Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

Cinema da Cidade

Tema:

Walter Benjamin e a representação da modernidade: o valor heurístico do procedimento alegórico, conforme apresentado pela escrita filosófica de Walter Benjamin, para a compreensão e crítica da sociedade contemporânea.

Palavras-chave:

Filosofia; escola de Frankfurt; fascismo; sociedade de massas; indústria cultural, estética, estetização, obra de arte.

Objetivo geral:

Elaborar, a partir das indicações da escrita filosófica de Walter Benjamin, o conceito de fascismo como correlato necessário da modernidade, tendo por fundamento expositivo e formal a figuração alegórica.

Objetivos específicos:

Qualificar e desenvolver o conceito de modernidade em Walter Benjamin.

Desenvolver como elemento formal, expositivo, o conceito de alegoria, de modo a representar figurativamente a modernidade, apropriando-a em seus elementos infernais e saturninos.

Apresentar a especificidade histórica do fascismo, introduzindo-o como fenômeno pertinente exclusivamente à moderna sociedade de massas.

Indicar elementos e instâncias da sociedade contemporânea que são logicamente associáveis ao fascismo, tendo sua dinâmica por fundamento.

Desenvolver conceitos e categorias de base do pensamento de Walter Benjamin, a saber: método, verdade, tempo messiânico, tempo mecânico, revolução, citação, alegoria, ruína, origem, colecionador, alegorista, flâneur, trapeiro, crítica.

Problema:

Como representar a modernidade em sua ambivalência constitutiva e em seus aspectos denegados e sombrios? Quais soluções formais permitem capturá-la nesta tensão imanente que a constitui? Qual deve ser a natureza da escrita filosófica ao deparar-se com a modernidade? Qual é o papel da estética na superação das determinações da ordem? Qual é o peso do procedimento alegórico na representação do real?


Justificativas:

A sociedade produtora de mercadorias é, ao mesmo tempo, produtora da experiência alienada e da heteronomia. Uma primeira dimensão desta natureza é a autonomia do produto do trabalho com relação a seu produtor e a condição fetichista em que o primeiro se reapresenta ao segundo. A forma mercantil, na universalização que implica e requer, ou seja, por força da materialização de suas tendências imanentes e constitutivas leva, portanto, à danificação da experiência como tal, que propende à unilateralidade. Significa dizer que todos os valores passam a ser, de algum modo, requerimentos para a afirmação da perpetuidade da própria sociedade produtora de mercadorias. Sob tal aspecto o desenvolvimento objetivo do sujeito implica em sua redução aos requerimentos da coisa, e para seus fins inumanos.

O ambiente objetivo do homem adota, cada vez mais brutalmente, a fisionomia da mercadoria. Ao mesmo tempo, a propaganda se propõe a ofuscar o caráter mercantil das coisas. À enganadora transfiguração do mundo das mercadorias se contrapõe sua desfiguração no alegórico. A mercadoria procura olhar-se a si mesma na face, ver a si própria no rosto. Celebra sua humanização na puta. (BENJAMIN, 2000, p. 163)


Que viva o México!

(Sergei Eisenstein, 1932)

Esta alienação, conquanto possa ser experimentada como uma reminiscência saudosa e abstrata da auto-determinação perdida - que a rigor, como experiência histórica é insubsistente, ainda que recorrente na representação - também se insurge contra o homem, na qualidade de força e potência hostil, sombra, na qual aquele mesmo homem não se reconhece, ocorrendo, portanto, uma disjunção. Esta disjunção é o ninho da alegoria e da figuração alegórica, que captura o duplo e o tenso como o que é constitutivo da coisa.

A alegoria reconhece, portanto, no efêmero que caracteriza a modernidade - na novidade - os traços e as marcas que remetem recorrentemente àquela cisão de origem e à fuga concomitante. A alegoria representa, então, a natureza íntima da modernidade como sendo uma fixação no movimento: o tempo vazio e mecânico; o eterno retorno do mesmo, na condição de contra-ponto alucinado do progresso linearmente concebido. A normalidade, portanto, já neste primeiro movimento do pensamento, é uma obsessão; luta contínua para afastar do campo especular os elementos fisionômicos que prenunciam a degradação e a decadência, assim como a redução ao puramente maquinal.

Da alienação como experiência surge, portanto, um duplo desgarrado, porém sequioso de unidade e violento no afã de fazer valer os termos de seus requerimentos. Na ambivalência do afeto, na disjunção a que se o conduz, a agressividade que o homem faz recair sobre si mesmo, como desdobramento da alienação a que se submete, não é mais percebida nas instâncias conscientes, nem se oferece como elemento propriamente social, ou sujeito à ação política e às suas formas peculiares de mediação de conflitos.

A disrupção transforma a própria sociabilidade em força cega, potência da natureza, recurso catastrófico através do qual se salva a sociedade produtora de mercadorias, que tende a se fixar nesta fórmula terrível - que prevê explicitamente, como único fundamento de estabilização da civilização a que dá causa, a recorrência da barbárie. Esta barbárie como repetição pode tomar as formas imediatas que lhe correspondem, ou seja, o fascismo e o genocídio, mas não é menos bárbara em tempos de “normalidade”, desde que se considere que o preço da calmaria é a destruição sistemática e compulsiva da natureza, assim como o depauperamento indiferente daqueles que já não pertencem a este mundo.

(...) Todos os processos das nossas sociedades caminham no sentido da desconstrução e dissociação da ambivalência do desejo. Depois de totalizada no gozo e na função simbólica, ela anula-se, mas segundo uma lógica idêntica em dois sentidos: toda a positividade do desejo se degrada na cadeia das necessidades e das satisfações, resolvendo-se em conformidade com a finalidade dirigida – toda a negatividade do desejo vai impor-se na somatização incontrolável ou no “acting out” da violência. Desta maneira se esclarece a unidade profunda de todo o processo: nenhuma outra hipótese pode explicar a multiplicidade de fenômenos discordantes (abundância, violência, euforia, depressão) que em conjunto caracterizam a “sociedade de consumo”; é verdade que se percebem como necessariamente interconexos, mas a sua lógica permanece inexplicável na perspectiva da antropologia clássica.

(...) Já vimos que a teoria do corpo é essencial para a teoria do consumo – uma vez que o corpo constitui o resumo de todos estes processos ambivalentes: investido ao mesmo tempo narcisisticamente como objeto de solicitude erotizada, e investido “somaticamente” como objeto de preocupação e de agressividade” (BAUDRILLARD, 1975, p. 316-317)

Michelangelo Antonioni; Steven Soderbergh; Kar Wai Wong

(Eros, 2004)

http://br.youtube.com/watch?v=OeelMIOBp8g

O marxismo, de algum modo, e especialmente por meio de seus teóricos mais ingênuos, sempre esperou que a superação da sociedade produtora de mercadorias fosse, de modo imediato, a própria libertação da experiência danificada: há um halo de Rousseau aqui, para não falar da grandiosa presença do otimismo iluminista. A superação desta experiência danificada, decorrente da subordinação de toda a atividade à produção de mercadorias não pode, contudo, restringir-se à superação da forma capital, ainda que a pressuponha como condição necessária.

Que o processo de trabalho se converta em processo de produção de mercadorias subverte toda a experiência de elaboração do objeto, uma vez que o submete às regras de realização do valor, da qual a produção no tempo mínimo, e reduzido ao padrão pré-estabelecido são regras fundamentais. A produção passa a ser, portanto, violência contra o objeto – se fosse possível tomar o ponto de vista do produto do trabalho, também para ele o processo de produção se apresentaria como heteronomia materializada.

Recuperar o aspecto lúdico no interior da atividade produtora é, portanto, indissociável das metas políticas de superação do capitalismo, porque, em não sendo assim, o socialismo se converte apenas em variante do industrialismo – concepção de que, fatalmente, Lênin foi vítima (apenas para dar um exemplo significativo). A meta que se propõe, portanto, ao sujeito político consiste em transformar o processo de trabalho em processo de produção artístico e, por meio dele, libertar a experiência das deformações que a sociedade capitalista lhe impôs. Nos termos de Benjamin:

Um poeta contemporâneo disse que para cada homem existe uma imagem que faz o mundo inteiro desaparecer; para quantas pessoas essa imagem não surge de uma velha caixa de brinquedos.(BENJAMIN, 1996, p. 253)

Ou mais enfaticamente em Nietzsch:

Maturidade do homem: significa reencontrar a seriedade que se tinha nas brincadeiras de infância (NIETZSCHE, 2005-b, p. 91).

Porque esta redenção da produção, na forma do processo de produção artístico é essencial? Simplesmente porque a sociedade que produz homens sem a experiência sensível do prazer criativo no interior do próprio processo de trabalho - que subsumem suas vidas aos requerimentos mutiladores da sobrevivência, ou seja, do se virar e pairar sobre as circunstâncias sempre estatísticas da sociedade mercantil, a qual transforma todo valor ético em subvariedade dos requerimentos da auto-conservação; homens cuja própria condição de existência é, portanto, a violência contra si e contra o objeto de trabalho (em sentido extenso a natureza) -, já é a formação societária que produz o fascista.

O homem da experiência danificada e deformada, que a contemporaneidade produz, é um ser que não pode apresentar uma narrativa própria de sua vida e esta é afirmação precisa de sua miséria e monstruosidade - ele é um espectro, um ser sem substância, uma fantasmagoria. Mas o perceber-se nesta miserabilidade absoluta, dissociado de qualquer experiência a que pudesse referir como efetivamente sua, o obriga a evadir-se de si mesmo, para viver fora de si, aquilo que jamais lhe pertenceu. A sua desgraça é momentaneamente sobrepujada, portanto, pelo fascínio do consumo, que outorga à ausência de sentido de sua vida, o signo que a mercadoria implica. Deste modo, o ser impotente, castrado, frustrado, redime-se no carro, a virilidade vermelha sobre quatro rodas; no super-atleta da academia, na coquete que jamais envelhece. Mas este feitiço tem a duração do próprio fascínio que a mercadoria exerce, e ele é calculado para acabar, por força de sua própria lei de constituição. Deste modo, o processo adquire o formato da circularidade e da compulsão e, por meio da infinitude do seu repetir, o real se vê suplantado pelo hiper-real; real segundo a versão de uma estética perversa: a produção de mercadorias.

Enquanto forma, este esteticismo ensandecido reproduz exatamente o mecanismo que se pode encontrar nas irrupções fascistas que se materializaram na história. Ou seja, o indivíduo que não pode se ver na nulidade que sua vida concretamente implica, redime-se de sua insignificância pela identificação com o herói da raça, de modo que o impotente que a sociedade produz como tipo médio, resgata sua mendicância no cavaleiro nórdico, o ariano puro. Mas a condição de permanecer como esta divindade escandinava é justamente a de perpetuar a desgraça do objeto por meio do qual afirma seu poder. Daí porque foi tardia a compreensão da natureza do programa nazista para os judeus: não se tratava das necessidades da guerra, não era nem mesmo um anti-semitismo no sentido convencional do termo. Seu conteúdo era proto-político, era esteticista, ou seja, a realidade insuportável da miséria do homem contemporâneo encontrou uma solução regressiva, que em lugar de superá-la - a miséria - por meio da transformação do real, salvou o real em sua rigidez mineralizada: a ordem na plenitude de seu horror; a realidade como alucinação do real.

Mas como se supera esta alucinação em que o real se converteu? Por recurso à memória. Esta assertiva se desdobra em duas vertentes:

a) a irrupção nazista não pode ser esquecida e não pode ser resignificada. Ela é uma dor que a humanidade deve viver, como condição mesmo preservar sua humanidade. Significa dizer que considerada como constelação, a modernidade tem como ponto focal - origem no sentido de Benjamin - a figuração do genocídio, como representação de sua agressividade e violência inerentes e insuperáveis, a quais se dirigem contra o homem, ainda que na condição de ser uma rebelião contra a cultura e contra a natureza.

b) é preciso resgatar a coisa de sua unilateralidade, representando-a em seu duplo, ou seja, na condição do que ainda está vivo e respirando. Faz-se necessário subtraí-la do ciclo infernal de repetições, em que ela só se apresenta como o novo, na condição de ser ainda exatamente o mesmo. Impõe-se, portanto, dar à coisa uma oportunidade expressiva, de modo que ela possa falar de seus tormentos e da tortura a que se submete, quando reduzida à unilateralidade que lhe impõe a modernidade. Mas este é exatamente o procedimento alegórico.

Todo o percurso deste trabalho, portanto, fundamenta-se neste mesmo procedimento alegórico, com o que almeja revelar os traços fisionômicos da modernidade, de tal modo que ela tenha onde espelhar-se, reconhecer-se como aquilo que é igualmente sombra e sombrio, de tal modo que, tendo se refletido, possa se imaginar para além do mito.

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