Diamantes de Sangue
(A eterna infância)
A dissolução do real, do compromisso com sua apropriação, a aceitação infantil de um mundo onde não existiriam responsabilidades efetivas - mas apenas a participação em um jogo, em uma cena; um mundo de videoclip - são elementos fundamentais para a edificação de uma sociabilidade que desconhece e não reconhece o sofrimento do outro, de vez ele mesmo sequer é percebido como real, mas antes, apenas como possibilidade ou ameaça; como funcional ou não, relativamente a um projeto individual ou coletivo.
Diamantes de sangue
(Edward Zwick, 2006)
http://movies.yahoo.com/movie/contributor/1800012192/bio
Na ausência de um sistema positivo de responsabilidades, ou na falha de sua introjeção, a realidade assume rigorosamente uma atmosfera de universo paralelo, onde passa reinar o valor como inversão; o não matarás, como a licença antecipada de fazê-lo, a atrocidade como jogo lúdico - e este, para ser perfeito, deve encontrar a vítima como produto de uma extração aleatória. Instaura-se, portanto, como valor não apenas o desprezo pelo outro, mas sua redução à mais insignificante animalidade - sobre cujo corpo se mesclam ao mesmo tempo o impulso sádico e a repulsa; o desejo de sujeitar e o asco pelo contato direto, conflito que se resolve no assassínio puro e simples. A história dos meninos guerreiros africanos, capturados para fins da guerrilha em Serra Leoa, por exemplo, mostra como a humanidade pode ser subvertida e degradada, tornada violência pura, força natural - ressentimento que aniquila, reduz e mutila, jogo -, desde que se prepare adequadamente o terreno e que se exclua da vida qualquer senso próprio de responsabilidade.
Segundo o Estado de São Paulo, 08/04/2007, Cultura D7, matéria assinada por Caio Blinder, “300 mil crianças são forçadas a combater em 50 conflitos no mundo, em sua maioria na África.” Na resenha sobre o livro A long way gone: Memoirs of a Boy Sodier (Sarah Crichton Book; Farrar, Straus &Giroux) cuja autoria é de Ishmael Beah pode-se entender algumas das dimensões deste problema: a) “(...) capturado por tropas governamentais e recrutado para combater e se vingar dos rebeldes. Treinado e alimentado com drogas como ‘braown brown’, uma mistura de cocaína e pólvora, Ishmael se tornou um assassino contumaz.”; b) “Ele e outros recrutas eram obrigados a assistir infindáveis vezes a filmes violentos como Rambo”; c) “(...) proibidos de ficarem sozinhos. Refletir sobre o que estavam fazendo, nem pensar.”; d) “(...) após ele ter sido baleado no pé em uma batalha, seu comandante reuniu um punhado de inimigos capturados e disse ao garoto soldado que eles eram os responsáveis por seu ferimento. ‘Eu não estou seguro se um dos cativos era o atirador’, escreve Ishmael. ‘Mas qualquer um deles poderia ter atirado. Então, todos eles foram alinhados, seis deles, com suas mãos amarradas. Eu atirei nos seus pés e assisti ao sofrimento deles um dia inteiro antes de finalmente atirar na cabeça para que eles parassem de chorar’”; e) “Ishmael ganhou um concurso sobre quem cortava com mais rapidez a garganta de um prisioneiro”.
Nesta alucinação da realidade é fundamental apartar, desconectar, reduzir e, em certo grau, eliminar a subjetividade. Não é um acidente, portanto, que a população mais jovem tenha maiores vantagens competitivas neste mercado do hediondo, e não foi por acaso que os nazistas cultuaram a juventude como valor – o homem como pura potência natural é tanto mais promissor quanto menos experimentar a vida em sociedade.
Diamantes de sangue
(Edward Zwick, 2006)
http://www.filmreference.com/film/82/Edward-Zwick.html
Se a importância das formações paramilitares para os movimentos totalitários não reside no seu duvidoso valor militar, também, não reside inteiramente na sua falsa imitação do Exército regular. Como formações de elite, são mais nitidamente separadas do mundo externo do que qualquer outro grupo. Os nazistas cedo compreenderam a íntima relação entre a militância total e a separação total da normalidade; as tropas de assalto nunca eram enviadas a serviço para suas comunidades de origem e os oficiais ativos da SA, no estágio anterior ao poder, e os da SS, já sob o regime nazista, eram tão móveis e tão frequentemente substituídos que simplesmente não podiam habituar-se ou deitar raízes em nenhuma parte do mundo comum. Eram organizados segundo o modelo das gangues de criminosos e usados para o assassinato organizado. Esses assassinatos eram perpetrados publicamente e oficialmente confessados pela alta hierarquia nazista, de modo que essa franca cumplicidade quase impossibilitava aos membros deixarem o movimento, mesmo sob o governo não-totalitário e mesmo que não fossem ameaçados, como realmente o eram, por seus antigos camaradas. A esse respeito, a função das formações de elite é exatamente oposta àquela das organizações de vanguarda: enquanto estas últimas emprestam ao movimento um ar de respeitabilidade e inspiram confiança, as primeiras, disseminando a cumplicidade, fazem com que cada membro do partido sinta que abandonou para sempre o mundo normal onde o assassinato é colocado fora da lei, e que será responsabilizado por todos os crimes da elite. Consegue-se isso ainda no estágio anterior do poder, quando a liderança sistematicamente assume responsabilidade por todos os crimes e não deixa dúvida de que foram cometidos para o bem final do movimento. (ARENDT, 1990, p. 422)
Triumph des Willens
(Leni Riefenstahl, 1934)
http://womenshistory.about.com/library/bio/blbio_riefenstahl.htm
Compreende-se verdadeiramente a natureza do problema; atingimos os limites próprios a esta questão? Vamos nela até seus elementos mais distantes e profundos, efetivamente corriqueiros? Pois bem, o que ocorre quando os pais, na ânsia de evitar a frustração de seus pequenos, no desejo irrefletido e projetado de não vê-los sofrer, tomam em seu lugar as responsabilidades que, ainda que pequenas, somente a eles deveriam caber? O pai que trapaceia em nome do filho; que exige por ele isto ou aquilo; que toma suas responsabilidades, que empresta o carro e aceita para si a multa; que valores ensina? Porque o faz e procede deste modo? A vida em condomínios, fechados, lacrados, apartados deste outro imenso mundo - que em sua distância e total desconhecimento, pode se supor de antemão abjeto -, a que imaginário conduz; que percepções do humano engendra? A verdade, contudo, é que dificilmente se pode dar mais do que se possuiu: o que nos forma a todos como pedagogos de tal horror?
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Kremlin fomenta "juventude putinista"
Com iconografia pop, hierarquia rígida e histórico de agressões, Movimento Nashi prega nacionalismo e idolatra Putin
Grupo, que tem ecos da Hitlerjugend, celebra vitória do partido do presidente nas eleições legislativas com "show" na praça Vermelha
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0412200712.htm



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