A Escolha de Sofia
O fascismo, se corretamente entendido, não é apenas um programa político, mas um processo metódico, sistemático e planejado de eliminação da individualidade, para que, por fusão, se criem entes supra-humanos, nos quais toda a vida passa a estar contida e dissolvida. É uma elevação como rebaixamento; arte como ufania e exaltação; a masculinidade como éthos da insensibilidade e do guerreiro bárbaro, o feminino como emulação do poder mítico reprodutivo da mãe terra; a devastação como realização de um ideal idílico da ordem perfeita, do mundo para sempre redimido.
http://www.calvin.edu/academic/cas/gpa/posters/mutterkind.jpg
This poster probably dates to the mid-1930's. It promotes the Nazi charitable organization (the NSV). The text: "Support the assistance program for mothers and children."
No fascismo todo homem é uma redução ao personagem e ao modelo; elemento serial de uma potência escatológica – a raça escolhida e o pária; a perfeição encarnada como mímese do primeiro Adão e a vida do pária como degeneração e corrupção, ameaça epidêmica, virulência. O fascismo é a criação do autômato como método e meta: o super-humano como forma corrompida do homem.
Triumph des Willens
(Leni Riefenstahl, 1934)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Leni_Riefenstahl
O nazista e suas vítimas são pólos de uma mesmíssima equação. No primeiro a supressão da individualidade é diretamente a fusão na entidade mítica da raça; a covardia e a ignomínia como signos exteriores da coragem e do poder; toda a vilania da renúncia em enfrentar o mundo, apresentada como programa para sua redenção mítica. Esse desprezo de si, que o nazista é, opera desde seu inconsciente, no entanto, como uma potência destruidora desmesurada, que nenhuma ação isolada pode sanar, conter ou resolver. O nazista, no terror que exterioriza, é a atividade incessante de um mecanismo de um artefato concebido para garantir a sobrevivência psíquica e a preservação egóica do homem moderno despersonalizado, ainda que sob a condição estrita da eliminação recorrente de um determinado outro o pária, pólo negativo na economia psíquica dessa perversão, que só se realiza através da supressão de sua individualidade e humanidade, meta precípua do campo de concentração e extermínio. Nesse sentido, o nazista é um processo contínuo de devastação, de sujeição e humilhação; de confirmação de um poder frágil, cuja condição de existência é exteriorizar-se através do morticínio como obra recorrente e compulsiva.
Triumph des Willens
(Leni Riefenstahl, 1934)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Leni_Riefenstahl
A Escolha de Sofia
(Alan J. Pakula, 1982)
http://www.adorocinema.com/personalidades/diretores/alan-j-pakula/corpo.asp
O poder, portanto, se exerce sobre suas vítimas como algo errático, aleatório e inexplicável; como um golpe desferido ao acaso, que deve superar toda possibilidade de compreensão: por este método se correspondem reciprocamente a fúria assassina, como requerimento sádico, e a necessidade de suprimir na vítima, todo e qualquer resquício de individuação; toda demanda de diferenciação, diante da fatalidade e inexorabilidade de sua própria condição. O campo de concentração, nesta medida, é um requerimento lógico inerente à prática fascista. A vítima, uma vez subtraída ao mundo - tornada invisível para todos os efeitos da normalidade; destituída de todos os traços exteriores de sua individualidade; sujeitada a um único padrão, ou seja, o corpo esquálido, o uniforme, o destino como uma promessa de extermínio – passa a viver em uma realidade paralela, um mundo onírico, como realização sistemática do pesadelo.
Buchenwald em Abril de 1945, fotografia tirada após a libertação do campo pelas tropas americanas
http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Buchenwald_Slave_Laborers_Liberation.jpg
Sua vida, portanto, é reduzida ao degredo para uma zona de não existência e converte-se em uma antecipação da morte, como o fluir metódico e imutável do tempo de existência, já divorciado de toda esperança; em um aniquilamento da vontade como meta e propósito; na vaporização da individualidade, como cisão e fratura entre ser e alma. O campo de concentração produz, através do mais metódico e deliberado processo, o homem como zumbi; a existência como forma espectral e fantasmagórica do ser: um estado evanescente. Nada, portanto, em seus métodos é aleatório, ainda que para ser eficaz toda potência do poder tenha que se apresentar, a cada indivíduo, com uma força cega da natureza. É parte de sua técnica, então, antecipar e realizar de modo concentrado, massivo e aleatório todo o infortúnio que a existência nos serve ao poucos: a separação dos entes queridos; a morte daqueles que se ama; a doença, a fraqueza e a miséria.
Mais que o arame farpado, é a irrealidade dos detentos que ele confina, que provoca uma crueldade tão incrível que termina levando à aceitação do extermínio como solução perfeitamente normal. Tudo o que se faz nos campos tem o seu paralelo no mundo das fantasias malignas e perversas. O que é difícil entender, porém, é que esses crimes ocorriam num mundo fantasma materializado num sistema em que, afinal, existiam todos os dados sensoriais da realidade, faltando-lhe apenas aquela estrutura de conseqüências e responsabilidades sem a qual a realidade não passa de um conjunto de dados incompreensíveis. Como resultado, passa a existir um lugar onde os homens podem ser torturados e massacrados sem que nem os atormentadores nem os atormentados, e muito menos o observador de fora, saibam que o que está acontecendo é algo mais do que um jogo cruel ou um sonho absurdo. (ARENDT, 1990, p. 496)
Corpos de prisioneiros dos nazistas encontrados pola tropas norte-americanas em Weimar, Alemanha
http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Buchenwald_corpse_trailer_ww2-181.jpg
No campo de concentração, todos os elementos que constituem uma individualidade, todos seus laços afetivos, são voltados contra aquele mesmo indivíduo como elemento de tortura e como vaticínio de morte, de tal maneira que a vida se transforme em evasão de si; em suicídio como abandono do corpo; uma retirada à moda russa, ou seja, em que todo território é igualmente uma queimada e uma devastação do campo. Não é um acidente, portanto, que às vésperas do fim da guerra, os nazistas, completamente enfraquecidos do ponto de vista militar, conduzissem a pé multidões de prisioneiros, completamente apassivados. Eram corpos esvaziados de alma que marchavam; era a vida como redução mecânica que caminhava. No poder aterrorizante desta catástrofe o autômato em toda sua potência alegórica: o nazista e sua vítima, como o humano esvaziado; o sonho da coisa em sua realização infernal.
A Escolha de Sofia traz em si toda esta problemática, ou seja, a vida como um coração partido; a memória como uma acusação e depósito do desespero; a realidade como permanência e prolongamento do suplício. Neste estado, o amor é diretamente um ideal persecutório, um flerte com a loucura e o suicídio o ato de partida de um mundo tornado impossível. Para Sofia, como para cada um dos homens e mulheres que foram vitimados pelo nazismo, a individualidade foi a adaga como que se martirizou o humano: na demanda de escolhas impossíveis, o ser só poderia se resolver em sua dissolução.
A Escolha de Sofia
http://br.youtube.com/watch?v=82Oc5ny3hjg
(Alan J. Pakula, 1982)
http://es.movies.yahoo.com/artists/p/alanj-pakula/index-69766.html
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Campo de concentração (temas correlatos):
Camboja vai julgar líderes do Khmer Vermelho
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2001/010807_khmer.shtml
Líderes do Khmer vão a julgamento no Camboja
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2411200711.htm



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