Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



Ato II Ato III Ato IV

Índice
(Ato I)

Alemanha, Ano Zero

A câmera trafega por uma Berlin devastada; cenário apocalíptico, em que se vive segundo a mesma resignação que esteve vinculada ao nazismo. É como se o elemento humano não fosse mais do que um pequeno acréscimo, a um mundo completa e anteriormente naturalizado. O protagonista do filme é, em sua condição infantil, um pequeno adulto: responsável, trabalha por um irmão - que renuncia ao espaço público, por receio de ser encarcerado pelos americanos - e por um pai inválido. Não reclama, não se revolta e nem mesmo se impacienta. Procura em tudo e por todos os lugares, meios para sobreviver e manter sua família. O pai, à sua vez, reduzido à mais completa impotência, reclama de seu estado e clama pela morte, como se ela lhe caísse como um ato de libertação. A irmã, vivendo com todos na mais dura miséria, não tem coragem de se prostituir, mas não tem igualmente firmeza para se manter isenta do clima geral de degradação e desespero que assola a cidade. Flerta e estimula a imaginação, por uns poucos cigarros, enquanto espera por um noivo improvável.

Alemanha, Ano Zero

(Rosselini, 1947)

É nesse cenário de total desesperança e desespero, de vidas suspensas por um fio, que se dá o encontro entre o protagonista e seu antigo professor, do período anterior à guerra. Entre as pequenas vilanias - de que a venda de material de propaganda nazista a soldados americanos curiosos é um exemplo -, ocorre um episódio decisivo: ciente do fato de que seu pai deve deixar o hospital, para retornar ao convívio da família, sabendo ainda que isso somente fará aumentar a penúria de todos, o jovem Edmund procura o professor para obter ajuda. Aquele, fixado em um outro garoto que atraíra a seu convívio, responde às indagações de Edmund de modo praticamente mecânico, esquemático. Desfila, então, mesmo que involuntariamente, mas segundo uma programação imutável, todo o rosário de preceitos nazistas, ou seja, a necessidade de tomar iniciativas, os dogmas da eugenia, a crença inflexível no sacrifício dos fracos às necessidades dos fortes, etc. Reverbera, assim, as práticas pedagógicas que Adorno atribuiu como elemento pertencente não apenas ao nazismo histórico, mas também ao fascismo como possibilidade e recorrência: na educação para ser forte, para perseverar a qualquer custo, perde-se a dimensão da dor no outro, juntamente com a ampliação, até as raias da insanidade, da capacidade de se impor suplícios.


Alemanha, Ano Zero

(Rosselini, 1947)

http://www.filmref.com/directors/dirpages/rossellini.html

Instado, portanto, pela situação; tendo que agir e resolver o problema que se lhe impunha; completamente dominado e obcecado pela crença de que os mais fortes devem fazer valer suas necessidades, Edmund resolve, então, matar seu pai. E o faz com eficiência verdadeiramente maquinal e asséptica, de tal maneira que, ao fim, ninguém sequer imagina que um homicídio houvesse ocorrido.

A materialidade da morte, seus detalhes e pequenos rituais, o fazem, contudo, exasperar-se. Ele procura novamente o professor, para lhe contar o que fizera. Ao ouvir aquela narrativa o professor se desespera, não tanto pelo pai morto, mas pela eventual responsabilidade que pudesse lhe ser imputada. Passa, então, a agredir o pequeno Edmund, que gravitando entre o assassinato e a reprovação que lhe dirige o professor, mergulha no desespero de todos aqueles que caem em um mundo completamente rarefeito, em que o ser não encontra qualquer apoio ou referencial. Torna-se, então, uma existência impossível; a forma hedionda do esquematismo nazista, como síntese de sua própria infância. Seu íntimo está, portanto, devastado, e tão desolado quanto a paisagem que o cerca. A rigor são o mesmo, a forma acabada do esquematismo, da submissão total aos reclamos de uma lógica inumana: ruínas e devastação. Esse desespero, que é a condenação a uma não existência, se resolve no suicídio, forma exterior daquilo que o nazismo sempre demandou do psiquismo: que ninguém fosse mais um indivíduo.


Alemanha, Ano Zero

http://br.youtube.com/watch?v=6QPdyLofn1A

(Rosselini, 1947)

http://www.italica.rai.it/esp/cinema/biografias/rossellini.htm

O isolamento desses filisteus na vida privada, sua sincera devoção a questões de família e carreira pessoal, era o último e já degenerado produto da crença do burguês na suma importância do interesse privado. O filisteu é o burguês isolado de sua própria classe, o indivíduo atomizado produzido pelo colapso da própria classe burguesa. O homem da massa, a quem Himmler organizou para os maiores crimes de massa jamais cometidos na história, tinha os traços do filisteu e não da ralé, e era o burguês que, em meio às ruínas do seu mundo, cuidava mais da própria segurança, estava pronto a sacrificar tudo a qualquer momento – crença, honra, dignidade. Nada foi tão fácil de destruir quanto a privacidade e a moralidade pessoal de homens que só pensavam em salvaguardar suas vidas privadas. Em poucos anos de poder e coordenação sistemática, os nazistas podiam anunciar com razão: “A única pessoa que ainda é um indivíduo na Alemanha é alguém que esteja dormindo”. (ARENDT, 1990, p. 388)

* * *

Jovem morre por não ter R$ 10 para o remédio

Farmácia não quis vender ‘bombinha’ para asma e paciente desmaiou

http://www.estado.com.br/editorias/2007/12/15/ger-1.93.7.20071215.3.1.xml?

0 comentários: