Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

Almas Perversas

(O capacitor I)

O homem médio, inseparável das condições societárias capitalistas massacrado pela candura do fim de tarde de domingo, de jornal na mão, barba por fazer, enfastiado com a insondável desolação do tempo sem ocupação e com as rotinas sem propósito -, ainda que estranho e extrínseco ao poder que conduz o mundo é, a rigor, a substância nuclear deste mesmo poder, seu elemento energético essencial. Em uma sociedade de massas, ciosa da redução de toda a diversidade a padrões os quais permitem gerar consumo estável, produção programável, homens previsíveis , o herói teria necessariamente que se apresentar como uma grandeza mecânica e estatística; um fenômeno probabilístico e, por força desta redução, sucumbir a uma sociabilidade frágil, fugidia, que tende a se transformar em potência claramente hostil; contra-partida necessária de uma vida dissociada do prazer.

Almas Perversas

(Fritz Lang, 1945)

http://www.viaggio-in-germania.de/lang-links.html

Deste modo a sedução fascista se faz presente, mesmo quando não se mostra ostensiva refugiada que está no pequeno aborrecimento; no ressentimento por um reconhecimento pessoal ao mesmo tempo aguardado e eternamente diferido; na existência experimentada como exterioridade e vacuidade. O fascista como tipo, repousando no seio da contemporaneidade, não está no manicômio, não é particularmente perverso e, não traz sobre si qualquer traço distintivo especial: é um ressentido e um impotente. Encontra-se esmagado entre as exigências da ordem - que não se vê em condições de recusar - e a sensação insuperável de desconforto, de ter sido passado para trás, de ter visto oportunidades negadas: é um poeta que não cultiva a poesia; um pintor que tem na pintura um hobby; um jogador de futebol como hooligan; um sensível que é cruel e, no qual, a crueldade pode tomar tanto a forma de uma irrupção violenta, quanto a de uma retribuição metódica, frívola e burocrática de toda a sua frustração para com a vida.

Almas Perversas

(Fritz Lang, 1945)

http://www.hoycinema.com/perfil/Fritz-Lang.htm

O burguês cuja vida se divide entre o negócio e a vida privada, cuja vida privada se divide entre a esfera da representação e a intimidade, cuja intimidade se divide entre a comunidade mal-humorada do casamento e o amargo consolo de estar completamente sozinho, já é virtualmente o nazista que ao mesmo tempo se deixa entusiasmar e se põe a praguejar, ou o habitante das grandes cidades de hoje, que só pode conceber a amizade como social contact, como o contato social de pessoas que não se tocam intimamente. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 145-6)

A aproximação meramente instrumental, a familiaridade de conveniência, a solidariedade dada apenas pelo relacionamento entre papéis e exterioridades de mesma ordem forjam, por sua vez, lenta, mas firmemente, uma frieza sem a qual não seria possível haver um fenômeno propriamente fascista. A insensibilidade que a sociedade contemporânea requer, como elemento adaptativo natural e insuperável a capacidade de decidir o destino do outro, prescindindo de sua humanidade, ou ainda, tomando a humanidade como condição de uns poucos , é um atributo sem o qual não se pode imaginar soluções verdadeiramente totalitárias.

O fascista se revolta e pragueja, portanto, por que a modernidade, o tendo libertado de toda sobre-determinação imposta pela tradição, o tendo tornado homem comum, em geral, só o fez deixando-o à própria sorte. Deste modo, o fascismo não é uma revolta contra a ordem, mas justamente a demanda de uma ordem implacável e absolutamente impositiva, que obrigue a todos, de vez que a modernidade é apreendida como um mundo anárquico e cindido, que sobrecarrega alguns e torna libertinos outros. Aos olhos do fascista, a civilização falhou em cumprir suas promessas, razão pela qual sua substituição pela barbárie não se lhe apresenta como mergulho e imersão no leito caudaloso de potências regressivas, mas como construção de um império que deveria durar mil anos, uma ordem total, sem nuances e diferenças – o social como fusão.


Green Street Hooligans

(Lexi Alexander, 2005)

http://imdb.com/name/nm0591994/

O déficit imaginativo, a covardia e a submissão mecânica ao aqui e ao agora não se lhe apresentam, portanto, como aquilo que de fato são - atração irresistível e identificação insuperável com a ordem e as potências mesmas que o oprimem -, mas sob a forma de uma necessidade urgente e inclemente de restaurar magicamente o mundo, que só é capaz de apreender na condição do que é corrompido, decadente e obsceno. Deseja, portanto, colocá-lo no verdadeiro caminho, devolver-lhe a pureza original e virginal, de modo a que ele, o herói anônimo, o paladino do para lá de humano, possa encontrar o lugar que lhe cabe em uma ordem devidamente regenerada e redimida. O verdadeiro fascista não aspira ao futuro, mas, pelo contrário, espera que as forças tectônicas de um passado idealizado e alucinado atávico venham emprestar, a ele, este esquecido pela história, a ira santa que irá por fim levá-lo ao lugar que lhe cabe.


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