Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



Ato II Ato III Ato IV

Índice
(Ato I)

Cidadão Kane

(A democracia através do meio de comunicação)

O esmagamento da individualidade - imolada no mesmo altar em que se sacrificam as possibilidades de auto-determinação - é também a essência de uma outra grande questão contemporânea, a saber, a avaliação do grau de democracia que se pratica nas sociedades democráticas. A mera formalidade normativa, ainda que pregada como suficiente e superior a qualquer tentativa de estabelecimento de uma democracia substantiva - argumento presente especialmente em Hayek e Fukuyama -, não soluciona adequadamente a questão da liberdade, pois é possível atingir regimes altamente autoritários, no qual, a bem da verdade, o escrutínio popular serve justa e unicamente aos propósitos dos depositários do poder. O recurso aos meios de comunicação de massa como instrumento privilegiado do jogo político, não fazem senão acrescer problemas ao cenário.

Cidadão kane

(Orson Wells, 1941)

http://www.alohacriticon.com/elcriticon/article251.html

(…) A crise atual das democracias burguesas está ligada a uma crise das condições que determinam a própria apresentação dos governantes. As democracias apresentam os governantes de modo direto, em carne e osso, diante dos deputados. Seu público é o Parlamento. Com o progresso dos aparelhos, que permite a um número indefinido de ouvintes ouvir o discurso do orador no mesmo momento em que ele fala, e que torna possível difundir pouco depois sua imagem diante de um número indefinido de espectadores, o essencial torna-se a apresentação do homem político diante do próprio aparelho. Essa nova técnica esvazia os Parlamentos, assim como esvazia os teatros. O rádio e o cinema não modificam somente a função do ator profissional, mas, do mesmo modo, a função de quem quer que, como no caso do governante, se apresente diante do microfone ou da câmera. Levando-se em conta a diferença entre os objetivos buscados, com relação a isso o intérprete do filme e o homem de estado sofrem transformações paralelas. Elas acabam, em certas condições sociais determinadas, por aproximá-los do público. Donde uma nova seleção, uma seleção diante do aparelho – aqueles que saem vencedores são a estrela e o ditador. (BENJAMIN, Walter, 1969, p. 32)

À luz, portanto, daquilo que parecem ser elementos inerentes às sociedades burguesas é difícil aceitar o entusiasmo e encantamento neoliberal de um Fukuyama, que deriva do capitalismo tornado potência autônoma e inconteste, o império da ordem democrática e anti-totalitária, fazendo da liberdade uma espécie de imposição da época e da própria ordem capitalista. Além das questões propriamente filosóficas e existenciais, é preciso considerar fatores sócio-políticos específicos: quem pode, de fato, desfrutar dos benefícios da evolução material e tecnológica que se vem observando? Quem encontra na democratização ocidental a realização de uma condição humana efetivamente mais elevada, realizando potencialidades latentes?


Ronald Reagan

Commercial break for Boraxo

no set de Death Valley Days, (1964-1965)

http://www.youtube.com/watch?v=e3FkZKI3VtA

Não se pode, ainda, apenas tangenciar a questão proposta por Benjamin no fragmento acima. A política, também ela, envolve e implica mediações. Quando ela se torna, portanto, um fenômeno de massa, o que impõe a presença da mass media, a sua natureza é alterada e, em decorrência, ela pode se submeter a práticas e técnicas que foram abusivamente utilizadas pelos ideólogos fascistas e que, naturalmente, bons marqueteiros não desconhecem, mesmo que seja apenas através de seu agudo instinto profissional e desmesurado senso de remuneração.

The Killers

(Don Siegel, 1964)

http://movies.msn.com/celebs/celeb.aspx?c=135704&mp=b

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