Dr. Mabuse
("O homem natural, em estado bruto”)
Consideradas as condições societárias em que se edificam as subjetividades, entende-se como a barbárie em que estamos imersos só se ofereça à consciência como desgraça, incidente, surgindo-nos, então, como se fora um edifício erigido por si mesmo, e não como produto de nossa atividade ou assentimento. Uma tempestade sobre o deserto, um cálido e modorrento dia de verão e o absurdo irracionalista da barbárie se apresentam, então, como exterioridades de mesma natureza, obras assemelhadas, na qualidade de serem erigidas por potências distintas da atividade do sujeito político que somos. Uma vez naturalizado o social, damos passagem fluída e fácil às pequenas vilanias, ao calar-se por conveniência, sem os quais não se pode efetivamente construir nenhuma grande atrocidade.
Dr. Mabuse, Der Spieler
(Fritz Lang, 1922)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fritz_lang
A indiferença à dor do outro, ao seu destino e infortúnio, a insensibilidade como princípio, antes de serem um programa de supressão da civilização, foram elementos da realidade em suas afirmações mais diletas. Que todo trabalho concreto perca seus traços humanos distintivos; que todas as relações se convertam necessariamente em interesse privado e em requerimentos da auto-conservação; que toda independência individual seja a fórmula mecânica segundo a qual se enuncia a adesão irrestrita aos círculos de conveniência, os quais estão desprovidos de qualquer valor autêntico e de toda espontaneidade: tudo isso já é a capitulação ao poder como ausência de critério ou legitimidade. Força como força, coerção como elemento natural irresistível; potência em sua qualidade meramente energética e, portanto, aleatória e irracional; o prenúncio do “homem natural em estado bruto” de Spengler.
A incapacidade para a identificação foi sem dúvida a condição psicológica mais importante para tornar possível algo como Auschwitz em meio a pessoas mais ou menos civilizadas e inofensivas. O que se chama de “participação oportunista” era antes de mais nada interesse prático: perceber antes de tudo sua própria vantagem e não dar com a língua nos dentes para não se prejudicar. Esta é uma lei geral do existente. O silêncio sob o terror era apenas conseqüência disto. A frieza de mônoda social, do concorrente isolado, constituía, enquanto indiferença frente ao destino do outro, o pressuposto para que apenas alguns raros se mobilizassem. Os algozes sabem disto; e repetidamente precisam se assegurar disto. (ADORNO, 1995, p. 134)
O Eclipse
(Michelangelo Antonioni, 1962)
http://www.italica.rai.it/cinema/autori/antonioni.htm
Para este estado de total incapacidade de identificar-se, de reconhecer-se no outro, em muito contribui a naturalização de um estado competitivo inerente à ordem, que conduz ao raciocínio simples segundo o qual “fiz o que qualquer um faria”, ou, ainda, “não poderia fazê-lo de outro modo”. Desta maneira, quando me coloco no lugar do outro, encontro-o fazendo aquilo mesmo que fiz, de tal modo que a ação se justifica e racionaliza por completo. A naturalização da competitividade, do vença o melhor, a necessidade de ser indiferente às dores do perdedor simplesmente nos eximem de quaisquer considerações complementares, ou indagações éticas.
Não há responsabilidade, pois esta é a natureza mesma do sistema. Que o mundo seja, portanto, exatamente assim, que seja imutável nesta sua natureza perversa, converte-se em uma autorização tácita para ser igualmente perverso, e cada qual se percebe neste jogo como survivor - um trapaceiro, mas apenas por força das próprias regras do jogo. Seu aspecto lúdico, por conseqüência, é a autorização tácita para transgredir qualquer limite, para não frear qualquer impulso, porque a única meta é a auto-conservação e, de certo modo, todos os demais jogadores são não mais do que inimigos.
A solidariedade implicada, portanto, é alucinada: cada qual só garante a pertinência ao todo, na medida em que for portador e executor de todas as suas determinações; em que estiver disposto a levar a sujeição de si tão longe quanto requerido. O lema do guerreiro passa ser, portanto, a suprema virilidade como suprema passividade: uma fórmula corajosa de covardia.
Wall Street
(Oliver Stone, 1987)
http://www.cineplayers.com/perfil.php?id=11586
O herói moderno, contemporâneo, conforme o erige a ordem, não é aquele que, no passado, a ela se opunha e que, portanto, instituía sua individualidade como negatividade. Nosso herói, ao contrário, adere firmemente a um padrão pré-existente e vai nele tão longe quanto ninguém mais poderia ir; torna-se uma renúncia obstinada e total de si, para ser a própria ordem personificada: o cost killer; o praticante de toda a dureza da ortodoxia fiscal, o paladino do orçamento equilibrado e da super-imposição das exigências da racionalidade econômica - todos eles são aparentados de Eichmann, na apropriação do real como naturalização incondicional dos requerimentos da ordem.
As intuições de Benjamin sobre a tecnocracia fascista foram confirmadas pela pesquisa histórica recente. Ver, por exemplo, os trabalhos de: J. Herf, Reactionary Modernism; Technology, Culture and Politics in Weimar and the Third Rich (Cambridge, Polity Press, University Press, 1986); Z. Bauman, Modernity of Holocaust (Cambridge, Polity Press, University Press, 1989); e E. Traverso, L’histoire déchirée: essai sur Awschwitz et les intelectuelles (Paris, Cerf, 1997). J. Herf caracteriza como “modernismo reacionário” a ideologia do III Reich e analisa nesse quadro os escritos dos ideólogos fascistas conhecidos e os documentos de associações de engenheiros pró-nazistas. Quanto ao sociólogo Zygmunt Baumann, analisa o genocídio dos judeus e dos ciganos como um produto típico da cultura racional burocrática e como um dos resultados possíveis do processo civilizatório enquanto racionalização e centralização da violência e enquanto produção social da indiferença moral. “Como qualquer outra ação conduzida de maneira moderna - racional, planejada, cientificamente informada, gerenciada de maneira eficaz e coordenada - o Holocausto deixou para trás ... todos os seus pretensos equivalentes pré-modernos, revelando-os como primitivos, dissipadores e ineficazes comparativamente”. Enfim, segundo Enzo Traverso, nos campos de extermínio nazistas encontramos uma combinação de diferentes instituições típicas da modernidade: ao mesmo tempo, o presídio descrito por Foucault, a fábrica capitalista de que falava Marx, a “organização científica do trabalho” de Taylor, a administração racional/burocrática segundo Weber. (LÖWY, 2005, p. 103-104)
Dr. Mabuse, Der Spieler
(Fritz Lang, 1922)



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