Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

Blade Runner

A morte cansada

(Fritz Lang, 1921)

At a certain point of time, the motif of the doll acquires a sociocritical significance. For example: “You have no idea how repulsive these automatons and dolls can became, and how one breathes at last on encountering a full-blooded being in this society. Paul Lindau, Der Abend (Berlin, 1986), p. 17 Apud (Benjamin, 1999, p. 695)

A cidade de Los Angeles (ano 2019) não é apenas um lugar, ou o lócus de uma distopia, mas também uma remissão ao inconsciente, na fusão temporal que implica: convivem aqui, passado, presente e futuro, como dimensões indiferenciadas – carros no formato de espaçonaves, búfalos, elefantes, pássaros e unicórnios; prédios e painéis luminosos futuristas, mas igualmente ambulantes e restaurantes populares ao nível do passeio público; gangues com indumentária démodé. Além disso, sob a tópica do espaço, Los Angeles é um não-lugar, um amálgama de povos e costumes; uma Babel lingüística e, portanto, a própria representação da compressão espacial que a contemporaneidade inaugurou, e que vive igualmente na forma de uma contração progressiva do tempo - como experiência compulsiva de aceleração; a neurastenia como estilo de vida e a paranóia como tipo médio.

Blade Runner

(Ridley Scott, 1982)

http://www.imdb.com/name/nm0000631/

Neste cenário pergunta-se não exatamente quem são os autômatos, os andróides (os replicantes), mas o que eles são, e qual sua relação para com os humanos? Estão implicadas nesta questão tanto a experiência, quanto a memória: o andróide é incapaz de apropriar-se afetivamente do mundo, além de não ter memória, mas “implantes” - experiências de empréstimo, que sendo completamente coerentes e compondo um relato de vida, são dadas de fora, fabricadas.

Neste contexto o andróide permanece como uma criança eterna, emocionalmente instável e, portanto, potencialmente perigosa; incapaz de solucionar seus conflitos internos, pois não possui, estritamente falando, uma personalidade ou uma individualidade; experiências. Sua perfeição técnica que, considerada do ponto de vista das habilidades e da potência física, supera o homem, acaba por apresentar um problema estritamente social segundo uma representação tecnológica, ou seja, a incapacidade de interagir com o mundo, de modo a criar vínculos afetivos.

A morte cansada

(Fritz Lang, 1921)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fritz_Lang

http://www.cineplayers.com/critica.php?id=472

O autômato converte-se, dada esta condenação a existir como um verdadeiro deserto existencial, em uma revolta contra a morte, pela total incapacidade de exercitar a vida. O tempo que lhe é conferido torna-se, portanto, completamente insuficiente, porque totalmente plano e refratário à profundidade: não deixa marcas, não compõe memórias, não leva à velhice, mas a uma juventude eterna, que é a face externa de uma subjetividade perversa e incapaz de relacionamento. O tempo de sua existência, portanto, é decrépito e assim permanecerá, independentemente de sua duração que, sendo finita, apenas amplia uma angústia original e constitutiva - o autômato apresenta-se perante a morte como vaso fraturado, incapaz de ser continente. Aquilo que existe nele de humano é, portanto, perversão do humano: poder estéril e força devastadora.

Nossa obsessão pela vida, de outra parte - a preocupação insuperável em corrigir a natureza, de modo a apagar todas e quaisquer marcas do fluir do tempo: o recurso à cirurgia plástica e à lipoaspiração, o botox; a ginástica e a disciplina de si, no exercitar-se e no comer - não é de modo algum sua celebração, decorrendo do desespero por uma não-vida, cuja face repulsiva nos impõe não apenas a recusa da morte, mas seu desterro simbólico como obsessão, ou seja, o aniquilamento de todos os seus sinais e indícios, suas pegadas e rastros.

Não queremos mais vida, pois somos de saída incapazes dela; queremos dilatar o tempo, na expectativa de que um dia possamos efetivamente existir como aquilo que é verdadeiramente humano. O tempo que nos damos e que nos é dado, contudo, também ele, tanto quanto aquele do autômato, está vazio. Este tempo vazio, exatamente ele, é o elemento infernal sob a aparência do normal e do corriqueiro: a experiência que se divorciou do afeto é repetição mecânica e maquinal. Na circularidade do repetir-se, contudo, o humano já aproximou o autômato, para realizá-lo.

A partir de 1936 (...) Benjamin vai reintegrar cada vez mais o momento romântico em sua crítica marxista sui generis das formas capitalistas de alienação. Por exemplo, em seus escritos dos anos 1936-1938 sobre Baudelaire, ele retoma a idéia tipicamente romântica, sugerida em um ensaio de 1930 sobre E. T. A. Hoffmann, da oposição entre a vida e o autômato. Os gestos repetitivos, vazios de sentido e mecânicos dos trabalhadores diante da máquina - aqui Benjamin se refere diretamente a algumas passagens de O capital de Marx - são semelhantes os gestos autômatos dos passantes na multidão descritos pro Poe e Hoffmann. Tanto uns quanto outros, vítimas da civilização urbana e industrial, não conhecem mais a experiência autêntica (Erfahrung), baseada na memória e na tradição cultural e histórica, mas somente a vivência imediata (Erlebnis) e, particularmente, o Chokerlebnis [a experiência do choque] que neles provoca um comportamento reativo de autômatos “que liquidaram completamente sua memória”. (LÖWY, 2005, p. 27-28)

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