As tarefas da filosofia
Afastada a ingenuidade segundo a qual o mundo vive um drama épico, cujo sentido é a realização da perfeição na terra, descoberto que o progresso e seu refluxo, na forma de regressão aos domínios da barbárie, convivem lado a lado, quais tarefas se impõem à filosofia e à ciência? Seguramente não se trata apenas de denunciar o nazismo, de compreendê-lo em sua singularidade, em lhe expor os horrores. Porque ainda que a memória não deva esquecer, mesmo que não se possa permitir simplesmente deixar ir, não é propriamente do passado que devemos falar; é o presente e o futuro que nos devem preocupar, pois mais do que uma curiosidade, uma aberração, uma sandice, o fato é que o fascismo existiu nos quadros da moderna sociedade de massas e, nesta especificidade que lhe é inerente, deve ser considerado como uma possibilidade recorrente. É nosso dever, portanto, compreender exatamente o que nela o tornou possível; é necessário ver e antever as pequenas cristalizações que, não sendo elas mesmas o fascismo, podem lhe dar substância. É fundamental estar atento, porque, diferentemente da crença de que o grande mal só se pode edificar pela grande loucura, é da pequena indiferença, de um certo senso de direito adquirido e de corações não especialmente envenenados que ele se nutre.
Masks Fighting over a Hanged Man
Fonte: http://www.all-art.org/art_20th_century/ensor1.html
James Ensor
http://www.pintoresfamosos.com.br/?pg=ensor
O terrível no fascismo não é apenas a sua crueldade e violência, porque o homem não foi até agora propriamente pacífico; o que o coloca para além de qualquer experiência humana anterior está no fato de que não foram homens de armas, particularmente especializados e preparados para matar, que perpetraram o absurdo; não foram nem mesmo milícias, agindo à margem de um comando central. A escala e a proporção do fenômeno só foram possíveis porque homens comuns - preocupados com suas vidas ordinárias, pais de família convencionais, que cuidavam de seu jardim nos fins de semana; que faziam amor com suas esposas; que eventualmente ouviam Mozart ou Beethoven, que iam à ópera, que compreendiam física e astronomia, que talvez tivessem lido Kant e Hegel - foram, de algum modo, co-responsáveis, quando não agentes diretos do horror.
O mal só foi verdadeiramente monstruoso porque se tornou, ao mesmo tempo, banal, minimalista, impregnando as vidas em todos os seus aspectos corriqueiros e cotidianos. Não pode ser apreendido na totalidade de sua extensão, portanto, apenas nas alturas em que vaga o espírito absoluto - como o querem muitos, e especialmente os idólatras da ordem, de todos os matizes. É preciso buscá-lo, igual e especialmente, no recesso dos lares, na competição da fábrica, no programa de domingo, na tagarelice sobre esportes, na espontaneidade anti-natural das piadas de mau tom; na perversidade de sujeitar crianças aos requerimentos maquinais de uma educação para vencer; na violência tácita, mas subliminarmente autorizada, contra as mulheres.
O fascismo não é uma irrupção das elites - por mais que elas o tenham apoiado com todo ardor de suas conveniências -, não é um regime oligárquico, predicando um mal metafísico, que pressuponha a erudição e o recurso à alta cultura. É, no essencial, um movimento de massa, cujo fundamento é a revolta do homem moderno contra a civilização, que o reduziu à dimensão de coisa animada. Fantasma em vida, perambulando sem rumo ou sentido, este homem requer a redução de tudo ao mesmo, a eliminação da diversidade, que a massa implica. O mal estar que permanece no interior da civilização, ele mesmo não sendo o fascismo, é prenúncio contínuo de sua possibilidade e requer, portanto, não este ou aquele esforço em particular, não aquela política especificamente. É necessário que a modernidade reveja seu projeto e que o submeta às metas de um humanismo radical.
As pequenas cristalizações que permanecem no âmbito da sociedade contemporânea não devem ser pensadas, contudo, como propriedade deste ou daquele grupo especificamente; algo que se possa facilmente identificar a partir de signos e insígnias exteriores. Seria muito simples se assim fosse. O que deve nos preocupar está associado ao fato de que muitas das condições que permitiram ao terror nazista ser um elemento banal, envolvendo pessoas medianas, não especialmente aptas para perpetrar atos de violência - mas capazes de sancionar o terror, com indiferença maquinal -, estas mesmas condições estão conosco, aqui e agora, como estiveram no passado recente e na mesma forma que a caracterizavam: sua familiaridade aparente; a falsa ancestralidade de uma concepção mórbida e perversa da vida, que se pretendia inerte em suas conseqüências sociais e políticas.
Skeletons Trying to Warm Themselves
Fonte: http://www.all-art.org/art_20th_century/ensor1.html
James Ensor
Nesse preciso sentido, ou seja, para a instituição do contemporâneo como afirmação desfigurada do arcaico - reminiscência do perverso como aquilo que é imediatamente prosaico -, são fundamentais condições essencialmente modernas: o sistemático empobrecimento e aviltamento das subjetividades (a preparação para competir, para fazer o que for, a fim de permanecer pairando sobre a superfície), a indiferença para com o próprio sofrimento, que se exterioriza sob a forma de total insensibilidade para com o sofrimento do outro e, por fim, ainda que não menos, o narcisismo irrefreável, que o consumismo tornado emblema só faz aumentar.
A proto-forma da horda fascista já se encontra na multidão, que se aglomera no mercado para a celebração da mercadoria, consagrando através desta reunião aleatória e probabilística, acidental, o coletivo como a representação daquilo que é igualmente isolamento e solidão - a vida como indiferença para com a vida, que se retribui ao preço de revolta aberta, sem objeto determinável; ódio atávico que precisa ser sanado, ainda que seja insanável. Esse turbilhão afetivo, essa contradição semovente, se resolvem no progom, e a contínua reposição da multidão como acidente mantém viva, ainda que temporariamente inerte, aquela mesma horda de que ele parte.
Pois a multidão é de fato um capricho da natureza, se se pode transpor essa expressão para as relações sociais. Uma rua, um incêndio, um acidente de trânsito, reúnem pessoas, como tais, livres de determinações de classe. Apresentam-se como aglomerações concretas, mas socialmente permanecem abstratas, ou seja, isoladas em seus interesses privados. Seu modelo são os fregueses que, cada qual em seu interesse privado, se reúnem na feira em torno da “coisa comum”. Muitas vezes esses aglomerados possuem apenas existência estatística. Ocultam aquilo que perfaz sua real monstruosidade, ou seja, a massificação dos indivíduos por meio do acaso de seus interesses privados. Porém essas aglomerações saltam aos olhos – e disso cuidam os Estados totalitários fazendo permanente e obrigatória em todos os projetos a massificação de seus clientes -, então vem à luz seu caráter ambíguo, sobretudo para os implicados. Estes racionalizam o acaso da economia mercantil – acaso que os junta – com o “destino” no qual a “raça” se encontra a si mesma. Com isso, dão curso livre simultaneamente ao instinto gregário e ao comportamento automático. (BENJAMIN, 2000, p. 58)
Moon Light 1 Edvard Munch
http://www.all-art.org/modern_art_20cent/munch1.html
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1 O homem em sua solidão moderna, apartado dos antigos vínculos comunitários, só existe como elemento da massa. Sua solidão, portanto, é uma forma correlata da multidão, no interior da qual não se distinguem os transeuntes.



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