Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



Ato II Ato III Ato IV

Índice
(Ato I)

Memória e filosofia I

Deve-se fundar o conceito de progresso na idéia de catástrofe. Que “tudo continue assim”, isto é a catástrofe. Ela não é o sempre iminente, mas sim o sempre dado. O pensamento de Strindberg, o inferno não é nada a nos acontecer, mas sim esta vida aqui.

A salvação se apega à pequena fissura na catástrofe contínua. (BENJAMIN, 2000, p. 174)

O futuro é no presente, ou, ainda, é o presente que de si mesmo diverge. Deste modo, tão logo o dia tenha nascido, ele já é expectativa de todas as outras manhãs, as quais se apresentam à mente como negação infindável da faticidade. Assim, o romper do dia é tanto mais sublime, porque contém em si, como elemento material (efetivo) e não apenas como idealização, toda a energia de um sol perpétuo, o qual, absolutamente irreal na sua imediaticidade, é possibilidade que se oferece a nós, como lúmen inesgotável. O novo, portanto, como o indeterminado, o devir sem mediações, é potência infinita, todo o futuro neste preciso momento, o que como ímpeto, é incomparavelmente maior do que qualquer elemento histórico determinado. O futuro é, pois, o solvente de toda experiência cristalizada.

Através de um Espelho

http://br.youtube.com/watch?v=3l7FVOh3PzA

http://br.youtube.com/watch?v=_kJ5m9ZnfIs

http://br.youtube.com/watch?v=mbcgov_BQdg

(Ingmar Bergman, 1961)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ingmar_Bergman

Mas o futuro também é uma reminiscência e, por meio desta condição, se apresenta como o determinado; marcado pela imediaticidade e pela memória. A reminiscência, contudo, tão logo se apresente nesta condição, é a própria história em sua totalidade. Compreende-se, portanto, que o presente que de si mesmo diverge, apresente-se neste âmbito, não como o radicalmente novo, mas como um olhar recíproco entre o presente e o passado. E ainda que o futuro reste sempre indeterminado, posto que absolutamente inexprimível em seus próprios termos, ele é, de algum modo e em algum grau, portanto, uma fascinação entre o presente e o passado. No contexto deste fascínio, cabe à filosofia zelar pela integridade da memória, de maneira que o futuro não se veja condenado a perambular de unilateralidade em unilateralidade, encantado por signos exteriores que dissimulam o velho na pele do novo.

Herr Tartüff

Tartufo ou o hipócrita

(Friedrich Wilhelm Murnau, 1926)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Wilhelm_Murnau

A própria teoria filosófica não pode determinar se deve predominar no futuro a tendência barbarizante ou a visão humanística. Contudo, ao fazer justiça àquelas imagens e idéias que em determinadas épocas dominaram a realidade exercendo o papel de absolutos - por exemplo a idéia de indivíduo tal como predominou na época burguesa - e que foram abandonadas no curso da História, a filosofia pode funcionar como um corretivo da História, por assim dizer. Assim os estágios ideológicos do passado não seriam identificados simplesmente à estupidez e à fraude - tal como o veredito estabelecido contra o pensamento medieval pelo Iluminismo Francês. As explicações sociológica e psicológica das crenças antigas seriam distintas da condenação e supressão filosóficas das mesmas. Despojadas do poder que tinham em sua situação na época, serviriam para lançar alguma luz no rumo atual da humanidade. Assumindo esta função, a filosofia seria a memória e a consciência da espécie humana, e deste modo ajudaria a evitar que a marcha da humanidade se assemelhasse à circulação sem sentido da hora de recreio de um manicômio. (HORKHEIMER, 2002, p. 186 - grifos meus)1


Guera Civil Espanhola

Fonte:2 http://www.english.uiuc.edu/maps/scw/photessay.htm

Se a empreitada do futuro parece menos gloriosa, quando colocada nestes termos, ou seja, como dependente da tradição e do passado, isso decorre apenas e tão somente da incompreensão de que mesmo aqueles que se foram têm o direito de participar das primícias do devir, como simples tributo a sua condição humana; por sua carência que se perpetua como uma espécie de resto renitente do tempo: o irrealizado. O futuro, colocado nestes termos, tem o condão de redimir não apenas a nós, mas ao gênero enquanto tal e, portanto, ele não é exatamente apenas uma dimensão do tempo, mas um local de destino, no qual, a porção de humanidade que o presente (a faticidade) perpetuamente nos nega, é gratuitamente oferecida.


O Circo 3

http://br.youtube.com/watch?v=9blB50d4M00

(Charles Chaplin, 1928)

http://epipoca.uol.com.br/gente_detalhes.php?idg=378

Obviamente este lugar é inatingível e irrealizável, posto que está para além do humano. Mas são exatamente este déficit, este hiato e este inexprimível que dignificam a vida, na justa medida que em lugar de esgotá-la declaram a insuficiência de sua realização. No texto, portanto, resta sempre o silêncio como marca daquilo que remanesceu insondável e, na declaração desta insuficiência, permanece aberta a porta por meio do qual o tempo se dobra sobre si mesmo, reclamando a realização de seus sonhos. Por isso, a verdadeira filosofia aparece para a época que lhe vê nascer como uma reivindicação absurda: pois ela sempre irá requerer do homem não o puro isto, mas tudo aquilo que ele poderia ser; não a sua perversão referendada pela ordem, mas toda a sua dignidade e possibilidades. A filosofia que ainda não se colocou em condição de tornar, a cada época, tal reivindicação incontornável, permanece inconclusa, quando não é pura e simples frivolidade travestida de erudição.

Los Solitarios

(Edvard Munch, 1984)

http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/munch/

http://www.edvard-munch.com/

Mas se a filosofia se propõe tal meta, ela faz uma reivindicação total: não lhe interessa o homem tornado unilateral pela ordem, não lhe convêm os cânones, as regras de bom comportamento, os ordenamentos da especialização, a epistemologia racionalista. Quer o homem por inteiro, com corpo e sangue, intelecto, afeto; um ser cuja métrica possa apropriar-se da vida, na sua dimensão verdadeiramente humana. Requer o homem em sua totalidade imediata, de modo que a memória se apresente, também ela, na sua integridade e potência, prenhe de conseqüências e responsabilidade. Evita assim a recordação na forma pasteurizada do filme - cujo final nos é oferecido para proporcionar tranqüilidade -, colocando em seu lugar a dramaticidade solitária da escolha: pois o passado que existe para nós, não é a história em sua forma imediata, mas nossa valoração da memória; a contemporaneidade na forma concentrada da totalidade da história.

Negar como nosso o sofrimento que transpassa a história equivale a perpetuar a sua realização; descuidar de entender as circunstâncias pelas quais o humano se perde na barbárie, não só torna vazio o seu repúdio, como atualiza a violência cometida, de modo que indiferença para com o terror ressurge, subliminarmente, como violência contra nós. Isto é, contudo, o pior do pior, pois nesta falha da memória, perde-se o passado e o presente da violência, de modo que ela é vivida de maneira inconsciente, ainda que absolutamente efetiva em conseqüências.

Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento do perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição com os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer. (BENJAMIN, 1994, p. 224-5)

Roma, cidade aberta 4.

http://br.youtube.com/watch?v=JkhKqzWDYag

(Roberto Rossellini , 1945)

http://www.adorocinema.com/personalidades/diretores/roberto-rossellini/corpo.asp

2 Imagens sobre a Guerra Civil Espanhola:

http://www.sbhac.net/Republica/Introduccion/Introduccion.htm

3 O vagabundo, o palhaço, o mendigo, entre outros tantos, podem ser entendidos como representação do ser humano de mãos vazias, que a história tem recorrentemente produzido. Em Chaplin este tipo é levado ao paroxismo, razão pela qual ele invariavelmente se vê diante de um horizonte nu, ao qual tende até o ponto de com ele fundir-se. Não se trata aqui de resignação ou capitulação diante do impossível, mas de uma expectativa de recomeço, para sobrepujar as cristalizações que se apresentam como insuperáveis. Na modernidade há um affair entre este tipo e a filosofia: ela é sua companheira de estrada.

4 A economia da tortura consiste em demonstrar a fragilidade do corpo humano, diante da potência irresistível do instrumento de tortura. Na idade média, contudo, o suplício se relacionava ao exemplo terrível, à exposição do corpo supliciado, de tal modo que em uma sociedade em que era relativamente fácil submergir ao controle, ficava sempre a certeza do tratamento brutal, no caso da captura. Na modernidade, de outra parte, partindo-se da certeza absoluta da impossibilidade da evasão das várias agências de controle, a tortura procura demonstrar didaticamente a superioridade total dos aparatos coletivos sobre indivíduo. No primeiro caso se pune simbolicamente a tentativa de regicídio, ou seja, o atentado contra o corpo do rei que em caráter pessoal representa a nação. No segundo trata-se de punir a ousadia de pretender divergir da ordem, de que cada indivíduo não deveria ser mais do que exemplar, em uma série idêntica e infinita.

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