Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)



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Índice
(Ato I)

Adeus, Lenin!

(A guerra justa)

A queda do muro de Berlin coloca-nos como questão intelectual incontornável a investigação dos limites práticos e teóricos, concernentes à transcendência da ordem, do aqui e do agora. Aquele evento, além da importância histórica e geopolítica evidentes, adquiriu o caráter de marco simbólico, como se estivesse decretado o fim da utopia socialista. Mas não é apenas disso que se trata; a questão não se resume apenas à crise do marxismo e das esquerdas: encontra-se desde então, sob suspeição e análise crítica, a própria noção de movimento, desenvolvimento, mudança. Com o fim do experimento socialista a história parece ter resultado como algo sobre o qual o homem não tem ação, tendo esta mesma história, por fim, evoluído para um ponto de máximo, o que resultaria no seu fim - no sentido de que não haveria formas de organização superiores ao capitalismo e à democracia liberal.

Adeus, Lênin!

(Wolfgang Becker, 2003)

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Os acontecimentos de 1989 assinalam uma mudança decisiva no Zeitgeist: a história faz ziguezague. Não há como extrair daí lições simplistas, mas é evidente que o radicalismo e o ideal utópico que o sustenta deixaram de ser forças políticas ou mesmo intelectuais importantes. E tampouco aplica-se isto exclusivamente aos adeptos da esquerda. A vitalidade do liberalismo encontra-se em seu flanco esquerdo, que funciona como seu crítico e cobrador. Sempre que a esquerda renuncia a um sonho, o liberalismo perde chão, torna-se flácido e instável. (JACOBY, 2001, p.23)

O recuo da mentalidade utópica e transformadora, ainda que perfeitamente configurado a partir dos eventos de 1989 ocorria, contudo, já em período anterior. A rigor, desde a assinatura do pacto de não agressão entre a Alemanha nazista e a União Soviética observa-se o crescimento de um sentimento de que, à parte das diferenças evidentes, haveria semelhanças não desprezíveis entre os dois regimes, as quais se consubstanciariam, essencialmente, no conceito de totalitarismo. A partir da convergência entre nazismo e socialismo, gerada ou apropriada por tal conceito, erigiu-se um respeitável conjunto de obras e autores, dos quais valeria citar com especial ênfase Hannah Harendt, Hayek e Karl Popper (RUSSELL, 2001, p. 65). Não tardou, no entanto, para que esta equivalência entre comunismo e nazismo, sob o conceito de totalitarismo, se transmutasse em uma negação da transcendência enquanto tal, uma vez que se considerou que esta levaria inexoravelmente a soluções de caráter totalitário.

Os textos sobre totalitarismo pressupõem uma equivalência aproximada entre o nazismo e o comunismo, sistemas totalitários empenhados em aprisionar a vida e o pensamento numa camisa-de-força. Entretanto, na medida em que marxismo, e não fascismo, era o objeto de estudo, verificou-se uma mudança de ênfase, e talvez de lógica. O pluralismo era celebrado em polêmica com a esquerda, e a denúncia do sistema totalitário foi transformada imperceptivelmente na denúncia da utopia, como se houvesse uma vinculação óbvia e necessária (...). (JACOBY, 2001, p. 66)

Adeus, Lênin!

(Wolfgang Becker, 2003)

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Dentro deste contexto, a tese de Fukuyama parece não ser mais do que uma espécie de signo dos limites que encontra nossa intelecção, quando se debruça sobre o passado imediato e as possibilidades de nosso futuro: o fato é que nossas mentes parecem ter atingido certo limite para a reflexão, algo que se cristaliza na sensação difusa de que o mundo deixou de girar, ou, se o faz, produz sempre o mesmo resultado e que tal resultado é o único que deveríamos efetivamente desejar, sob pena de ver se instalar entre nós a barbárie totalitária.

Do ponto de vista de um futuro diferente, o discurso dominante atual traduz uma concepção categoricamente fechada da história. De acordo com esse discurso, após a queda do “socialismo realmente existente” e o triunfo do sistema atlântico/ocidental, pode-se afirmar, de uma vez por todas, o fim das utopias, o fim da possibilidade de mudança de paradigma civilizacional. Nossa época foi a primeira, desde muito tempo (o início do século XIX?) que ousou, simplesmente, proclamar o “fim da história”: o célebre ensaio de Fukuyama não fez mais do que travestir em linguagem pseudo-hegeliana a convicção, profundamente enraizada, das elites dominantes na perenidade de seu sistema econômico e social, considerado não só infinitamente superior a qualquer outro, mas o único possível, o horizonte intransponível da história, etapa final e definitiva da longa marcha da humanidade. O que não quer dizer, para o discurso hegemônico atual, que o progresso - científico, técnico, econômico, social, cultural - não continue. Ao contrário, ele passará, dizem, por avanços formidáveis, mas no âmbito, fixado de uma vez por todas, da economia capitalista/industrial e do sistema dito “liberal-democrático”. Em poucas palavras, o progresso na ordem, como havia previsto tão bem Auguste Comte. (LÖWY, 2005, p. 154-155)

Mas esta maneira de colocar as coisas encerra uma contradição insolúvel, para todos aqueles que não estão subjetivamente aparelhados para suportar e aceitar a ordem. O filosofar que se lhes associa está absolutamente impregnado, portanto, pela ferida desta contradição e são, em suas manifestações individuais, reações distintas ao mesmo problema. A razão uma vez desterrada, recolheu-se sobre si mesma e nega, critica, um mundo do qual não pode fazer parte. Mas esta recusa, longe de fazê-la menor, a torna, como nunca, apta a relançar-se: depurada de sua pretensão cientificista, arrancada do ventre de que nasceu - a filosofia da história - volta a ser aquilo a que sempre esteve predestinada, ou seja, humanismo radical.


Adeus, Lênin!

(Wolfgang Becker, 2003)

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O choque totalitário de que renasce a razão é o ver-se-no-espelho do projeto da modernidade, e a porta de saída do terror desta visão não está exatamente no cinismo e no deboche - ainda que como estratégias sejam legítimos , mas seguramente em sacar da razão sua pretensão de divinização. A razão não tem mais legitimidade para flertar com o absoluto, para estatuir o futuro, com fundamento em desenvolvimentos necessários do presente e do passado. Ela pode, contudo potencializar a compreensão do homem para os limites de sua condição, realizando por intermédio desta demarcação, a dignidade que lhe é própria. A libertação do real é, por assim, dizer um ganho na luta contra a própria realidade, em sua forma imediata e em sua imutabilidade aparente. É uma gratuidade que advém da guerra justa, entre um homem que jamais nasce nas condições de existência que lhe são próprias e adequadas, e um mundo que clama por redenção.

(...) O indivíduo resistente se oporá a qualquer tentativa pragmática de conciliar as exigências da verdade e as irracionalidades da existência. Em vez de sacrificar a verdade pela conformidade com os padrões predominantes, ele insistirá em expressar em sua vida tanta verdade quanto possa, tanto na teoria quanto na prática. Terá uma vida conflituosa; deverá estar pronto para correr o risco de uma extrema solidão. A hostilidade irracional que o inclinaria a projetar suas dificuldades interiores sobre o mundo é superada pela paixão de realizar aquilo que o pai representava para ele na sua imaginação infantil, a saber, a verdade. Esse tipo de jovem - se é que se trata de um tipo - leva a sério aquilo que lhe foi ensinado. Não desiste de confrontar persistentemente a realidade com a verdade, de revelar os antagonismos entre os ideais e as realidades. A sua própria crítica, teórica e prática, é uma reafirmação negativa da fé positiva que teve quando criança. (HORKHEIMER, 2002, p 115-6)


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