Ladrões de Bicicleta
<Ladrões de Bicicleta
(Vittorio de Sica, 1948)
http://biografias.netsaber.com.br/ver_biografia_c_3311.html
O ser humano redunda a olhos vistos na sociedade contemporânea, perde vínculos e objetividade, se vê reduzido a uma relação contingente com a totalidade e com o sistema, e, à medida que o desemprego, o emprego fortuito e desqualificado, os bicos e as tarefas aumentam, progride a noção de que se está no mundo para fazer o que quer seja e sobreviver. Nesta fórmula tão lânguida e exígua já está contido todo o perigo, mesmo que não queiramos admiti-lo: quando o homem se vê reduzido a uma mera virtualidade; submetido às determinações da auto-conservação, por oposição a um ambiente hostil; aceitando fazer aquilo que se lhe apresente, de modo a garantir a mera existência, já se encontra presente o fundamento e a essência da solução totalitária. A que missões pode dedicar-se um homem totalmente indiferente com relação a suas ações e tornado sem qualquer substância própria, pelo reiterado operar do modo de produção e reprodução da vida material?
A última gargalhada
(Murnau, 1924)
http://www.cinefantastico.com/bio.php?id=21
A mera inexistência de uma referência estável, o colocar-se em qualquer posição por absoluta ausência de posição, a apreensão do mundo como natureza amorfa e informe prenunciam e configuram a diferença entre a tragédia e o romance de folhetim (o romance em sua forma corrupta), não como gêneros literários, mas como uma mudança substantiva da própria condição existencial do homem. O personagem trágico encontrava a fortuna e o destino como aquilo que é singular e os realizava, representava, nesta mesma condição. Confirmava, portanto, o mundo objetivo como o existente e materializava os valores humanos, ainda que mediados pelo relacionamento com o mito - que como modelos que eram, explicitavam uma estrutura de valores à qual os indivíduos somente poderiam se opor aceitando um custo existencial que, de certo modo, se passava a conhecer a partir da própria tragédia.
O romance folhetinesco, no entanto, elide o destino e a fortuna (a necessidade), afirmando a existência como uma grandeza estatística e, em certo grau, aleatória, representando-a como uma decorrência da vontade obstinada e, mais precisamente, da vontade que deseja elevar-se socialmente - apagar as diferenças. Realiza assim as sínteses mais bizarras e arbitrárias, as soluções mais esdrúxulas que se pode imaginar, mas, que tornam plástica a realidade, para que o próprio indivíduo se deixe por ela seduzir; para que se entregue e não resista. Esta entrega por meio de uma promessa de elevação e de liberdade é, contudo, tão logo realizada como forma geral e degradada, a própria dissolução da individualidade, porque é a vida como sonho e a objetividade como grandeza diretamente onírica - eliminação da oposição à totalidade, sem a qual o indivíduo é insubsistente. À absoluta ausência de posição e de referências encontradas no real - que são, em si mesmas, contudo, a indiferença como sentença e condenação a uma existência aleatória; a necessidade segundo os padrões da ordem - opõe-se, portanto, o romance de folhetim, igualmente arbitrário em seu enredo e seus resultados, mas como promessa de superação do aqui e do agora; falsa resolução das antíteses societárias e da heteronomia.
(...) A própria capacidade de encontrar refúgios e subterfúgios, de sobreviver à própria ruína, com que o trágico é superado, é uma capacidade própria da nova geração. Eles são aptos para qualquer trabalho porque o processo de trabalho não os liga a nenhum em particular. Isso lembra o caráter tristemente amoldável do soldado que retorna de uma guerra que não lhe dizia respeito, ou do trabalhador que vive de biscates e acaba entrando em ligas e organizações paramilitares. A liquidação do trágico confirma a eliminação do indivíduo (...). (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 144)
A última gargalhada
(Murnau, 1924)



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