Grande Hotel
(A economia alemã pós Primeira Guerra)
Não bastasse seu caráter estupidamente violento, da Primeira Guerra decorreu ainda um sistema de reparações, que só faria recrudescer o ressentimento nacional alemão, dado o evidente absurdo de seus termos. John Maynard Keynes, que participou da comitiva britânica que negociou os termos da paz, e um dos mais brilhantes economistas do século XX, em sua obra Conseqüências Econômicas da Paz, faria uma crítica mordaz e violenta das obrigações que foram impostas àquele país. A rigor, a derrota de suas teses reafirmou os termos dos interesses da Inglaterra e da França (especialmente a segunda), que não poderiam ser outros que não enfraquecer e manter impotente a Alemanha, que insistia em disputar até a exaustão espaços econômicos que viabilizassem sua expansão (econômica) nacional. A humilhação inerente às condições em que a paz se firmou deu aos nazistas, farto provimento em seu caminho rumo à tomada do poder.
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“A estenografa”
(Edmund Goulding, 1932)
http://www.imdb.com/name/nm0332539/
As desventuras econômicas da Alemanha não se restringiriam, contudo, às conseqüências imediatas da Guerra. Em princípios da década de 1920 o país incorre em uma hiperinflação severa, que viria mesmo a ser referência clássica, em grande parte da literatura sobre o assunto. Além do estresse difuso por entre a população, intrinsecamente vinculado a fenômenos desta natureza, a hiperinflação teve como conseqüência necessária a imposição de imensas perdas patrimoniais, especialmente aos contingentes populacionais que auferiam rendimentos oriundos de ativos financeiros ou, ainda, daqueles que recebessem quaisquer valores na forma de contraprestações pecuniárias como, por exemplo, seguros, pensões, aluguéis, etc. Na ausência de sistemas de indexação de valores, tais perdas não foram relativas, mas quase absolutas e na imensa maioria dos casos, irreparáveis.
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http://br.youtube.com/watch?v=4m0YCHfjdrY
(Edmund Goulding, 1932)
http://www.imdb.com/name/nm0332539/
Em suma, poupanças privadas desapareceram, criando um vácuo quase completo de capital ativo para as empresas (...). Quando a grande inflação acabou, em 1922-3, devido à decisão dos governos de parar de imprimir papel-moeda em quantidade ilimitada e mudar a moeda, as pessoas na Alemanha que dependiam de rendas fixas e poupança foram aniquiladas, embora uma minúscula fração do dinheiro tivesse sido salva na Polônia, Hungria e Áustria. Contudo, pode-se imaginar o efeito traumático da experiência nas classes médias e média baixa locais. Isso deixou a Europa Central pronta para o fascismo. (HOBSBAWN, 2003, p. 94-95)
A saga econômica alemã não findou, no entanto, com a hiperinflação. A rigor, a destruição de capitais e poupanças em escala maciça, a que ela deu causa, levou o país a contrair vultosos empréstimos internacionais, especialmente dos Estados Unidos - os grandes beneficiados pela dinâmica econômica que a Guerra havia criado. Com fundamento em tais financiamentos (20 a 30 trilhões de marcos), a Alemanha logrou atingir um período de certo crescimento, ainda que o desemprego se mantivesse relativamente elevado, se comparado aos padrões anteriores a 1914 (HOBSBAWN, 2003, p. 95). A grande Depressão de 1929 viria, então, insurgir-se como uma derradeira catástrofe, na justa medida em que, tendo levado os Estados Unidos a knock out, fez refluir da Alemanha os capitais anteriormente emprestados a curto prazo. Repentinamente despojado de financiamentos imprescindíveis, o país não pode resistir, e adentrou em um ciclo depressivo de magnitude assustadora, o qual se consubstanciou em níveis de desemprego trágicos 1.
Para aqueles que, por definição, não tinham controle ou acesso aos meios de produção (a menos que pudessem voltar para uma família camponesa no interior), ou seja, homens e mulheres contratados por salários, a conseqüência básica da Depressão foi o desemprego em escala inimaginável e sem precedentes, e por mais tempo que qualquer um já experimentara. No pior período da Depressão (1932-3), 22% a 23% da força de trabalho britânica e belga, 24% da sueca, 27% da americana, 29% da austríaca, 31% da norueguesa, 32% da dinamarquesa, e nada menos do que 44% da alemã não tinham emprego. (HOBSBAWN, 2003, p. 97)
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“O barão, a estenografa e o contador”
(Edmund Goulding, 1932)
http://www.imdb.com/name/nm0332539/
Obviamente não se pode subestimar o poder de desorganização que situação de tal ordem apresenta, especialmente se considerarmos que a seguridade social abrangente era algo bastante limitado à época. Tanto assim que, em se acompanhando a performance política do partido Nacional-Socialista, pode-se identificar uma relação bastante significativa com as tendências cíclicas apresentadas pela economia capitalista à época.
Após a recuperação econômica de 1924, o Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialistas foi reduzido à rabeira de 2,5 a 3% do eleitorado, conseguindo pouco mais da metade do que o pequeno e civilizado Partido Democrático alemão, pouco mais que um quinto dos comunistas e muito menos de um décimo dos social-democratas nas eleições de 1928. Contudo, dois anos depois havia subido para mais de 18% do eleitorado, tornando-se o segundo partido mais forte na política alemã. Quatro anos depois, no verão de 1932, era de longe o mais forte, com mais de 37% dos votos totais, embora não mantivesse esse apoio enquanto duraram as eleições democráticas. Está claro que foi a grande depressão que transformou Hitler de um fenômeno da periferia política no senhor potencial e, finalmente real, do país. (HOBSBAWN, 2003, p. 133)
Não se deve perder de vista que os reveses a que se submeteu a Alemanha, já a partir da negociação dos termos da paz pós Primeira Guerra, trouxe consigo uma profunda crise de valores e uma movimentação frenética na posição sócio-econômica de sua população. O desamparo que decorreu da desorganização de sua economia forma, portanto, a ante-sala que preparou o advento do fascismo, ainda que não o explique.
Grande Hotel
(Edmund Goulding, 1932)
O filme se passa em Berlin, em um hotel de luxo, onde a alta burguesia desfila com seus fraques e cartolas, sua imponência e, de certo modo, se mantém indiferente para o desastre humanitário em que a Alemanha está envolvida – uma sucessão de hiperinflação e depressão econômica. No cenário luxuriante os protagonistas do filme são, contudo, tipos decadentes: um barão arruinado, que se dedica ao jogo e aos pequenos crimes; um contador em vias de morrer, que decide hospedar-se mesmo não tendo como pagar por sua estada; uma estenógrafa que sonha com a carreira de atriz, mas faz bicos como modelo fotográfico e flerta com uma prostituição de ocasião; um empresário falido, que espera redenção vinda do outro lado do canal da Mancha, por meio de uma fusão empresarial; um médico sem atividade e de quem ninguém quer verdadeiramente saber; uma dançarina de sucesso declinante, que se desespera mediante o fracasso de sua temporada.
Que estes tipos bizarros sejam os personagens da história é algo de muito curioso. Em primeiro lugar há uma remissão à desorganização econômico-social pela qual passa a Alemanha, após a primeira guerra mundial. Existe igualmente, contudo, uma antecipação: exatamente estes seres desajustados, que não encontram um lugar preciso na ordem social, conforme ela emergiu dos acordos de paz de Paris, formarão grande parte das linhas de frente do nazismo. Esta vanguarda, este exército de Brancaleone é, não entanto, uma presença que se movimenta a partir de um elemento que não se dá a conhecer, ainda que esteja insinuado no ambiente. Não tem nome, não toma jamais a dianteira, mas, em certa medida, tudo se move em função dele. A história do nazismo alemão é, em parte ao menos, o produto deste movimento, em que uma linha de frente pequeno-burguesa e lumpen-proletária toma a dianteira, mas apenas para se movimentar segundo a lógica do grande capital – o personagem pressuposto no filme, o protagonista invisível.
É de se notar, por fim, que a inovação formal que o filme traz - consistir a rigor de um conjunto de painéis, pequenos dramas, que se somam incidentalmente para narrar a estória total - retrata, de certo modo, o esfacelamento que vivia a Alemanha às vésperas da chegada de Hitler ao poder. São dramas individuais, aparentemente desconexos, que se resolvem na urdidura final, que leva ao abraço no mito.
(...) nuca houve experiências mais radicalmente desmoralizadoras que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela guerra de material e experiência ética pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos se encontrou ao ar livre numa paisagem em que nada permanecera inalterado, exceto as nuvens, e debaixo delas, num campo de forças de torrentes e explosões, o frágil e minúsculo corpo humano. (BENJAMIN, 1985, p. 198)
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1 Na situação concreta do desemprego ou através de sua (mera possibilidade) se pode ver claramente a questão da indeterminação objetiva do indivíduo e, portanto, sua submissão a forças heterônomas. Não por acaso, um dos antecedentes econômicos mais importantes do nazismo foi o desemprego cavalar:
Em meio à prosperidade, até mesmo em período de pleno emprego e crise de oferta de força de trabalho, no fundo provavelmente a maioria das pessoas se sente como um desempregado potencial, um destinatário futuro da caridade, e desta forma como sendo um objeto, e não um sujeito da sociedade: este é o motivo legítimo e racional de seu mal-estar. É evidente que, no momento oportuno, isto pode ser represado regressivamente e deturpado para renovar a desgraça. (ADORNO, 1995, p. 41)



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