Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

Amarcord

(Educar para competir e sobreviver)

Compõe o quadro cultural mais amplo, como antecedente histórico do fascismo, a presença de uma educação repressiva, autoritária e disciplinadora, cujo afã último era exatamente preparar o indivíduo para as exigências da sociabilidade moderna, ou seja, formar o homem que corresponda aos requerimentos da sociedade industrial, reforçando, portanto, os elementos alienantes que lhe são imanentes, bem como a cisão fundamental que a constitui. Por este meio são reforçados os valores competitivos e o individualismo, desenvolvendo-se uma capacidade sobre-humana de tolerar o esforço com fim adaptativo, relativamente a situações cambiantes e incertas, práticas que terminaram por levar a tipos humanos profundamente marcados por predisposições masoquistas.

Amarcord

(Federico Fellini, 1973)

http://www.federicofellini.it/

A irrupção da sociedade industrial de massas, a destruição dos anteparos sociais (no dizer de Karl Polanyi) e a dura luta pela sobrevivência – a elogiada educação para a vida – serviram de base para a recepção positivada de concepções de mundo baseadas na fórmula “só os fortes vencerão”, tão típica de um Estado sado-autoritário, como o fascismo. Pessoas exigentes consigo mesmas, capazes de grandes sacrifícios, de uma frugalidade permanente ou de abstinência em nome de uma doutrina moral; uma virilidade baseada na capacidade de suportar o esforço extenuante e a dor; a lógica da acumulação para o usufruto futuro ou medo de exposição ao desencanto no presente marcariam a sublimação em masoquismo das pulsões originariamente voltadas para o prazer; em seu conjunto tais práticas garantiriam, para si e seus filhos, uma educação autoritária; masoquistas consigo mesmos, apresentariam uma face sádica ante o outro; em suma, ser duro consigo abriria o caminho para ser cruel com o outro.

O link fundamental entre o individual e o coletivo residiria no medo (Neumann), na alienação (Marx) ou no mal-estar (Freud) onipresente no homem da sociedade industrial de massas, regida por uma ordem heteronômica, individualista e competitiva. Há, sem dúvida, um medo real, concreto, ligado às garantias do trabalho, de velhice, de aceitação profissional – em suma, do sucesso na moderna sociedade capitalista. De outro lado, um medo neurotizado, “produzido pelo eu com o fim de evitar, por antecipação, a mais remota possibilidade de perigo”. Essa junção permite a intensificação dos medos reais e a busca ansiosa de garantias, normalmente encontradas na figura de um líder carismático. É a libido, reprimida em face dos medos interiores, que surge como argamassa da identificação da massa com seu líder. É desta mesma forma que o indivíduo é alienado com um eu próprio, como uma identidade de si mesmo, em favor da plena identificação com seu líder. (SILVA, 2003, p.154)


Amarcord

(Federico Fellini, 1973)

http://www.terra.com.br/cinema/favoritos/fellini.htm


Contribui muitíssimo para esta propensão sado-masoquista a exultação de uma determinada espécie de virilidade como valor, algo presente não apenas no fascismo enquanto tal, mas também na cultura alemã que o antecedeu. A valorização desta virilidade orienta a estética, tornando as figuras masculinas nuas e descomunalmente grandes um lugar comum. O esporte, contudo, acaba por se reger pelo mesmo fenômeno, com a vantagem de fundir em um mesmo espetáculo o culto do corpo e o amor da pátria.

A idéia de que a virilidade consiste num grau máximo da capacidade de suportar a dor de há muito se converteu em fachada de um masoquismo que – como mostrou a psicologia – se identifica com muita facilidade com o sadismo. O elogiado objetivo de “ser duro” de uma tal educação significa a indiferença contra a dor em geral. No que, inclusive, nem se diferencia tanto a dor do outro e a dor de si próprio. Quem é severo consigo mesmo adquire o direito a ser severo também com os outros, vingando-se da dor cujas manifestações precisou ocultar e reprimir. Tanto é necessário tornar consciente esse mecanismo quanto se impõe a promoção de uma educação que não premia a dor e a capacidade de suportá-la, como acontecia antigamente. Dito de outro modo: a educação precisa levar a sério o que já de há muito é conhecido da filosofia: que o medo não deve ser reprimido. Quando o medo não é reprimido, quando nos permitimos ter realmente tanto medo quanto esta realidade exige, então justamente por essa via desaparecerá provavelmente grande parte dos efeitos deletérios do medo inconsciente e reprimido. (ADORNO, 1995, p. 129)

Mantemo-nos, contudo, firmemente na contramão desta advertência. A educação capitulou diante do pragmatismo; rendeu-se às exigências do preparar para competir e para sobreviver, que contaminam seus valores e inundam todo seu aparato imagético. A meta da educação passa a ser então a prova e o conhecimento um meio para este fim. Deste modo, o estudar passa a ser intrinsecamente competitivo, gerando uma escala diferencial dos indivíduos, que se mede diretamente pela nota, pelo título e pela performance. A capacidade das crianças em lidar com uma avalanche de informações, com as infinitas exigências de um aprendizado desconexo, mas obrigatório, e com o estresse são uma antecipação de suas habilidades futuras, conquistadas ao preço do sacrifício de sua vivência lúdica. A educação é uma fórmula: a criança é um pequeno adulto.

Que a psicologia o negue; que a pedagogia abra revolta aberta, nada disso muda uma determinação que é macro-social: apenas aqueles que forem devidamente despersonalizados, que perderem decididamente a faculdade de interagir ludicamente com o mundo, que desenvolverem a frieza que a situação requer - o sangue de barata -, que aderirem incondicionalmente ao projeto que os torna autômatos produtivos; apenas estes têm chances infinitas de êxito. Cada fracasso em atingir este padrão, que se pode objetivamente medir por meio da nota e da performance - e que se expande como uma metástase na sua abrangência de novos campos e exigências -, equivale a uma redução na probabilidade futura do êxito. Nestes termos, a educação também ela se converte em uma linguagem, cujos símbolos os lêem o capital. Não poderia deixar de ser matemática sua natureza, pois para o capital, toda a qualidade é uma sina de redução ao meramente quantitativo.

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