Mata Hari
(Devolver o indivíduo ao indivíduo)
É preciso, pois, devolver o indivíduo ao indivíduo, mas como fazê-lo? Toda questão verdadeiramente simples envolve uma resposta complexa. De todo modo, qualquer que seja o caminho, ele requer a recolocação do real em seus próprios termos e, portanto, demanda a crítica da estetização do real, ou, dito de outra forma, a análise e superação da sociedade que subordinou a produção da cultura à forma mercantil - o que envolve não apenas seus elementos imediatamente produtivos e reprodutivos, mas também aquilo que a sociedade mercantil tem de ambivalente e arcaico. Mas esta meta é, em algum grau, uma proposta de edificação do homem, a partir de valores totalmente distintos daqueles que têm se cristalizado na modernidade:
(…) uma outra espécie de homens é sempre a mais prejudicada e enfim tornada impossível, acima de tudo os grandes “construtores”; a energia de construir é paralisada; a coragem de fazer planos para o futuro distante é desestimulada; começam a faltar os gênios organizadores: - quem ainda ousa empreender obras para as quais é preciso contar com milênios? Está se extinguindo justamente a crença básica pela qual alguém pode calcular, prometer, antecipar o futuro em planos e sacrificá-lo a seus planos, a crença de que o homem só tem valor e sentido quando é uma pedra num grande edifício: para isso ele tem, antes de tudo, que ser firme, ser “pedra”… E, sobretudo, não ser – ator! Em poucas palavras – ah, sobre isso haverá silêncio por muito tempo! – o que doravante não pode mais ser construído, é – uma sociedade no velho sentido da palavra; para construir tal edifício falta tudo, a começar pelo material. Nós todos já não somos material para uma sociedade: eis uma verdade cuja hora chegou! Para mim não faz diferença que o tipo de homem mais míope, talvez mais honesto, certamente mais ruidoso que hoje existe, nossos caros socialistas, pense, espere, sonhe, principalmente grite e escreva mais ou menos o contrário; pois seu lema para o futuro, “Sociedade livre”, já pode ser lido em todos os muros e mesas. Sociedade livre? Sim! Sim! Mas sabem os senhores com que ela é feita? Com ferro de madeira! Com o famoso ferro de madeira! E nem sequer de madeira (NIETZSCHE, 2001, p. 253)
Greta Garbo
(Mata Hari, 1932)
http://br.youtube.com/watch?v=JjTe2rumJGQ
Sem a libertação da imaginação, não haverá superação da ordem, pois ela, a esta altura, sonha em nós, os delírios da coisa capital. Recuperar o imaginário para si mesmo, este é uma elemento necessário em qualquer programa de emancipação desta sociedade histórica em que vivemos. A razão, portanto, que critica a si mesma, não o faz por ato de renúncia à sua pretensão de elevar o humano a partir do humano: ela quer encontrar para si uma posição a partir da qual esta meta seja possível. Se ela faz, portanto, a crítica do progresso, não é para recusá-lo, mas para humanizá-lo, instituindo-o sob a perspectivas dos desde sempre preteridos; se recusa a história como mero desdobrar-se do espírito sobre si mesmo, não é para negar o universal, mas para afirmá-lo como ainda humano, apesar de sua abstração. Se ela requer uma prática e uma ética ecológicas, não é por reminiscência a um passado idílico, mas porque reconhece que a agressão à natureza não é uma necessidade do desenvolvimento abstratamente concebido, mas um requerimento da ordem, que compensa a miséria subjetiva com o delírio da coisa, que estetiza o real. E a potência desta agressão é tanto maior, quanto maior for o conflito entre as possibilidades materiais da produção e a exigência de que sua realização se dê sob forma de valor que se valoriza; o que se anuncia nos exatos termos da modernidade da seguinte forma: justamente por meio de nossa absoluta riqueza, nossa mais absoluta miséria.
O ambiente objetivo do homem adota, cada vez mais brutalmente, a fisionomia da mercadoria. Ao mesmo tempo, a propaganda se propõe a ofuscar o caráter mercantil das coisas. À enganadora transfiguração do mundo das mercadorias se contrapõe sua desfiguração no alegórico. A mercadoria procura olhar-se a si mesma na face, ver a si própria no rosto. Celebra sua humanização na puta. (BENJAMIM, 2000, p. 163)
Mata Hari



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