonhos de justiça e fraternidade, a esperança que todo começo traz consigo e da qual, todos nós, em um sentido absolutamente tangível e determinado, somos filhos. A natureza dialógica da ciência, quando devidamente compreendida, é a própria exigência de hospitalidade e respeito para com o outro, o olhar para além do uso instrumental, funcional e traduz-se em uma relação completamente distinta com o mundo: não a submissão, a imposição e a violência, tão necessária quanto natural, quando o outro é concebido como mero meio, para um fim, que se propõe e se predica imanente ao desenvolvimento do ser.


Vítimas da bomba atômica - Hiroshima

O produto do diálogo, à sua vez, não é somente o consentimento, o assentimento; seu produto mais significativo é o revelar-se, o desnudar-se e, portanto, o colocar-se em evidência para si mesmo - o entregar-se, o comprometer-se, o empenhar e confiar a vida, para recebê-la de volta. Se a ciência é verdadeiramente dialógica, deixa-se o campo do domínio e do conhecimento, para ir ao território do autodomínio e do auto-conhecimento. Neste sentido preciso, a ecologia de que se trata é também uma ecologia do espírito e este avanço seria igualmente um retorno.

A ciência dialógica é, portanto, de certo modo, uma terapêutica: ela cura o homem, recorrentemente, de sua ilusão de potência. Entende-se, então, que esta natureza dialógica da ciência implica e requer que ela se desenvolva como elemento da política, ou ainda, submetida ao domínio da polis, no espaço público; como problema de todo cidadão, que nesta pura e simples qualidade, tem o direito de comparecer no terreno do debate e do diálogo. Mesmo porque, se a ciência é dialógica, esta nasce no território da linguagem, subsumida às suas possibilidades e, de sentença da coisa-em-si sobre si mesma, replicada pelo cientista, ela se transforma, portanto, em conhecimento possível, de um homem verdadeiramente humano.


Bombardeamento de Londres, 1941.

A ciência, para ser mais do que técnica e, portanto, para encontrar em si mesma uma referência humanista, não pode e não deve ser assunto de especialistas, razão pela qual, quando falamos que para atender ao quesito dialógico ela deve ser também ecológica, não pretendemos submeter tudo aos ditames de uma nova especialidade. Ecológico, nos nossos termos, significa compreender que todo e qualquer ato de violência perpetrado contra o outro, é uma ato de violência contra si mesmo, do mesmo modo que a violência que cada qual impõe a si redundará em violência contra o mundo. Ecológico é estar diferenciado e implicado; individuado e ainda assim sentir-se reunido ao universal; é o conter-se a partir da compreensão de que haverá sempre algo que me escapa e que isto, justamente isto, poderá ser fundamental; é o não opor violência à violência, por amor do diálogo; ecológico é fazer profissão de fé na política e não antropomorfizar a natureza, esperando dela uma revolta contra as coisas que são de homens. É especialmente anti-ecológico esperar que a natureza possa ser um instrumento em sua própria causa, e avocar a condição de seu intérprete.

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1 (…) porque o problema da ciência não pode ser conhecido no solo da ciência (…) (NIETZSCHE-b, 2005-a, p. 9)

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