Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



Ato II Ato III Ato IV

Índice
(Ato I)


Fausto

(A solidão impossível)

Almas Perversas

http://br.youtube.com/watch?v=vS2QlMl__Nw

(Fritz Lang, 1945)

http://www2.uol.com.br/revistadecinema/edicao39/dossie/index.shtml

A resposta à questão de nossa correta estatura na história não é a inação, mas a conclamação à política e ao diálogo; a incitação ao recomeço, feita na firme convicção de que este mesmo começo não está condenado pela tradição, mas, ao contrário, encontra-se fundamentado na instituição desta para os fins da emancipação. Para estar a altura deste desafio é preciso, no entanto, que estejamos em posição não somente de dialogar com o outro, no espaço público, no domínio da polis. Nós precisamos, especialmente, dialogar no nosso íntimo, com esta duplicidade imanente que o nosso ser no mundo implica.

Haver um espaço para criticar-se, para refletir, poder recolher-se sobre si mesmo, é condição sine qua non do diálogo com o outro, do reconhecer-se nele. Nos termos da contemporaneidade, contudo, ao desbaratamento do espaço público corresponde a invasão de tudo que é privado, até que do privado só reste a ficção e o significante, vazio de significado. Pois se é verdade que estamos atomizados, completamente isolados em nossas casas, apartados de uma participação política significativa, também é um fato que só vivemos este isolamento totalmente acompanhados e invadidos, por meios que não nos permitem verdadeiramente estar a sós: a TV, o computador e a internet, o vídeo, o ipod, o rádio, o a revista de celebridades, o romance barato, etc.


Fausto

http://br.youtube.com/watch?v=JpkObnyzPhE

(Murnau, 1926)

Uma subjetividade assim invadida, à qual não se dá trégua e que não se permite retirar para uma instância verdadeiramente privada, que noção de realidade vai formar? O que é real se não posso experimentá-lo por meio deste eu apartado do mundo e em luta consigo mesmo? Um eu invadido e “colonizado”, que toma de fora e prontos todos os conteúdos simbólicos com que edifica suas representações, talvez vivencie o real por meio de sua estetização e a vida por meio de um enredo tão raso quanto repetitivo. Não se trata apenas de imaginar que a existência possa vir a ser pensada como remissão ao folhetim e ao romance barato, a forma especificamente pequeno-burguesa de expiar a morte. Mais que isso, aquela narrativa barata, com todos os seus mitos constitutivos e representações, pode transformar-se ela mesma na vida, de que a vida real passaria a ser não mais que uma sombra.

(...) Quando o significado do romantismo ficou problemático revelou-se toda a incerteza do homem moderno - sua fuga do presente, seu desejo constante de estar em algum lugar diferente daquele onde tem de estar, seu incessante anseio de terras estranhas e distantes, porque teme a proximidade e a responsabilidade pelo presente. A análise do romantismo levou ao diagnóstico da doença do século inteiro, ao reconhecimento da neurose, cujas vítimas são incapazes de fazer uma descrição de si mesmas e prefeririam sempre estar na pele de outras pessoas, que não se vêem, por outras palavras, como realmente são mas como gostariam de ser. Nessa auto-sugestão e falsificação da vida, nesse “bovarismo”, como sua filosofia foi chamada, Flaubert capta a essência do moderno subjetivismo que distorce tudo aquilo com que entra em contato. A sensação de que dispomos apenas de uma versão deformada da realidade e de que estamos aprisionados nas formas subjetivas de nosso pensamento recebeu pela primeira vez sua plena expressão em Madame Bovary. Um a estrada reta e quase ininterrupta leva daí até o ilusionismo de Proust. A transformação da realidade pela consciência humana, já sublinhada por Kant, adquiriu durante o século XX o caráter de uma ilusão alternadamente mais ou menos consciente e inconsciente, e gerou tentativas para a explicar e desmascarar, como é o caso do materialismo histórico e a psicanálise. Com sua interpretação do romantismo, Flaubert é um dos grandes reveladores e desmascaradores do século e, portanto, um dos fundadores da moderna forma reflexiva da vida. (HAUSER, 1998, p. 809)


http://www.calvin.edu/academic/cas/gpa/posters/bauern36.jpg

This poster (…) was issued for the 1936 National Farming Rally, rather a Nuremberg rally for agriculture. The poster takes note of the major anti-Bolshevist campaign then in progress, evident from the Soviet star in the upper right.

O espírito maligno, que havia sido desterrado da filosofia, faz então seu retorno triunfal, pois na contemporaneidade o real pode aparecer como sua inversão. Neste contexto, o sonho se apresentaria, à sua vez, não como aquilo que se opõe à vida desperta e a fundamenta em sua ânsia de transcendência, mas como sua continuidade imediata: o onírico como obliteração do real e como gratificação infindável. Não se encontra aqui, contudo, uma remissão a Fausto1? E se o pacto infernal fosse, justamente, a demanda ininterrupta de prazer e sua contínua satisfação?

Não é um acidente, portanto, que uma campanha eficiente de marketing explore estas possibilidades contidas no âmago da vida societária, e venda não exatamente produtos, mas meios para ancorar um eu que deseja ir para além de sua imediaticidade - que o coloca inapelavelmente diante de sua nulidade e miserabilidade existencial2. De maneira correlata, a inflação do eu que as narrativas baratas implicam, e que o mercado de celebridades conduz à escala da pandemia, leva-nos a renunciar à singularidade absoluta que somos, para que nos identifiquemos com aquilo que se oferece como um eu para além de nós mesmos. Coincidem, então, nesta alucinação do real, as necessidades da ordem e do indivíduo alienado, pois este, em lugar de enxergar-se em sua miserabilidade, vê aquela miséria verdadeira como elevação luminescente, que se estabelece e é mediada pela posse e pela mercadoria.

Mas justamente porque ninguém pode estar dissociado de si mesmo, a não ser talvez na loucura, o afastamento de si - que tem por fundamento a representação e o conteúdo simbólico que se associam à mercadoria e à sua posse, ou seja, sua condição de fetiche -, já contém como elemento o retorno à presença de si, o que requer um novo lançar-se, e assim até o infinito. E no infinito deste processo, o real vai dando lugar ao hiper-real, que é o real tornado pura fruição estética, gozo, e por meio deste gozo recorrente o eu recusa qualquer negatividade e se reafirma como eu inflado. O real, portanto, não é mais real, é um enredo, que se torna possível porque o eu não encontra mais medida em si mesmo.

(...) Ao contrário, o que o espetáculo produz é uma versão hiper-subjetiva da vida social, na qual as relações de poder e dominação são todas atravessadas pelo afeto, pelas identificações, por preferências pessoais e simpatias. E quanto mais o indivíduo, convocado a responder como consumidor e espectador, perde o norte de suas projeções singulares, mais a indústria lhe devolve uma subjetividade reificada, produzida em série, espetacularizada. Esta subjetividade industrializada ele consome avidamente, de modo a preencher o vazio da vida interior da qual ele abriu mão por força da “paixão de segurança”, que é a paixão de pertencer à massa, identificar-se com ela nos termos propostos pelo espetáculo. Por aí se explica o interesse do público que assiste aos reality shows dos anos 2000 na tentativa de flagrar alguma expressão espontânea da subjetividade alheia sem se dar conta de que os participantes desse tipo de espetáculo são tão “formatados” pela televisão, tão “desacostumados da subjetividade”, quanto o telespectador. (BUCCI; KEHL, 2004, p. 52-53)

O Grande Ditador

Napaloni e Hynkel”

http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Napaloni_and_Hynkel.jpg

(Chaplin, 1940)

http://en.wikipedia.org/wiki/Charlie_Chaplin

Este mesmo mecanismo alucinado, que a sociedade de consumo com certeza engendrou, o nazismo levou para além de tudo o que a experiência humana havia conhecido: só que em lugar de mais mercadorias, mais vítimas; e vítimas sempre novas. Por isso e infelizmente por isso, não se pode entender a natureza do programa nazista, até que fosse tarde demais: ele não atendia a nenhuma necessidade militar, não satisfazia nenhum propósito produtivo, não era nem mesmo um anti-semitismo, no sentido tradicional do termo; ele não se reduzia a termos racionais. A sedução fascista logrou êxito porque direcionou todo o ressentimento que a contemporaneidade trouxe, toda a fúria deste eu infeliz contra si mesmo, para um outro, cuja humanidade foi cassada. E também aqui, em lugar de se ver afundando em sua miséria, o homem se projetou como um eu além de si, o cavaleiro nórdico3, o ariano puro. O programa fascista é puro irracionalismo e como tal, é proto-político, um incitação estética. Nietzsche, ainda que como um prenúncio, soube ver que os contornos possíveis da degeneração da democracia. O fascismo é esta degeneração e não a forma antinômica da democracia:

(…) Houve períodos em que um homem acreditava, com rígida confiança e até com devoção, estar predeterminado para justamente um negócio, um ganha-pão, e absolutamente não queria reconhecer ali o acaso, o papel, o elemento arbitrário (…) Mas também há períodos, os genuinamente democráticos, em que esta crença é abandonada e passa a primeiro plano uma atrevida crença e perspectiva oposta, a crença dos atenienses, que na época de Péricles se fez notar pela primeira vez, a crença dos americanos de hoje, que tende cada vez mais a tornar-se européia: na qual o indivíduo está convencido de poder mais ou menos tudo, de estar mais ou menos à altura de qualquer papel, na qual cada um experimenta consigo, improvisa, de novo experimentam experimenta com prazer, na qual toda natureza cessa e se torna arte. Os gregos, após assumirem esta crença no papel - uma crença de artistas, se quiserem -, sofreram pouco a pouco, é notório, uma singular transformação que não deve ser imitada em todo aspecto: eles se tornaram realmente atores; e como tais, conquistaram, o mundo inteiro, e afinal a própria “conquistadora” do mundo (pois é o Graeculus histrio [ator grego] que vence Roma, e não, como costumam dizer os inocentes, a cultura grega…) Mas o que receio, o que agora já é palpável, caso se quisesse palpar, é que nós, homens modernos, já nos achamos no mesmo caminho; e sempre que o homem começa a descobrir em que medida ele desempenha um papel e em que medida pode ser ator, ele torna-se ator. Com isso emerge uma nova fauna e flora humana, que em tempos mais firmes e limitados não pode crescer - ou fica “embaixo”, debaixo da proibição e da suspeita de desonra -, surge com isso as épocas mais interessantes e mais loucas da história, em que os “atores”, toda espécie de atores, são os verdadeiros senhores. (NIETZSCHE, 2001, p. 252-3)

Hitler e Mussolini

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1 Fausto, uma vez tendo pactuado com o Demônio, a fim de superar suas limitadas condições humanas, passa a ser plenipotenciário, não divergindo, nele, a partir de então, o desejo de sua realização. Deste modo, por exemplo, supera a velhice e se encontra redivivo nos braços de sua amada. Tanto mais atendido se vê, contudo, tanto mais enredado e submisso está. O poder do Demônio parece estar fundado, exatamente, no conceder sem limites. Qual é o fundamento desta troca, que entre si estabelecem Fausto e o Demônio? (Fausto, Friedrich W. Murnau, 1926).

2 (...) No momento de reconhecer um hit institucionalizado, uma pseudo-utilidade passa a ficar sob a hegemonia do ouvinte privado. O possuidor da música que sente que “eu gosto desse hit (porque eu o conheço)”, atinge um delírio de grandeza comparável ao devaneio de uma criança quanto a possuir uma estrada de ferro. Como os jogos de adivinhação, nos concursos realizados pelas propagandas, as canções dos hits só colocam perguntas a que qualquer um pode responder. Apesar disso, ouvintes gostam de dar respostas, pois assim se identificam com os poderes constituídos. (ADORNO, 1994, p. 135)

3 (...) Contudo, os movimentos fascistas - o italiano e o alemão - não apelavam aos guardiões históricos da ordem conservadora, a Igreja e o rei, mas ao contrário buscavam complementá-los com um princípio de liderança inteiramente não tradicional, corporificado no homem que se faz a si mesmo, legitimizado pelo apoio das massas, por ideologias seculares às vezes cultas.

O passado ao qual eles apelavam era uma invenção. Suas tradições, fabricadas. Mesmo o racismo de Hitler não era feito daquele orgulho de uma linhagem ininterrupta e sem mistura que leva americanos esperançosos de provar sua descendência a algum nobre de Suffolk do século XVI a contratar genealogistas, mas uma mixórdia pós-darwinista do século XIX pretendendo (e, infelizmente na Alemanha muitas vezes recebendo) o apoio da nova ciência da genética, mais precisamente do ramo da genética aplicada (“eugenia”) que sonhava criar uma super-raça pela reprodução seletiva e a eliminação de incapazes. A raça destinada a dominar o mundo através de Hitler não tinha sequer um nome até 1898, quando um antropólogo cunhou o termo “nórdico”. (HOBSBAWN, 2003, pp. 121-122)

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O homem na multidão

(Edgar Allan Poe)

"Ce grand malheur, de ne pouvoir être seul."

La Bruyère


De certo livro germânico, disse-se, com propriedade, que "es lässt sich nicht lesen" - não se deixa ler. Há certos segredos que não consentem ser ditos. Homens morrem à noite em seus leitos, agarrados às mãos de confessores fantasmais, olhando-os devotamente nos olhos; morrem com o desespero no coração e um aperto na garganta, ante a horripilância de mistérios que não consentem ser revelados. De quando em quando, ai, a consciência do homem assume uma carga tão densa de horror que dela só se redime na sepultura. E, destarte, a essência de todo crime permanece irrevelada.

Há não muito tempo, ao fim de uma tarde de outono, eu estava sentado ante a grande janela do Café D. . . em Londres. Por vários meses andara enfermo, mas já me encontrava em franca convalescença e, com a volta da saúde, sentia-me num daqueles felizes estados de espírito que são exatamente o oposto do ennui; estado de espírito da mais aguda apetência, no qual os olhos da mente se desanuviam e o intelecto, eletrificado, ultrapassa sua condição diária tanto quanto a vívida, posto que cândida, razão de Leibniz ultrapassa a doida e débil retórica de Górgias. O simples respirar era-me um prazer, e eu derivava inclusive inegável bem-estar de muitas das mais legítimas fontes de aflição. Sentia um calmo mas inquisitivo interesse por tudo. Com um charuto entre os lábios e um jornal ao colo, divertira-me durante a maior parte da tarde, ora espiando os anúncios, ora observando a promíscua companhia reunida no salão, ora espreitando a rua através das vidraças esfumaçadas.

Essa era uma das artérias principais da cidade e regurgitara de gente durante o dia todo. Mas, ao aproximar-se o anoitecer, a multidão engrossou, e, quando as lâmpadas se acenderam, duas densas e contínuas ondas de passantes desfilavam pela porta. Naquele momento particular do entardecer, eu nunca me encontrara em situação similar, e, por isso, o mar tumultuoso de cabeças humanas enchia-me de uma emoção deliciosamente inédita. Desisti finalmente de prestar atenção ao que se passava dentro do hotel e absorvi-me na contemplação da cena exterior.

De início, minha observação assumiu um aspecto abstrato e generalizante. Olhava os transeuntes em massa e os encarava sob o aspecto de suas relações gregárias. Logo, no entanto, desci aos pormenores e comecei a observar, com minucioso interesse, as inúmeras variedades de figura, traje, ar, porte, semblante e expressão fisionômica.

Muitos dos passantes tinham um aspecto prazerosamente comercial e pareciam pensar apenas em abrir caminho através da turba. Traziam as sobrancelhas vincadas, e seus olhos moviam-se rapidamente; quando davam algum encontrão em outro passante, não mostravam sinais de impaciência; recompunham-se e continuavam, apressados, seu caminho. Outros, formando numerosa classe, eram irrequietos nos movimentos; tinham o rosto enrubescido e resmungavam e gesticulavam consigo mesmos, como se se sentissem solitários em razão da própria densidade da multidão que os rodeava. Quando obstados em seu avanço, interrompiam subitamente o resmungo, mas redobravam a gesticulação e esperavam, com um sorriso vago e contrafeito, que as pessoas que os haviam detido passassem adiante. Se alguém os acotovelava, curvavam-se cheios de desculpas, como que aflitos pela confusão.

Nada mais havia de distintivo sobre essas duas classes além do que já observei. Seu trajes pertenciam aquela espécie adequadamente rotulada de decente. Eram, sem dúvida, nobres, comerciantes, procuradores, negociantes, agiotas - os eupátridas e os lugares-comuns da sociedade -, homens ociosos e homens atarefados com assuntos particulares, que dirigiam negócios de sua própria responsabilidade. Não excitaram muito minha atenção.

A tribo dos funcionários era das mais ostensivas, e nela discerni duas notáveis subdivisões. Havia, em primeiro lugar, os pequenos funcionários de firmas transitórias, jovens cavalheiros de roupas justas, botas de cor clara, cabelo bem emplastado e lábios arrogantes. Posta de lado certa elegância de porte, a que, à falta de melhor termo, pode-se dar o nome de "escrivanismo", a aparência deles parecia-me exato facsímile do que, há doze ou dezoito meses, fora considerada a perfeição do bon ton. Usavam os atavios desprezados pelas classes altas - e isso, acredito, define-os perfeitamente.

A subdivisão dos funcionários categorizados de firmas respeitáveis era inconfundível. Fazia-se logo reconhecer pelas casacas e calças pretas ou castanhas, confortáveis e práticas, pelas gravatas brancas, pelos coletes, pelos sapatos sólidos, pelas meias grossas e pelas polainas. Tinham todos a cabeça ligeiramente calva e a orelha direita afastada devido ao hábito de ali prenderem a caneta. Observei que usavam sempre ambas as mãos para pôr ou tirar o chapéu e que traziam relógios com curtas correntes de ouro maciço, de modelo antigo. A deles era a afetação da respeitabilidade, se é que existe, verdadeiramente, afetação tão respeitável.

Havia muitos indivíduos de aparência ousada, característica da raça dos batedores de carteiras, que infesta todas as grandes cidades. Eu os olhava com muita curiosidade e achava difícil imaginar que pudessem ser tomados por cavalheiros pelos cavalheiros propriamente ditos. O comprimento do punho de suas camisas, assim como o ar de excessiva franqueza que exibiam, era quanto bastava para denunciá-los de imediato.

Os jogadores - e não foram poucos os que pude discernir - eram ainda mais facilmente identificáveis. Usavam trajes dos mais variados, desde o colete de veludo, o lenço fantasia ao pescoço, a corrente de ouro e os botões enfeitados do mais desatinado e trapaceiro dos rufiões às vestes escrupulosamente desadornada dos clérigos, incapazes de provocar a mais leve das suspeitas. Não obstante, denunciava-os certa tez escura e viscosa, a opacidade dos olhos, assim como o palor e a compressão dos lábios. Havia, ademais, dois outros traços característicos que me possibilitavam identifica-los: a voz estudadamente humilde e a incomum extensão do polegar, que fazia ângulo reto com os demais dedos. Muitas vezes, em companhia desses velhacos, observei outra espécie de homens, algo diferentes nos hábitos mas, não obstante, pássaros de plumagem semelhante. Podiam ser definidos como cavalheiros que viviam à custa da própria finura. Ao que parecia, dividiam-se em dois batalhões, no tocante a rapinar o público: de um lado, os almofadinhas; de outro, os militares. Os traços distintivos do primeiro grupo eram o cabelo anelado e o sorriso aliciante; o segundo grupo caracterizava-se pelo semblante carrancudo e pela casaca de alamares.

Descendo na escala do que se chama distinção, encontrei temas para especulações mais profundas e mais sombrias. Encontrei judeus mascates, com olhos de falcão cintilando num semblante onde tudo o mais era abjeta humildade; atrevidos mendigos profissionais hostilizando mendicantes de melhor aparência, a quem somente o desespero levara a recorrer à caridade noturna; débeis e cadavéricos inválidos, sobre os quais a morte já estendera sua garra, e que se esgueiravam pela multidão, olhando, implorantes, as faces dos que passavam, como se em busca de alguma consolação ocasional, de alguma esperança perdida; mocinhas modestas voltando para seus lares taciturnos após um longo e exaustivo dia de trabalho e furtando-se, mais chorosas que indignadas, aos olhares cúpidos dos rufiões, cujo contato direto, não obstante, não podiam evitar; mundanas de toda sorte e de toda idade: a inequívoca beleza no auge da feminilidade, lembrando a estátua de Luciano, feita de mármore de Paros, mas cheia de imundícies em seu interior; a repugnante e desarvorada leprosa vestida de trapos; a velhota cheia de rugas e de jóias, exageradamente pintada, num derradeiro esforço por parecer jovem; a menina de formas ainda imaturas, mas que, através de longa associação, já se fizera adepta das terríveis coqueterias próprias do seu ofício e ardia de inveja por igualar-se, no vício, às suas colegas mais idosas; bêbados inúmeros e indescritíveis; uns, esfarrapados, cambaleando inarticulados, de rosto contundido e olhos vidrados; outros, de trajes ensebados, algo fanfarrões, de lábios grossos e sensuais, e face apopleticamente rubicunda; outros, ainda, trajando roupas que, em tempos passados, haviam sido elegantes e que, mesmo agora, mantinham escrupulosamente escovadas; homens que caminhavam com passo firme, mas cujo semblante se mostrava medonhamente pálido, cujos olhos estavam congestionados e cujos dedos trêmulos se agarravam, enquanto abriam caminho por entre a multidão, a qualquer objeto que lhes estivesse ao alcance; além desses todos, carregadores de anúncios, moços de frete, varredores, tocadores de realejo, domadores de macacos ensinados, cantores de rua, ambulantes, artesãos esfarrapados e trabalhadores exaustos, das mais variadas espécies - tudo isso cheio de bulha e desordenada vivacidade, ferindo-nos discordantemente os ouvidos e provocando-nos uma sensação dolorida nos olhos.

Conforme a noite avançava, progredia meu interesse pela cena. Não apenas o caráter geral da multidão se alterava materialmente (seus aspectos mais gentis desapareciam com a retirada da porção mais ordeira da turba, e seus aspectos mais grosseiros emergiam com maior relevo, porquanto a hora tardia arrancava de seus antros todas as espécies de infâmias), mas a luz dos lampiões a gás, débil de início, na sua luta contra o dia agonizante, tinha por fim conquistado ascendência, pondo nas coisas um brilho trêmulo e vistoso. Tudo era negro mas esplêndido - como aquele ébano ao qual tem sido comparado o estilo de Tertuliano.

Os fantásticos efeitos de luz levaram-me ao exame das faces individuais, e, embora a rapidez com que o mundo iluminado desfilava diante da janela me proibisse lançar mais que uma olhadela furtiva a cada rosto, parecia-me, não obstante, que, no meu peculiar estado de espírito, eu podia ler freqüentemente, mesmo no breve intervalo de um olhar, a história de longos anos.

Com a testa encostada ao vidro, estava eu destarte ocupado em examinar a turba quando, subitamente, deparei com um semblante (o de um velho decrépito, de uns sessenta e cinco anos de idade), um semblante que de imediato se impôs fortemente à minha atenção, dada a absoluta idiossincrasia de sua expressão. Nunca vira coisa alguma que se lhe assemelhasse, nem de longe. Lembro-me bem de que meu primeiro pensamento, ao vê-lo, foi o de que, tivesse-o conhecido Retzsch, e não haveria de querer outro modelo para as suas encarnações pictóricas do Demônio. Enquanto eu tentava, durante o breve minuto em que durou esse primeiro exame, analisar o significado que ele sugeria, nasceram, de modo confuso e paradoxal, no meu espírito, as idéias de vasto poder mental, de cautela, de indigência, de avareza, de frieza, de malícia, de ardor sanguinário, de triunfo, de jovialidade, de excessivo terror, de intenso e supremo desespero. Senti-me singularmente exaltado, surpreso, fascinado. "Que extraordinária história", disse a mim mesmo, "não estará escrita naquele peito!" Veio-me então o imperioso desejo de manter o homem sob minhas vistas... de saber mais sobre ele. Vesti apressadamente o sobretudo e, agarrando o chapéu e a bengala, saí para a rua e abri caminho por entre a turba em direção ao local em que o havia visto desaparecer, pois, a essa altura, ele já sumira de vista. Ao cabo de algumas pequenas dificuldades, consegui por fim divisá-lo, aproximar-me dele e segui-lo de perto, embora com cautela, de modo a não lhe atrair a atenção.

Tinha agora uma boa oportunidade para examinar-lhe a figura. Era de pequena estatura, muito esguio de corpo e, aparentemente, muito débil. Suas roupas eram, de modo geral, sujas e esfarrapadas, mas quando ele passava, ocasionalmente, sob algum foco de luz, eu podia perceber que o linho que trajava, malgrado a sujeira, era de fina textura, e, a menos que minha visão houvesse me enganado, tive um relance através de uma fresta da roquelaure, evidentemente de segunda mão, que ele trazia abotoada de cima a baixo, de um diamante e de uma adaga. Essas observações aguçaram minha curiosidade, e decidi-me a acompanhar o estranho até onde quer que ele fosse.

Era já noite fechada, e uma neblina úmida e espessa, que logo se agravou em chuva pesada, amortalhava a cidade. Essa mudança de clima teve um estranho efeito sobre a multidão, que logo foi presa de nova agitação e se abrigou sob um mundo de guarda-chuvas. A agitação, os encontrões e o zunzum decuplicaram. De minha parte, não dei muita atenção à chuva; uma velha febre latente em meu organismo fazia com que eu a recebesse com um prazer algo temerário. Amarrando um lenço à boca, continuei a andar. Durante meia hora o velho prosseguiu seu caminho, com dificuldade, ao longo da grande avenida; eu caminhava grudado aos seus calcanhares, com medo de perdê-lo de vista. Como nunca voltou a cabeça para trás, não se deu conta de minha perseguição. A certa altura, meteu-se por uma travessa que, embora repleta de gente, não estava tão congestionada quanto a avenida que abandonara. Evidenciou-se, então, uma mudança no seu procedimento. Caminhava agora mais lentamente e menos intencionalmente do que antes; com maior hesitação, dir-se-ia. Atravessou e tornou a atravessar a rua repetidas vezes, sem propósito aparente, e a multidão era ainda tão espessa que, a cada movimento seu, eu era obrigado a segui-lo bem de perto. A rua era longa e apertada, e ele caminhou por ela cerca de uma hora; durante esse tempo, o número de transeuntes havia gradualmente decrescido, tornando-se o que é ordinariamente visto, à noite, na Broadway, nas proximidades do Park, tão grande é a diferença entre a população de Londres e a da mais populosa das cidades americanas. Um desvio de rota levou-nos a uma praça brilhantemente iluminada e transbordante de vida. As antigas maneiras do estranho voltaram a aparecer. O queixo caiu-lhe sobre o peito, enquanto seus olhos se moviam inquietos, sob o cenho franzido, em todas as direções, espreitando os que o acossavam. Abriu caminho por entre a multidão com firmeza e perseverança. Surpreendi-me ao ver que, tendo completado o circuito da praça, ele voltava e retomava o itinerário que mal acabara de completar. Mais atônito ainda fiquei ao vê-lo repetir o mesmo circuito diversas vezes; quase que deu comigo, certa vez em que se voltou com um movimento brusco.

Nesse exercício gastou mais uma hora, ao fim da qual encontramos menos interrupções, por parte dos transeuntes, que da primeira vez. A chuva continuava a cair, intensa o ar tornou-se frio; os passantes se retiravam para suas casas. Com um gesto de impaciência, o estranho ingressou num beco relativamente deserto. Caminhou apressadamente, durante cerca de um quarto de milha, com uma disposição que eu jamais sonhara ver em pessoa tão idosa; grande foi a minha dificuldade em acompanhá-lo. Alguns minutos de caminhada levaram-nos a uma grande e ruidosa feira, cujas localidades pareciam bastante familiares ao estranho, e ali ele retomou suas maneiras primitivas, enquanto abria caminho de cá para lá, sem propósito definido, por entre a horda de compradores e vendedores.

Durante a hora e meia, aproximadamente, que passamos nesse local, foi-me mister muita cautela para seguir-lhe a pista sem atrair sua atenção. Felizmente, eu calçava galochas e podia movimentar-me em absoluto silêncio. Em nenhum momento ele percebeu que eu o vigiava. Entrou em loja após loja; não perguntava o preço de artigo algum nem dizia qualquer palavra, mas limitava-se a olhar todos os objetos com um olhar desolado, despido de qualquer expressão. Eu estava profundamente intrigado com o seu modo de agir e firmemente decidido a não me separar dele antes de estar satisfeita, até certo ponto, minha curiosidade a seu respeito.

Um relógio bateu onze sonoras badaladas, e a feira começou a despovoar-se rapidamente. Um lojista, ao fechar um postigo, deu um esbarrão no velho, e, no mesmo instante, vi um estremecimento percorrer-lhe o corpo. Ele saiu apressadamente para a rua e olhou ansioso à sua volta, por um momento; encaminhou-se depois, com incrível rapidez, através de vielas, umas cheias de gente, outras despovoadas, para a grande avenida da qual partira, a avenida onde ficava situado o Hotel D... Esta, no entanto, já não apresentava o mesmo aspecto. Estava ainda brilhantemente iluminada, mas a chuva caia pesadamente e havia poucas pessoas a vista. O estranho empalideceu. Deu alguns passos caprichosos pela antes populosa avenida e depois, suspirando profundamente, tomou a direção do rio. Após ter atravessado uma grande variedade de ruas tortuosas, chegou por fim diante de um dos teatros principais da cidade. Este estava prestes a fechar, e os espectadores saíam pelas portas escancaradas. Vi o velho arfar, como se por falta de ar, e mergulhar na multidão, mas julguei perceber que a intensa agonia do seu semblante tinha, de certo modo, amainado. A cabeça caiu-lhe sobre o peito novamente, como quando eu o vira pela primeira vez. Observei que seguia agora o caminho tomado pela maioria dos espectadores, mas, de modo geral, não conseguia compreender a inconstancia de suas ações.

Enquanto caminhava, o número de transeuntes ia rareando, e sua antiga inquietude e vacilação voltaram a aparecer. Durante algum tempo, acompanhou de perto um grupo de dez ou doze valentões; mas o grupo foi diminuindo aos poucos, até que ficaram apenas três dos componentes, numa ruazinha estreita, melancólica, pouco freqüentada. O estranho se deteve e, por um momento, pareceu imerso em reflexões; depois, com evidentes sinais de agitação, seguiu em rápidas passadas um itinerário que nos levou aos limites da cidade, para regiões muito diversas daquelas que havíamos até então atravessado. Era o mais esquálido bairro de Londres; nele tudo exibia a marca da mais deplorável das pobrezas e do mais desesperado dos crimes. A débil luz das lâmpadas ocasionais, altos e antigos prédios, construídos de madeiras já roídas de vermes, apareciam cambaleantes e arruinados, dispostos em tantas e tão caprichosas direções, que mal se percebia um arremedo de passagem por entre eles. As pedras do pavimento jaziam espalhadas, arrancadas de seu leito original, onde agora viçava a grama, exuberante. Um odor horrível se desprendia dos esgotos arruinados. A desolação pervagava a atmosfera. No entanto, conforme avançávamos, ouvimos sons de vida humana e, por fim deparamos com grandes bandos de classes mais desprezadas da população londrina vadiando de cá para lá. O ânimo do velho se acendeu de novo, como uma lâmpada bruxuleante. Uma vez mais, caminhou com passo elástico. Subitamente ao dobrarmos uma esquina, um clarão de luz feriu-nos os olhos e detivemo-nos diante de um dos enormes templos urbanos de Intemperança: um dos palácios do demônio Álcool.

O amanhecer estava próximo, mas, não obstante, uma turba de bêbados desgraçados atravancava a porta de entrada da taverna. Com um pequeno grito de alegria, o velho forçou a passagem e, uma vez dentro do salão, retomou suas maneiras habituais, vagueando, sem objetivo aparente, por entre a turba. Não fazia, porém, muito tempo que se ocupava nesse exercício quando uma agitação dos presentes em direção à porta deu a entender que o proprietário da taverna resolvera fechá-la por aquela noite. Era algo mais intenso que desespero o sentimento que pude ler no semblante daquela criatura singular a quem eu estivera a vigiar tão pertinazmente. Todavia, ele não hesitou por muito tempo; com doida energia, retomou o caminho de volta para o coração da metrópole. Caminhava com passadas longas e rápidas, enquanto eu o seguia, cheio de espanto, mas decidido a não abandonar um escrutínio pelo qual sentia, agora, o mais intenso dos interesses. Enquanto caminhávamos, o sol nasceu, e quando alcançamos novamente a mais populosa feira da cidade, a rua do Hotel D..., esta apresentava uma aparência de alvoroço e atividade muito pouco inferior àqueles que eu presenciara na véspera. E ali, entre a confusão que crescia a cada momento, persisti na perseguição ao estranho. Mas este, como de costume, limitava-se a caminhar de cá para lá; durante o dia todo, não abandonou o turbilhão da avenida. Quando se aproximaram as trevas da segunda noite, aborreci-me mortalmente e, detendo-me bem em frente do velho, olhei-lhe fixamente o rosto. Ele não deu conta de mim, mas continuou a andar, enquanto eu, desistindo da perseguição, fiquei absorvido vendo-o afastar-se.

"Este velho", disse comigo, por fim, "é o tipo e o gênio do crime profundo. Recusa-se a estar só. É o homem da multidão. Será escusado segui-lo: nada mais saberei a seu respeito ou a respeito dos seus atos. O mais cruel coração do mundo é livro mais grosso que o Hortulus animae, e talvez seja uma das mercês de Deus que 'es lässt sich nich lesn' ".


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