Auschwitz e a filosofia da história
Sem embargo, origem e fim permanecem obscuros. Quando a História nos atinge, não nos permite repouso. Gostaríamos de encontrar fora da História, uma posição a partir da qual nos fosse possível viver nela. (JASPERS, 1985, p. 33).
Hitler é aclamado pela aquisição pacífica da Áustria.
Fonte: http://www.archives.gov/research/ww2/photos/
A experiência do terror nazista nos legou algo de insuperável, ou seja, nos levou a duvidar da filosofia da história. Não se quer estabelecer com essa afirmação a redução simplista e bizarra, que faz Auschwitz derivar dos próprios fundamentos da cultura ocidental. Auschwitz não nasce da razão, nem mesmo da razão instrumental, mas do irracionalismo; é uma negação da cultura e um mergulho no mito; produto não das forças que clamavam pelo progresso, mas a resolução regressiva dos conflitos inerentes à ordem; resposta arcaica aos desafios colocados pelo desenvolvimento das modernas forças produtivas materiais.
Isso não impede que coloquemos em questão a presunção da filosofia da história, segundo a qual o progresso estaria em marcha, sendo cada momento da história apenas a realização de seu desenvolvimento, no caminhar resoluto ao topo do empreendimento humano. A história, aprisionada na fórmula da filosofia da história, transforma-se, de certo modo, em estética, posto que se transmuta no enredo pelo qual o ser, o ente, revela sua ontogênese e, neste caminho épico, depura-se a si mesmo de todos os dejetos que lhe são supostamente estranhos – resultando, então, como síntese artificial e evasão do sujeito concreto, histórico, para afirmação do esqueleto e do fantasma animado.
(...) A história não tem “sentido”, o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. Ao contrário, é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes, mas segundo a inteligibilidade das lutas, das estratégias, das táticas. Nem a dialética (como lógica da contradição), nem a semiótica (como estrutura da comunicação) não poderiam dar conta do que é a inteligibilidade intrínseca dos confrontos. A “dialética” é uma maneira de evitar a realidade aleatória e aberta desta inteligibilidade reduzindo-a ao esqueleto hegeliano; e a “semiologia” é uma maneira de evitar seu caráter violento, sangrento e mortal, reduzindo-a à forma apaziguada e platônica da linguagem e do diálogo. (FOUCAULT, 1979, p. 5)
Como, no entanto, o terror nazista não ocorreu fora da história, mas na história; como sua proporção foi de tal ordem, que ele jamais poderá serria (da modernidade), segundo a qual o progresso estaria em marcha, sendo cada momento hist talvez tenhamos nos e nos aceite,m resignificado; como deu mostras, até à exaustão, que o progresso convive com as forças da regressão, não se pode mais manter na visão ingênua, segundo a qual o espírito absoluto se desenvolve de si mesmo, até a perfeição, não importando aqui se ele anda sobre os pés ou sobre as mãos. O fato é que não podemos mais derivar a partir da filosofia da história, ou da história, a necessidade como lei natural e, muito menos, que ela, em existindo, o faça para garantir os propósitos do progresso.
A história como necessidade e lei natural, é a história já realizada e, portanto, ontologia ex post. A necessidade, como regularidade que se pode avocar, para demonstrar o sentido do futuro, mostrou-se uma quimera e a história foi cautelosa em desmentir todas as tentativas de prognose, não interessa de que campo elas tenham sido lançadas. O futuro permanece sempre como possibilidade e, portanto, como espaço em que se pode exercer a liberdade. E é por conta justamente desta indeterminação que, novamente, se requer o recurso à política, que reafirma que o futuro tem natureza probabilística.
Metropolis
(Fitz Lang, 1927)



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