Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



Ato II Ato III Ato IV

Índice
(Ato I)

A Dama de Xangai

(Globalização e o dom de iludir)

A palavra “globalização” é altamente ideológica, acho eu, e, como tal, refere-se, na verdade, a algumas coisas bastante diferentes. Em um nível, significa simplesmente que, com o colapso da União Soviética e do sistema de Estados que ela representava, só há atualmente um único sistema, o do capital imperialista, e será melhor que todos aceitem esse fato. Os que louvam a “globalização’” não dizem isso de forma assim tão brutal, mas é o que têm em mente. Em segundo, a palavra diz respeito à mobilidade imensa do capital e dos bens; ao papel cada vez maior do comércio de importação/exportação nas contas nacionais; ao poder das comunicações e das tecnologias de transporte - que hoje possuem um alcance global sem paralelo; ao enorme poder do capital financeiro e especulativo sobre e acima do capital industrial, cruzando fronteiras nacionais; à capacidade dos bens culturais centralmente produzidos de ladear os sistemas nacionais de educação e informação, através de transmissões de longa distância e das rodovias de informação; à ascensão dos sistemas de produção e administração nos quais o processo de produção em si pode ser fragmentado e localizado em países diferentes e/ou rapidamente transferido para um e para outro; assim por diante. Em terceiro, o termo globalização é também um eufemismo para o fato de que um punhado de arranjos institucionais imperialistas - o Banco Mundial, o FMI, o GATT etc. - está agora determinando a formação de políticas nacionais no denominado Terceiro Mundo. Em quarto, a palavra cobre a penetração rápida de todos os tipos de produção do capitalismo - e, portanto, do mercado mundial. O Banco Mundial calculou que, no fim do século XX, apenas 12% da produção econômica do mundo estarão fora do mercado capitalista global como tal. (AHMAD, AIJAZ, 1999, p.110-111)

A dama de Shanghai

(Orson Wells, 1948)

http://www.netsaber.com.br/biografias/ver_biografia_c_1171.html

O questionamento da noção de transcendência, ainda que de origem pregressa, acaba por se imbricar na atualidade, de maneira inexorável, com a intelecção que se faz acerca do fenômeno da globalização 1 ou, dentro de uma tradição mais à francesa, de mundialização2. Dito de outro modo, a globalização como tema é a vertente sociológica, econômica, “científica” dos mesmos impasses em que se encontra a filosofia. O desafio que a noção de globalização nos impõe, portanto, não está restrito a este ou aquele campo do conhecimento, não é um tema entre outros. A noção de globalização é o lócus em que a modernidade se debate, buscando reconstruir sua auto-imagem, fraturada pelos horrores que se revelaram à contemporaneidade.

A dama de Shanghai

(Orson Wells, 1948)

http://movies.yahoo.com/movie/contributor/1800010570/bio

O desenvolvimento do conceito e sua categorização dependem, de maneira insuperável, do modo como se compreende e valora o fenômeno de dissolução das sociedades socialistas, assim como a natureza política intrínseca do socialismo, ou seja, seu caráter totalitário ou não. Dependendo da leitura que se faça desses aspectos, os desenvolvimentos teóricos quanto à globalização e a carga valorativa associada terão caráter distintos, quando não diametralmente opostos.

Considerando tais arrazoados, não parece possível, portanto, abordar a globalização como um fato ou um fenômeno, um desenvolvimento natural do capitalismo, um desdobramento que toda história ansiou por produzir. Do mesmo modo que as políticas envolvendo a construção do Estado de bem-estar não são naturais ou antagônicas ao capitalismo - constituindo-se no produto direto e necessário de uma determinada hegemonia, de uma vontade política específica (o pacto keynesiano-fordista) -, a globalização não pode ser explicada por uma espécie de ontologia decaída e degenerada 3. O esforço que se faz, contudo, para naturalizar seu desenvolvimento mostra mais uma vez a imensa capacidade do dom de iludir e o fascínio aterrador do verossímil.

_________________________________________________________________

1 Uma tentativa de definição mais propriamente econômica pode ser encontrada abaixo:

A globalização nasceu e se caracteriza como um movimento de valorização do capital financeiro em escala planetária. Ganhou grande impulso com a telemática nos anos 80, mas os movimentos essenciais do movimento são anteriores. Surgem na seqüência da ruptura dos acordos de Bretton Woods [conferência ocorrida em 1944, nos EUA, que lançou as bases para a criação de um sistema financeiro internacional, incluindo o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional] e das decisões de flutuação do câmbio nos países industrializados avançados. A tremenda instabilidade monetária e financeira que se seguiu criou, por um lado, um ambiente favorável à especulação financeira desenfreada e, por outro, o clima psicológico e político propício a políticas de estabilização de cunho ortodoxo ou neoliberal. (LESSA, 2004, p.6)

2 A distinção entre os termos mundialização e globalização não são muito precisas. Parte da literatura parece admitir que a globalização reporta-se mais enfaticamente a elementos econômicos do fenômeno, ao passo que a mundialização estaria referida aos recortes culturais do mesmo - tratamento dado por Renato Ortiz, por exemplo.

3 Outros, como o economista Álvaro Antonio Zini Jr., são mais enfáticos e tendem a ver na globalização um projeto hegemônico dos Estados Unidos. Tese também defendida por John K. Galbraith. Em uma entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo em 7 de novembro de 1997, quando estourava uma crise do capitalismo globalizado - a asiática -, afirmou: “Globalização não é um conceito sério, nós, os americanos, inventamos esse conceito para dissimular nossa política de entrada econômica nos outros países. E para tornar respeitáveis os movimentos especulativos de capital, que sempre são causa de graves problemas. (apud Fiori et alli, 1998, p. 7). (SENE, 2003, p. 28)


0 comentários: