(Joseph Ruben, 1991)
Pesquisas feitas ano após ano pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), divulgadas por meio de relatórios sobre o Desenvolvimento Humano, fornecem-nos dados assustadores. Chega à casa dos 1,5 bilhão, por exemplo, o número de pessoas que estão economicamente piores do que há dez anos, ao passo que cerca de trezentos multimilionários possuem renda superior à acumulada por 2,3 bilhões de habitantes da Terra. Cerca de 17 milhões de pessoas morrem a cada ano de doenças como malária, diarréia ou tuberculose. Por volta de 800 milhões não comem o suficiente e aproximadamente 500 milhões sofrem de subnutrição crônica. Quase um terço da população mundial (1,3 bilhão de pessoas) vive na pobreza. Dos US$ 23 trilhões que constituem a soma dos Produtos Nacionais Brutos (PNBs) no mundo, cerca de 78% estão com as nações industrializadas, um seleto grupo de quinze ou vinte países. As nações em desenvolvimento, onde vivem 80% da população mundial, ficam com apenas US$ 5 trilhões do bolo. (Nogueira, 2001, p. 71)
Como veremos, em um intervalo de cinqüenta anos, a ordem que hoje construímos e justificamos racionalmente, economicamente? Qual seria nossa reação se, acordados de uma espécie de sono hipnótico, nos deparássemos face a face com os produtos desta mesma ordem, cujos fundamentos desposamos e sobre os quais edificamos nossa tranqüilidade de cidadãos “comuns? Porque não desconfiamos da normalidade como uma variante do patológico? Afinal de contas, o conceito estatístico de normal é relativo à freqüência e à ocorrência de uma determinada variável, não um juízo intrínseco de valor. Porque não nos opomos à realidade, mas ao contrário nos deixamos invadir por ela, como uma potência a que não se pode opor resistência?
Hoje em dia o nazismo sobrevive menos por alguns ainda acreditarem em suas doutrinas – e é discutível inclusive a própria amplitude em que tal crença ocorreu no passado – mas principalmente em determinadas conformações formais do pensamento. Entre essas enumeram-se a disposição para adaptar-se à ordem vigente, uma divisão com valorização distinta entre massa e lideranças, deficiência de relações diretas e espontâneas com pessoas, coisas e idéias e convencionalismo impositivo, crença a qualquer preço no que existe. Conforme seu conteúdo, síndromes e estruturas de pensamento como essas são apolíticas, mas sua sobrevivência tem implicações políticas. Este talvez seja o aspecto mais sério do que estou procurando transmitir. (ADORNO, 1995, p. 62-3)



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