Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



Ato II Ato III Ato IV

Índice
(Ato I)

Amém

(As possibilidades distópicas da redundância)

Na era de um capital repaginado, tornado pós-moderno e arrancado da história, quase tudo que se afirma no texto principal é devidamente suprimido nas entrelinhas, na inação e na impossibilidade mesmo de uma ordem, que transforma homens em contingências, redundâncias que respiram e que, portanto, poderiam deixar de existir sem que daí grande prejuízo pudesse advir. Não chega nem mesmo a haver oposição no velho sentido das lutas capital versus trabalho, pois os redundantes sequer têm um papel que potencialmente poderia apresentar alguma negatividade para a ordem. Não se trata nem mesmo, talvez, de um lumpem proletariado, no sentido marxista do termo, uma vez que parece não haver possibilidades de vínculos entre os redundantes e o emprego.

(...) Uma quantidade importante de seres humanos já não é mais necessária ao pequeno número que molda a economia e detém o poder. Segundo a lógica reinante, uma multidão de seres humanos encontra-se assim sem razão razoável para viver neste mundo, onde, entretanto, eles encontraram a vida.

Para obter a faculdade de viver, para ter os meios para isso, eles precisariam responder às necessidades das redes que regem o planeta, as redes dos mercados. Ora, eles não respondem – ou antes, são os mercados que não respondem mais à sua presença e não precisam deles. Ou precisam muito pouco e cada vez menos. Sua vida, portanto, não é mais “legítima”, mas tolerada. Importuno, o lugar deles neste mundo lhes é consentido por pura indulgência, por sentimentalismo, por reflexos antigos, por referência ao que por muito tempo foi considerado sagrado (teoricamente, pelo menos). Pelo medo do escândalo. Pelas vantagens que os mercados ainda podem tirar disso. Pelos jogos políticos, pelas jogadas eleitorais baseadas na impostura de ver em curso uma “crise” provisória que cada campo pretende ser capaz de estancar.

E depois, determinado bloqueio atávico das consciências impede de aceitar de imediato uma implosão. É difícil admitir; impensável declarar que a presença de uma multidão de humanos se torna precária, não pelo fato inelutável da morte, mas pelo fato de que, enquanto vivos, sua presença não corresponde mais à lógica dominante, uma vez que já não dá lucro, mas, ao contrário, revela-se dispendiosa, demasiado dispendiosa. Ninguém ousará declarar, numa democracia, que a vida não é um direito, que uma multidão de vivos está em número excedente. Mas num regime totalitário, será que não se ousaria? Já não se ousou? E, embora deplorando, será que já não admitimos o princípio, quando a uma distância igual àquela de nossos locais de férias a fome dizima populações? (FORRESTER, 1997, p. 27-8)

Será que já não se admite a eliminação dos redundantes - em princípio -, na justa medida que se aceita como natural a morte de milhões logo ali, a algumas horas de vôo; no bairro ao lado, na favela. O que difere os pobres diabos daqui e dali e os judeus húngaros dos poloneses? E a compressão espaço-temporal, que deveria ser libertária e desvincular-nos de nossas limitações locais, tribais, etc.? Será que ela não cumpre igualmente o papel de tornar os “incluídos” indiferentes quanto ao destino dos “excluídos”; será que ela não reforça um certo narcisismo, que permite ir ao safári logo ao lado do campo de refugiados, fazer sexo com menores em várias partes do mundo subdesenvolvido, e assim por diante?

Esta redundância para fins da reprodução da ordem não se limita, contudo, aos deserdados no interior das fronteiras nacionais. Há em construção uma assimetria na própria ordem internacional, que exclui de pronto a quase totalidade daqueles que, no interior de fronteiras determinadas, não participam do processo de internacionalização econômica, nos moldes em que ele vem se apresentando no período posterior à década de 1970 1:

A concentração das atividades econômicas internacionais no fim do século XX aparece, também, quando se considera a distribuição da parte que cabe aos países mais atrasados. Como nota Rogolski, a “globalização” opera uma verdadeira fratura entre uma dezena de países em desenvolvimento, que são admitidos nos mercados internacionais de capitais e todos os demais. Nos anos 90, tem sido muito elevado o grau de concentração dos investimentos diretos realizados nos países em desenvolvimento. Apenas dez países responderam por nada menos que 77,3% do total de investimentos recebidos por 147 países em desenvolvimento em 1995. Os cinco principais países – China, México, Malásia, Cingapura e Brasil, nessa ordem – receberam 60,6% do total. Só a China respondeu por 37,6%. Na outra ponta, os 48 países menos desenvolvidos receberam, em 1995, apenas US$ 1,1 bilhão sob a forma de investimento direto estrangeiro, 1,1% do total recebido pelo conjunto dos países em desenvolvimento. Note-se, finalmente, que excluída a China, a participação dos países em desenvolvimento no total mundial de ingressos de investimento direto cresceu de forma modesta na primeira metade dos anos 90, em comparação com o registrado em 1984-89 (...).

Diante desses dados, há quem prefira referir-se a “globalização excludente” ou “globalização concentradora”, oxímoros verbais que só contribuem para aumentar a confusão reinante na caracterização do quadro internacional. Não é evidente que a expressão “globalização” perde o sentido quando não se refere a um processo includente? Mas se “globalização includente” é um pleonasmo, “globalização excludente” só pode ser uma contradição em termos. (BATISTA JR., 1998, p. 154)

Não se pode esquecer, que à semelhança das sociedades escravistas - onde o trabalho escravo determinava a natureza e valoração mesma do trabalho livre -, em uma sociedade de redundantes, o trabalho ocupado encontra-se determinado em sua dinâmica pelo termo que se lhe opõe. Nossa sociedade, portanto, é uma sociedade onde o medo e a insegurança estão permanentemente presentes, não sendo mitigados por aquelas velhas instituições, que o Estado do bem-estar construiu e que a hegemonia neoliberal pôs por terra.

Que este fato passe completamente despercebido para os neoliberais ou que eles se mostrem indiferentes a ele, já mostra a natureza mesma das teorias que advogam. O arquétipo do mais forte, daquele que supera a dor e o medo, que se mortifica à meta, a qual se apresenta como absoluta, sem grau ou transigência, não é uma propriedade intelectual do fascismo (o que vale igualmente para o masoquismo que a ele se associa, e que não pode deixar de ser compensado por um sadismo de igual magnitude). Não admira, portanto, que a estatística sócio-econômica não cause rubor a quase ninguém, especialmente no interior de governos francamente neoliberais ou naqueles que o são de modo relativamente acanhado, quando não dissimulado.

O fato é que, os arautos da ordem, seus beneficiários e seguidores por conveniência ou convicção não podem ver a condição humana como algo que se estenda para além dos limites de seu próprio mundo. A impessoalidade e racionalidade totais do mercado, pregadas pelo neoliberalismo, como sendo a própria lógica econômica, implicam e culminam em concepções cuja natureza o passado já cuidou de revelar.

Amen

(Costa-Gravas, 2002)

http://www.filmreference.com/film/21/Costa-Gavras.html

A indignação com as crueldades cometidas torna-se tanto menor quanto menos semelhantes aos leitores normais são as vítimas, quanto mais morenas, “mais sujas”, mais próximas do dago elas são. Isso depõe tanto da atrocidade, quanto do espectador. Talvez o esquematismo social da percepção no caso dos anti-semitas seja de tal feitio que eles não vejam de todo os judeus como seres humanos. A asserção tão freqüente de que selvagens, negros, japoneses parecem animais, por exemplo macacos, já contém a chave para o pogrom. A possibilidade deste último é decidida no instante em que o olhar de um animal mortalmente ferido encontra o homem. A obstinação com que desvia de si tal olhar – “é apenas um animal” – repete-se sem cessar nas crueldades cometidas contra seres humanos, nas quais os autores precisam confirmar sempre de novo para si mesmos aquele “apenas um animal”, porque mesmo diante de um animal nunca puderam acreditar nisso por completo. Na sociedade repressiva, o próprio conceito de homem é uma paródia de imagem e semelhança. Faz parte do mecanismo de “projeção pática”, que os detentores do poder só percebam como humano o que é sua imagem refletida, ao invés de refletirem o humano como o que é diferente. O assassinato é, assim, a tentativa sempre repetida de, através de uma loucura maior, distorcer a loucura dessa percepção falsa, transformando-a em razão: o que não foi visto como ser humano, e, no entanto, é um ser humano, torna-se uma coisa, para que não possa mais refutar por nenhum impulso o olhar maníaco. (ADORNO, 1993, p. 91- grifos meus)

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1 Apresentada nos termos de Chesnais, a questão tem os seguintes contornos:

(...) A polarização é, em primeiro lugar, interna a cada país. Os efeitos do desemprego são indissociáveis daqueles resultantes do distanciamento entre os mais altos e mais baixos rendimentos, em função da ascensão do capital monetário e da destruição das relações salariais estabelecidas (sobretudo nos países capitalistas avançados) entre 1950 e 1970. Em segundo lugar, há uma polarização internacional, aprofundando brutalmente a distância entre os países situados no âmago do oligopólio mundial e os países da periferia.

Estes não são mais apenas países subordinados, reservas de matérias-primas, sofrendo os efeitos conjuntos da dominação e do intercâmbio desigual, como na época “clássica” do imperialismo. São países que praticamente não mais apresentam interesse, nem econômico, nem estratégico (fim da “guerra fria”), para os países que estão no centro do oligopólio. São pesos mortos, pura e simplesmente. Não são mais países destinados ao “desenvolvimento”, e sim áreas de “pobreza” (palavra que invadiu o linguajar do Banco Mundial), cujos emigrantes ameaçam os países democráticos. (CHESNAIS, 1996, p. 38-39)


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