Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

Gilda

(Do slogan)

É curioso perceber como a humanidade se esvai por completo, quando o absurdo se repete infinitamente. As circunstâncias parecem mesmo indicar que nós temos uma inclinação mórbida, se não patológica, pela normalidade e por padrões, de modo que mesmo a loucura e a infâmia acabam de alguma maneira, incorporadas ao nosso psiquismo, como se fossem de fato aceitáveis, desde que devidamente banalizadas. A repetição sistemática e monótona da iniqüidade e do despropósito parece nos lançar em uma espécie de transe hipnótico, custando-nos enorme esforço ver, que não muito além de nosso território pacífico, comezinho e prosaico de homem médio encontram-se o desatino, a irracionalidade e, acima de tudo, o império da submissão ao infra-humano, que se nos apresenta como se fora fatalidade de destino, castigo natural ou infortúnio intrínseco e imanente a povos e populações.

Não é um acidente, portanto, que a propaganda nazista se fundamentasse no repetição incessante de slogans: esta espécie de estado hipnótico era conscientemente almejada, sendo o bombardeio incessante do mesmo discurso sobre a massa, um de seus maiores veículos. Não é algo fortuito, igualmente, que a propaganda em geral, para ser eficiente e eficaz deva ser massiva. A meta, lá como aqui, é engendrar uma outra ordem de percepção, onde o onírico se sobreponha ao real e à verdade1. O slogan, contudo, é a realidade como o verossímil.

Gilda

(Rita Hayworth, 1946)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Rita_Hayworth

No desenvolvimento desta noção é necessário um grande cuidado: a propaganda não engana em um sentido convencional, pois ela diz não aquilo que quer falar, mas precisamente o que se pretende ouvir. Não engana, portanto, porque tem a anuência e o aval do consumidor: ele quer e precisa ser seduzido. Compra sempre o fascínio de si, através de uma fascinação que se lhe apresenta como exterior. O que queremos todos nós - homens e mulheres - com as femme fatale, de que Gilda é apenas uma figuração?

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1 [a] verdade não tem graus como a verossimilhança (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 181).

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