Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

Laranja mecânica

(A delinqüência necessária)

O solapamento das políticas que se associaram ao Estado de bem-estar e o desmantelamento do assalariamento, como relação econômica predominante e típica nas sociedades capitalistas, conferem aos fenômenos de intolerância um combustível complementar, na justa medida em que geram mão-de-obra disponível para todo tipo de atividade, e especialmente para atividade nenhuma. O fenômeno da delinqüência, apropriado como algo remotamente associado à ordem, mas que demonstra reiteradamente sua unidade absoluta com ela - a cidade de Paris e seus árabes e mulçumanos que o digam -, é um elemento constitutivo da contemporaneidade.

A conseqüência política dessa evolução é evidente: o retorno do famoso “problema das classes perigosas” do século XIX, com a possibilidade de revoltas coletivas desestabilizadoras (o melhor resultado possível a meu ver) ou a generalização da delinqüência individual. Neste último caso, reencontra-se o princípio de regulação do liberalismo: o medo da delinqüência solidariza os dois primeiros terços da sociedade, até mesmo parte do último terço, contra a “ameaça”. A luta contra a “insegurança” torna-se um argumento político tão mais eficaz quanto se pode isolar como “estranhos” os promotores da desordem, ou até o que se chama “pré-delinqüentes”, gente de cor, jovens de conjuntos habitacionais em via de deterioração, etc. Pode-se até abrir um setor de atividade próspera (a empresas de segurança) para empregar uma parte dos pobres a fim que defendam os ricos contra outros pobres. (LIPIETZ, 1991, p.62)

Laranja Mecânica

(Stanley Kubrick, 1971)

http://www.webcine.com.br/personal/stanleyk/stanleyk.htm

A violência da gangue, segundo a abordagem do filme e do jornal - que a representam de maneira ad hoc; subtendida a partir de seu contexto geográfico e geofísico, uma referência espacial com relação à cidade - é explicada na justa medida em que se recusa seu entendimento: o banditismo e a delinqüência são elementos constitutivos do real e do regime de produção, porque a forma específica com que este se desenvolve é a da geração de todo vínculo como o aleatório e a redução de tudo que é individual, ao individualismo. A gangue, portanto, não se circunscreve, e sua forma exterior é tão variável quanto as distintas possibilidades expressivas deste fenômeno que é a malaise - um certo mal-estar, uma determinada fadiga, que se resolvem na violência inexplicável. Mas este inexplicável é sua própria natureza; a recusa a qualquer funcionalidade, racionalidade e causalidade - nisso existe uma correspondência verdadeiramente estética entre o real e as manifestações de fúria: o aleatório da existência, a ação sem qualquer relação de causalidade. E tanto mais aleatório, tanto mais irredutível a uma explicação, mais de conformidade com a própria subjetividade: ela, a violência, é a exteriorização do vazio e redução a ele; a imposição da ação como afirmação de um padrão, cujo caráter é a própria ausência de sentido.


Laranja Mecânica

(Stanley Kubrick, 1971)

http://www.terra.com.br/cinema/favoritos/kubrick.htm

Mas quem garante que estes quadros - cuja lei constitutiva é a anomia - se manterão dentro dos limites “civilizados” da democracia ocidental? Quem assegura que eles não possam ter “usos políticos alternativos”? Pensado ainda sob um outro ponto de vista, mais realista, conforme ensina Hannah Arendt: em um mundo que já se propôs a executar massacres administrativos, burocráticos, sistemáticos; que desenvolveu métodos limpos e rápidos de morte para milhões, que destino se reserva aos redundantes?

O horror deste raciocínio, desgraçadamente, não pode ser colocado à parte, porque a reprodução societária o reafirma reiteradamente. A não funcionalidade absoluta, quando confrontada com os termos de uma sociedade organizada segundo a quintessência da filosofia pragmatista, já é uma sentença velada de morte, de que as demandas pelo endurecimento da lei são apenas o eterno prelúdio - que enunciam como meta, exatamente aquilo a que a realidade já dá cumprimento cuidadoso e metódico.

A indiferença do mundo pretensamente civilizado para com a África em particular e o terceiro mundo em geral, o que revela de sua própria natureza? Não existe, difuso nas mentalidades, a noção de um quase humano, incompletamente humano, que a um tempo é objeto de misericórdia e de descaso. Que são as ações humanitárias, além da conjunção de bons negócios e a redenção da consciência coletiva - uma forma moderna de indulgência? Para os paladinos da ordem, a miséria em qualquer de suas configurações pode ser explicada, racionalizada, teorizada. Mas de um ponto de vista que vai para além da racionalidade propriamente técnica, ela permanece e permanecerá abjeta, não por sua própria condição, que já foi quase universal na era pré-capitalista, mas porque ela não é mais necessária. Essa violência sistêmica, que condena milhões, desnecessariamente, a uma vida delapidada, retorna ao social na forma de uma violência a-sistemática e irracional, mas como todos os atributos da necessidade. O aleatório da violência da gangue é, portanto, uma grandeza social, elemento correlato da vida que se afirma como fenômeno meramente estatístico e quantitativo.


Laranja Mecânica

(Stanley Kubrick, 1971)

http://www.britmovie.co.uk/directors/s_kubrick/biog.html

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Africano é menos inteligente, diz Nobel:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1810200703.htm

Watson se desculpa por declaração racista:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1910200701.htm

Heidegger sem disfarces:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0411200710.htm

Watson estava certo, diz autor de livro polêmico:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0511200702.htm

Pensamentos quase póstumos (Lucianl Huck):

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0110200708.htm

Prazeres expressos (Renato Mezan):

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1410200707.htm

Jogo dos incluídos (Eliana Robert Moraes):

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1410200710.htm

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