Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

As possibilidades da razão iluminista

Os desenvolvimentos históricos, concretos havidos nas sociedades de massa, colocam necessariamente em questão a ontologia marxiana do sujeito da história 1. Nem tanto porque os desenvolvimentos contemporâneos negam a possibilidade da existência deste mesmo sujeito, mas, muito pior, porque sua ação na história vem se fazendo não segundo o desenvolvimento necessário imaginado por Marx, ou seja, a superação do capitalismo por meio do socialismo, da necessidade pela liberdade. Esta constatação tem levado, como tendência, a um abandono puro e simples do legado de Marx e da utopia socialista, ela mesma, vista como uma vertente das soluções totalitárias.

Observa-se, assim, um processo de recolhimento da razão iluminista, rechaçada pela ferocidade de sua própria realização na história. Entende-se, nesse contexto, que a razão não pretenda mais desenvolver um programa positivo e que se transforme em razão negativa, crítica. Mas este recolhimento da razão a um território puramente negativo, sancionando a um só tempo sua perda de potência e o reconhecimento de seus limites, é como um grito de horror diante de sua própria obra e ingenuidade. A dor de se ver no espelho, terrivelmente humano, falível, impotente, contraditório, sendo um golpe profundo na razão compromissada com emancipação, é ao mesmo tempo aquilo que a salva e distingue para permanecer ansiando pelo futuro.

O Grito

http://www.all-art.org/modern_art_20cent/munch1.html

(Edvard Munch, 1893)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Edvard_Munch

A fratura imposta pela contemporaneidade ao edifício da razão iluminista obrigou-a, portanto, a se distinguir em método, pretensões, alcance e sensibilidade, da razão instrumental, à qual ainda permanecia de ligada pela quimera do primado da objetividade, pela clivagem positivista entre sujeito e objeto e, muito especialmente, pela fé no progresso contínuo e ascendente da humanidade. A este propósito, a pretensão da ciência social em enunciar desenvolvimentos necessários, como movimentos do ser social, à parte da ação e compreensão humanas, só fez desterrar a fé no super-humano da religião, para que ele voltasse trajando o manto sacrossanto da razão, ainda que em sua acepção puramente mecânica e positivista.

Note-se que o retorno do obscurantismo cobrou o preço do seu desterro, pois se na ida partiu com uma cosmogonia que disciplinava a relação do homem com o universo, segundo uma compreensão teológica, em seu retorno apresentou-se sob a forma puramente material e terrena do conhecimento, declarando que todo o enunciado ético é uma exterioridade à razão, que só reconhece a si mesma como árbitro com o que demanda o domínio universal sobre a vida dos homens. A esta pretensão corresponde uma relação de senhorio com a natureza, que nos coloca diante da possibilidade bastante concreta, de que a unidade homem-natureza rompida venha se impor sob a forma de desastre total e final – afirmando-se, então, o progresso também como catástrofe.

É sobretudo nos diferentes textos dos anos 1936-1940 que Benjamin desenvolverá sua visão de história, dissociando-se, de forma cada vez mais radical, das “ilusões do progresso” hegemônicas no âmbito do pensamento de esquerda alemão e europeu. Um longo ensaio publicado, em 1937, na Zeitshcrift Für Sozialforschung, a revista da escola de Frankfurt (já exilada nos Estados Unidos), foi consagrado à obra do historiador e colecionador Eduard Fuchs. Nesse ensaio que contém passagens inteiras que prefiguram, às vezes literalmente, as teses de 1940 ele ataca o marxismo socialdemocrata, mistura de positivismo, evolucionismo darwiniano e culto ao progresso: “Ele só soube discernir, no desenvolvimento da técnica, o progresso das ciências naturais e não o retrocesso da sociedade [...]. As energias que a técnica desenvolve além desse patamar são destrutivas. Elas alimentam principalmente a técnica da guerra e de sua preparação jornalística.” Entre os exemplos mais claros desse positivismo limitado, ele cita o socialista italiano Enrico Ferri, que queria reduzir “não somente os princípios, mas também a tática da socialdemocracia às leis da natureza” e que imputava as tendências anarquistas encontrado no movimento operário à “falta de conhecimento de geologia e de biologia”. (LÖWY, 2005, p. 29-30)

A razão iluminista, portanto, agora depurada de suas ilusões mitológicas pode e deve colocar-se novamente em movimento, pois somente ela pode transmutar-se em razão ecologicamente orientada. Somente por ter recuperado os limites estritos e estreitos de sua humanidade, a razão iluminista pode pleitear um código normativo como inerente ao edifício da ciência e, portanto, apresentar um programa terapêutico, que nos permita conciliar possibilidades infinitas, com um repertório limitado de propósitos, que sejam compatíveis com os limites mesmo de nossa condição humana e de nossa relação necessária com a natureza. Se a modernidade pode ser responsabilizada por danos extensos à subjetividade e à relação do homem-espécie com a natureza, o programa da razão iluminista deve transformar-se em uma terapêutica reparadora, uma obra de sensibilização, uma busca do humano em nós como o que se humaniza a própria natureza, que passará a ter o semblante e a face do homem reconciliado, o outro como reconhecimento e acolhimento, e não como ameaça e hostilidade (na imagem que faz da natureza o homem vê a sim mesmo).

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1 Especialmente se a leitura da obra e das propostas de Marx forem feitas a partir do recorte hegeliano, desprezando-se, portanto, os elementos que indicam possibilidades distintas daquela, que representa a história como desenvolvimento progressivo e, de certo modo, fatalista.

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